O
papa Francisco é afável, simpático, bonachão, parece até aquele velhinho que todo mundo gostaria de chamar de vovô. Mas vovôs também se aborrecem e, por vezes, têm que botar ordem na casa. Francisco fez isso e acaba de enquadrar seus netos mais rebeldes, os tradicionalistas saudosos da Igreja pré-Concílio Vaticano II. Aos fatos.
Na sexta-feira 16, dia dedicado pelos católicos a Nossa Senhora do Carmo, o pontífice divulgou o motu proprio (documento papal sobre questões internas da Igreja) Traditionis custodes, que trata da regulamentação das missas em rito pré-conciliar.
No documento, o papa devolve a responsabilidade para os bispos diocesanos de decidir sobre a liturgia da missa tal como era celebrada antes de 1970, com as mudanças aplicadas pelo Concílio Vaticano II. Nessas celebrações, utiliza-se o missal (livro com as orações próprias da missa) de 1962.
Ou seja, a missa celebrada em latim, com o padre de costas para os fiéis (os tradicionalistas preferem dizer que o sacerdote está de frente para o altar), poderá ainda ser celebrada, mas com severas limitações.
Francisco, sempre tão cordial e tolerante, desta vez foi enfático: é para cumprir a determinação de Roma. “Tudo o que declarei nesta Carta Apostólica sob a forma de Motu Proprio, ordeno que seja observado em todas as suas partes”. Repare no “ordeno”. Ordem do papa não se descumpre: “Roma locuta, causa finita est”. Algo como “Roma [o papa, a Igreja] falou, a causa está encerrada”.
Mas estavam descumprindo. Um dos motivos alegados por Francisco para pôr ordem na bagunça foi aquilo que o Vaticano chamou de “instrumentalização” de uma liberalidade ofertada aos tradicionalistas, colocando em perigo a unidade da Igreja. Em 2007, o então papa Bento XVI editou o motu proprio Summorum Pontificum, garantindo a esses grupos o direito de participarem da chamada missa tridentina.
Mas a Santa Sé, em consulta aos bispos de todo o mundo no ano passado, ficou assustada ao saber que muitos desses agrupamentos estavam utilizando o rito pré-conciliar como instrumento de oposição à autoridade papal e até à legitimidade do Concílio Vaticano II. Em outras palavras: não reconheciam a autoridade de todos os pontífices desde João XXIII (1958) até o presente momento.
A vida dos tradicionalistas não vai ficar fácil após a Traditionis custodes (guardiões da tradição). Eis algumas decisões do documento papal:
A reação a tamanha restrição não tardou. Na internet, grupos tradicionalistas mais radicais já falam abertamente em desobedecer às determinações de Francisco, um dos pontífices considerados ilegítimos pelos adeptos da igreja pré-conciliar e da missa tridentina, a qual denominam "a missa de sempre”.
Resta saber se essas ameaças de desobediência à autoridade do pontífice romano irão prosperar ou se é apenas uma reação emocional dos conservadores diante do choque das decisões de Francisco. Mas fica a dúvida: e se prosperarem, o que Roma fará? Vai excomungá-los? Será que temos mais um Cisma à vista?