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Leonel Ximenes

O político se omitiu, o eleitor decidiu: no Brasil, o voto já é facultativo

Já não está na hora de transformar o ato de votar em direito, acabando com a obrigação?

Publicado em 28 de Outubro de 2024 às 16:49

Públicado em 

28 out 2024 às 16:49
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

lximenes@redegazeta.com.br

Simulação da eleição para demonstração do fluxo de votação, em uma seção eleitoral cenográfica, no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo
Simulação da eleição para demonstração do fluxo de votação, em uma seção eleitoral cenográfica, no TRE de São Paulo Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil
Os números são eloquentes, e são confirmados pela própria Justiça Eleitoral: quase 30% do eleitorado, em média, simplesmente não se deu ao trabalho de comparecer às urnas para votar nas eleições para prefeito nas 51 cidades brasileiras onde houve o segundo turno. Ou seja, na prática, o voto no Brasil já é facultativo.
Embora o Congresso Nacional resista em alterar a Constituição Federal para acabar com a obrigatoriedade do voto, o eleitor, por sua conta e risco, já transformou o ato de votar em direito - e não numa imposição.
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o índice de abstenção chegou neste domingo (27) a incríveis 29,26% do eleitorado, número praticamente igual ao registrado no segundo turno das eleições municipais de 2020, realizada sob o assombro da pandemia - o índice há quatro anos foi de 29,53%.

A ABSTENÇÃO NA SERRA

Vamos à nossa realidade próxima. Como mostrou a colunista Letícia Gonçalves, o “segundo colocado” na eleição de segundo turno na Serra foi a abstenção, que atingiu 33,17% (120.257) do eleitorado, número bem superior ao do candidato Pablo Muribeca (Republicanos), que teve 90.227 votos. O vencedor do pleito, Weverson Meireles (PDT), colheu nas urnas 138.071 votos, pouco mais de 18 mil votos acima da abstenção.
Candidato a Prefeitura da Serra, Pablo Muribeca, votou a tarde neste domingo
Candidato derrotado à Prefeitura da Serra, Pablo Muribeca teve menos votos que o índice de abstenção Crédito: Divulgação
O fenômeno da ausência nas urnas foi generalizado no país. No maior colégio eleitoral brasileiro, a abstenção, que foi de 31,54% do eleitorado, foi superior aos votos obtidos pelo segundo colocado em São Paulo. Traduzindo em números: deixaram de votar 2.940.360 eleitores, e escolheram o candidato do Psol, 2.323.901.
O vencedor na capital paulista, o prefeito reeleito Ricardo Nunes (MDB), foi a escolha de 3.393.110 votantes, apenas pouco mais de 452 mil votos que a abstenção.
Em Porto Alegre (RS), palco de uma disputa muito aguardada após as enchentes devastadoras deste ano, aconteceu a maior abstenção registrada neste segundo turno, entre as capitais: 34,83%.
Em Goiânia (GO) o índice registrado foi de 34,2%, e em Belo Horizonte (MG), de 31,95%. Nas cidades de Curitiba (PR) e Porto Velho (RO), a ausência nas urnas atingiu marcas também superiores a 30%.
Em apenas duas das 15 capitais onde houve segundo turno o índice de abstenção foi inferior a 20%: Fortaleza (15,84%) e Campo Grande (12,47%).
Ministra Cármen Lúcia, nova presidente do TSE
Ministra Cármen Lúcia, presidente do TSE Crédito: Luiz Roberto/TSE
Evidentemente que o fenômeno do absenteísmo eleitoral é complexo e não comporta apenas uma explicação, mas o fato é que é preciso rever o instituto da obrigatoriedade do voto no Brasil. Na maioria das grandes democracias no mundo, o ato de votar, mais que uma obrigação, se constitui em um direito que cabe ao eleitor decidir se quer ou não exercê-lo.

O VOTO PÓS-DITADURA MILITAR

No passado, principalmente após os anos tenebrosos da ditadura militar, um argumento - respeitável - defendia que seria preciso obrigar o eleitor a ir às urnas para garantir a prática democrática e tirar das mãos de uns poucos “mais conscientes” a prerrogativa de decidir o futuro político dos Municípios, dos Estados e da União. Mas este tempo passou.
Desde 1982, mesmo antes da queda formal da ditadura, o eleitor brasileiro é convocado a ir às urnas periodicamente, em média, de dois em dois anos. A primeira eleição presidencial pós-ditadura já vai para 35 anos. De 1989 para cá, só para presidente, o cidadão brasileiro já depositou seu sagrado voto nas urnas em nove pleitos democráticos.
Afinal, depois de tantos anos, ainda faz sentido o eleitor ser tutelado e, independentemente da sua vontade, ser obrigado a votar? Milhões, à revelia dos políticos, têm preferido “desafiar” a lei e não se importam em pagar à Justiça Eleitoral ridículos R$ 3,51 de multa pela ausência na eleição.
O ato de votar não precisa ser mais uma obrigação; é um direito como também é ter educação, saúde, habitação, meio ambiente saudável e segurança pública.
Se tem algo que deveria ser obrigado aqui, é o Estado brasileiro, em todas as suas esferas, honrar suas obrigações com o povo. Cumprir a Constituição, sim, é que é (ou deveria ser) obrigatório.

Leonel Ximenes

Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.

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