O nome do pastor presbiteriano Jaime Wright está na história da luta pela resistência democrática e pelos
direitos humanos no Brasil. Ao lado do cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns e do rabino Henry Sobel, ele escreveu o livro “Brasil: Nunca Mais”, considerado o mais completo relato sobre a tortura de prisioneiros políticos durante a ditadura militar e marco na história dos direitos humanos no país.
Pois agora é o reverendo, que viveu no Espírito Santo e morreu em Vitória em 1999, que vai ser incluído em um livro. Mais precisamente no "Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria", uma honraria aprovada pelo
Senado e que agora vai a sanção do presidente Lula (PT).
A proposta de inclusão do pastor no Livro dos Heróis teve relatoria do senador Flávio Arns (PSB-PR) na Comissão de Educação, Cultura e Esporte, e foi apresentada pelo ex-deputado Fábio Sousa (PSDB-GO).
"Não há dúvida que a homenagem é justa e meritória. Inscrever o nome do pastor Jaime Nelson Wright no ‘Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria’ é um ato nobre de reconhecimento desse corajoso líder religioso que sofreu na própria pele os tormentos da ditadura no Brasil", ressalta Arns, sobrinho de dom Paulo.
Quando fala em “tormentos da ditadura”, o senador Flávio Arns faz referência à experiência pessoal do pastor presbiteriano. No final da década de 1960 e início da década de 1970, o reverendo Jaime Wright, filho de pais norte-americanos, exercia seu ministério no interior da
Bahia e já encabeçava movimentos contra a tortura.
Em 1973, seu irmão Paulo Stuart Wright, que anos antes tivera o mandato de deputado estadual por
Santa Catarina cassado pelo AI-5, foi morto nas dependências dos órgãos de repressão do regime. "A busca pessoal do reverendo Wright pelo irmão fez com que reunisse farta documentação sobre a tortura e os assassinatos praticados pelo Estado brasileiro", explica o relator, em declaração à Agência Senado.
“A consulta sigilosa a 707 processos, a listagem de 1.843 casos de tortura e a fixação em 125 do número de desaparecidos no período compreendido entre os anos de 1964 e 1979 – geralmente mortos durante interrogatórios e sepultados com falsa identidade — formaram uma base de dados nunca contestada pelos policiais e militares implicados", observa o senador Flávio Arns em seu relatório.
Como resultado do vasto material coletado, o pastor presbiteriano escreveu, em coautoria com dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016) e com o rabino Henry Sobel (1944-2019) o livro “Brasil: Nunca Mais”. Publicado em 1985, “Ditadura Nunca Mais” ficou listado por 91 semanas como o livro de não-ficção mais vendido no Brasil.
Natural de Curitiba (PR), o reverendo Jaime Wright estava aposentado como pastor da
Igreja Presbiteriana Unida quando morreu de infarto em Vitória (ES), em 1999, aos 71 anos de idade, deixando mulher e cinco filhos. Ele chegou à capital capixaba em 1988, para assumir seu cargo de secretário-geral da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU), função que exerceu até 1993.
"O reverendo Jaime era uma figura notória na área de direitos humanos, e assim nunca deixou de participar de eventos relacionados. Ele era sempre consultado sobre dados do "Brasil Nunca Mais", especialmente quando uma pessoa era indicada para um cargo público, para saber se não estava na lista dos torturadores da ditadura", lembra Anita Sue Wright Torres, presbítera da IPU e filha de Jaime Wright, que mora em Vitória.
Anita destaca a amizade entre o seu pai e o cardeal Arns, dois religiosos que foram gigantes na luta contra a ditadura militar. "Seu maior legado para a democracia e os direitos humanos foi o trabalho em parceria com dom Paulo Evaristo Arns, que nasceu da necessidade de encontrar seu irmão Paulo Stuart Wright, militante da Ação Popular, que foi preso e torturado até a morte em 1973."
Uma amizade que foi decisiva na luta pela redemocratização do país, pontua a presbítera. "Desta parceria nasceu uma grande amizade que possibilitou diversos trabalhos na defesa dos direitos humanos, inclusive a sua participação na missa celebrada na Catedral da Sé na ocasião da morte do jornalista Wladimir Herzog, em 1975. Porém, o maior foi, sem dúvida, o Projeto "Brasil Nunca Mais", com o lançamento do livro que ficou na lista dos mais vendidos por muito tempo" diz Anita.
O “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria" está no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em
Brasília. São merecedores da distinção de ter o nome inscrito nele, conforme estabelecido pela Lei 11.597, de 2007, que criou a honraria, "brasileiros e brasileiras, individualmente ou em grupo, que tenham oferecido a vida à Pátria, para sua defesa e construção, com excepcional dedicação e heroísmo, desde que decorridos dez anos de sua morte ou presunção de morte, exceção feita aos brasileiros mortos ou presumidamente mortos em campo de batalha".