Na homilia proferida na manhã deste domingo (30), na Paróquia Santa Teresa de Calcutá, em Itararé, Vitória, o padre Kelder Brandão afirmou que o discurso do comando da
Polícia Militar do Espírito Santo estimulou a violência na região do Bairro da Penha e nas periferias de uma forma geral.
“Não é de hoje que a violência é praticada por policiais nas periferias, principalmente aqui em nosso território. Em vez de essa violência diminuir, ela só aumenta em nosso meio, alimentada pelo discurso de ódio e violência do comando da Polícia Militar, que dissemina o caos e o pânico para justificar as ações homicidas praticadas contra os mais empobrecidos, sob a justificativa falaciosa de combate ao tráfico de drogas”, enfatizou o sacerdote durante a missa do 4º Domingo da Quaresma .
O pároco, que também é coordenador do Vicariato para Ação Social, Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitória, definiu como “execuções sumárias” as mortes que ocorreram nos últimos meses na região onde está localizada sua paróquia.
“O que está por trás dessas ações que não é revelado para a sociedade? A quem interessam as execuções sumárias nas periferias? Quem se beneficia com tamanha violência e com essas mortes? Por que tanta omissão diante dos desmandos e discursos de ódio e violência feitos por autoridades públicas, que deveriam cuidar de todos os cidadãos? Por que fechar os olhos para o fato de que as forças de segurança estão matando mais que o crime no Estado?”, indagou.
Kelder Brandão cobrou as investigações dessas mortes e câmeras nos uniformes dos PMs que atuam na região: “Somente nos primeiros meses deste ano foram nove mortes. Por que essas mortes não são devidamente investigadas? Por que, até hoje, os policiais que atuam no território não têm as câmeras instaladas nos uniformes? O que eles tentam esconder? São respostas que gostaria de ter para podermos celebrar alegremente a Páscoa do Senhor que se aproxima”.
A homilia do padre Kelder Brandão acontece após
dias de tensão na Grande Vitória marcados por confrontos entre a PM e criminosos. A quarta-feira (26), por exemplo, foi sacudida por ataques a ônibus e viaturas da Polícia Militar. Em Vitória, as ocorrências foram registradas em Gurigica, São Benedito, Itararé, Bairro da Penha e em Camburi. No final da noite, após um coletivo incendiado em Camburi, mais um ônibus foi atacado, desta vez em Jacaraípe, na Serra.
Em entrevista coletiva após os conflitos resultantes da morte do traficante Andinho, o comandante-geral da PM, coronel Douglas Caus, disse que a Polícia Militar continuará realizando operações na região do Complexo da Penha, como ele denomina o local, “para manter a segurança e a proteção da sociedade”.
“O Estado do Espírito Santo não recuará no enfrentamento às facções criminosas e seguirá atuando com firmeza para neutralizar qualquer ameaça à ordem pública.Com equipamentos modernos e policiais altamente treinados, a Polícia Militar do Espírito Santo está preparada para responder a qualquer agressão contra a vida de seus policiais ou de civis inocentes”.
Sobre os confrontos, avisou: “Reafirmamos que a opção pelo confronto é exclusivamente do criminoso, cujo destino, diante da resistência armada, pode ser a prisão ou o Instituto Médico-Legal (IML)”.