O ex-padre que ensina como as empresas podem ser mais humanas
Leonel Ximenes
O ex-padre que ensina como as empresas podem ser mais humanas
Zeca de Mello é um dos palestrantes do Vitória Summit 2021, evento que será promovido pela Rede Gazeta nesta semana
Publicado em 21 de Novembro de 2021 às 02:09
Públicado em
21 nov 2021 às 02:09
Colunista
Leonel Ximenes
lximenes@redegazeta.com.br
Zeca de Mello: do púlpito das igrejas para as palestras empresariaisCrédito: Divulgação
A experiência de 18 anos de vida religiosa, dos quais 12 como padre, foi fundamental na formação de Zeca de Mello, este carioca de 50 anos de idade que é muito requisitado para dar palestras em todo país com ênfase na gestão e humanidades.
Graduado em Filosofia e doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, o professor da Fundação Dom Cabral é um dos palestrantes do Vitória Summit 2021, evento que a Rede Gazeta promoverá de 24 a 26 deste mês no Hotel Ilha do Boi, em Vitória. Ele falará sobre “Reaprender a aprender: desafios para pessoas e organizações”.
Mello hoje coloca seu conhecimento acumulado durante esse rico período de formação religiosa a serviço de organizações e empresas que, segundo ele, precisam se transformar para atender os desafios do mundo contemporâneo.
“A vida de padre é muito rica e dinâmica. Tinha uma vida bastante agitada e atendia pessoas de muitas idades e classes sociais diferentes, tanto na universidade quanto na paróquia, na Favela do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana. As grandes riquezas da minha experiência como padre carrego hoje na minha atividade como professor na área de gestão”, destaca.
Mello ressalta que a vida sacerdotal o ensinou, por exemplo, a escutar, consequência natural de um dos sacramentos católicos, que é a confissão. “Há a possibilidade de escutar o drama, os desafios, as esperanças das pessoas, de diferentes perspectivas. Como o próprio ofício do sacerdote pede na confissão, há a possibilidade de interagir com públicos tão diferentes, e isso de fato foi muito importante para minha formação.”
A Teologia e a Filosofia, as duas disciplinas que são os pilares da formação dos ministros ordenados da Igreja Católica, junto com a humanidade tão cara à vida religiosa, também podem ser úteis às organizações, de acordo com o professor.
“Isso me capacitou e me deu a possibilidade também de enxergar que aquilo que eu havia aprendido no estudo da Filosofia e da Teologia junto com a minha experiência poderiam ser úteis para os desafios atuais das organizações, das instituições, das empresas. Mesmo para uma pessoa muito distraída, ela vai perceber que os grandes desafios das organizações e das instituições hoje estão no campo das humanidades”, explica Mello.
"Quando a gente fala de humanidade, basicamente a gente está falando de três áreas importantes de serem desenvolvidas, ou seja, o pensamento crítico e autocrítico, a imaginação criativa e a compreensão empática do outro"
Zeca de Mello - Professor e palestrante
Para o professor, o mundo moderno exige das empresas muito mais do que responsabilidades financeiras. Há que se observar, segundo ele, o cuidado com a Terra e os princípios éticos, porque um novo modelo de trabalho surgiu, e com novas exigências. “Hoje existe o tema da diversidade, da inclusão,o desafio do cuidado com o planeta. É o desafio do engajamento genuíno, o desafio da integridade da ética nas organizações”, enumera
As mudanças, observa, exigem mais responsabilidades das empresas e organizações, um olhar atento além do ambiente interno. “Quando fiz minha pós-graduação em gestão, na época esses não eram temas tão importantes. Basicamente só se olhava para dentro das organizações e hoje nós vemos no mundo inteiro uma tendência de dar uma forte ênfase de humanidades porque o desafio também é da transformação da cultura. A transformação digital pede um novo modelo de trabalho onde não basta apenas comando e controle. Não é apenas obediência o que você quer, você quer um engajamento”, pontua.
Outro desafio muito importante, apontado pelo professor, é a preocupação que as empresas devem ter com a ética e a sociedade. “As empresas não têm apenas responsabilidades financeiras, elas também têm responsabilidades legais e responsabilidades éticas, ou seja, o impacto que causam na sociedade, na vida das pessoas. E quando a gente lida com o poder, logicamente a questão da ética aparece e esse é um tema que desafia profundamente os novos modelos de negócio, o impacto deles na vida das pessoas.”
"Nós precisamos nos imaginar diferentes, como fazer uma reunião onde você possa aprender a escutar melhor o outro. São coisas que a gente tem que se imaginar, a gente se imagina no lugar da outra pessoa. Hoje para a inovação isso é fundamental, entender a visão do outro, a perspectiva do outro"
Zeca de Mello - Professor e palestrante
Zeca de Mello afirma também que não é apenas com bons salários que as empresas conseguem o engajamento dos jovens. “Outras coisas são importantes, como por exemplo, o valor relacional. Mas também há um propósito transcendente, ou seja, quando aquele colaborador, aquele funcionário entende que ele está colaborando num projeto que vai fazer a diferença na vida das pessoas, na sociedade”.
E qual o principal ativo das organizações e instituições hoje em dia? A resposta de Zeca de Mello pode surpreender muita gente: confiança. “Por motivos óbvios, dentro da palavra confiança tem a palavra fé. O fenômeno da confiança não é propriamente a confiança em Deus. A confiança só pode ser cultivada sem esquecer que uma coisa é confiar em si mesmo e outra é ser capaz de confiar no outro. E o mais desafiador para as lideranças e para qualquer organização atualmente é ser digno da confiança do outro. E nunca esquecer que quando se trata de confiança, quem decide é o outro”, ensina.
Que então todos confiemos em um mundo melhor. E que organizações e instituições colaborem para que a humanidade alcance esse objetivo.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.