Pesquisa da Ufes mostra que erosão está matando riqueza mineral de Guarapari
Leonel Ximenes
Pesquisa da Ufes mostra que erosão está matando riqueza mineral de Guarapari
Areia de Meaípe tem maior nível de radiação e elementos de terra-rara, mas praia está ameaçada pela degradação ambiental
Publicado em 11 de Novembro de 2020 às 11:26
Públicado em
11 nov 2020 às 11:26
Colunista
Leonel Ximenes
lximenes@redegazeta.com.br
Trecho da ES-060, em Meaípe, destruído pelo marCrédito: Ricardo Medeiros
Pesquisadores da Ufes descobriram que a Praia de Meaípe é a que concentra a maior quantidade de minerais no Brasil, além de possuir elementos de terra-rara. O diferencial dessa pesquisa em relação a outras feitas em Guarapari é o registro não apenas da radiação, mas também de suas variações conforme o tempo e o espaço. As praias do município são famosas pelas propriedades medicinais da areia monazítica.
Durante a radiometria em Meaípe, foram encontrados elementos terra-rara na areia. Esses componentes são substâncias químicas utilizadas na produção de itens tecnológicos e não encontrados em nenhum outro litoral brasileiro. No mundo, elementos similares estão presentes somente em Querala, na Índia.
Mas a praia, que apresenta tamanha riqueza mineral, sofre com a erosão que diminui sua faixa de areia e interfere na manutenção natural da areia monazítica. Foi instalada uma torre na praia, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), que reúne dados sobre a temperatura, a radiação, a velocidade dos ventos e a intensidade de radiação. Oceanógrafos da USP simularam e analisaram as configurações da areia e as informações obtidas por meio da torre e concluíram que a praia está morrendo por falta de afluxo de areia.
O professor José Passamai Jr., do Departamento de Física da Ufes, pesquisou o nível de radiação do litoral de Guarapari e conta com a colaboração do professor Marcos Tadeu Orlando, do mesmo departamento. Os estudos, que começaram há seis anos, confirmaram que as areias do balneário são benéficas à saúde.
Apesar de a legislação brasileira considerar aceitável a dose de radiação de, no máximo, 2,2 microSieverts (mSv), as praias do município apresentam doses maiores e, segundo os pesquisadores, elas são benéficas ao organismo humano, conforme demonstrado em estudos anteriores.
“Se fosse prejudicial, a população de Guarapari estaria toda doente, algo que dados do Sistema Único de Saúde analisados em nossa pesquisa nessas praias mostraram que não acontece. Acreditamos que o nível certo de radiação pode vir a estimular a defesa do organismo”, defende Orlando, acrescentando que os países europeus consideram aceitável um índice de até 200 mSv, o que seria mais alinhado ao que os pesquisadores da Ufes vêm verificando em seus estudos.
Instalada pela USP em Meaípe, torre reúne dados sobre a temperatura, a radiação, a velocidade dos ventos e a intensidade de radiaçãoCrédito: Ufes
Nas medições, realizadas durante o período de um ano, a praia de Meaípe registrou os maiores índices, chegando a 40 mSv. Em seguida, fica a praia da Areia Preta, cujo índice varia de 10,2 a 150 mSv. Já a praia das Castanheiras registrou um nível de radiação considerado normal e a da Bacutia, baixo.
Passamai Jr. destaca também as variações de índices conforme o local e a época do ano. “Na praia de Meaípe, por exemplo, poucas vezes a radiação está no mesmo lugar. Já na das Castanheiras, é comum encontrar sempre tanto na borda esquerda quanto na direita. Na da Areia Preta, também fica em uma área fixa de 350 metros de extensão – apesar de em algumas épocas do ano ela sumir, sempre volta ao mesmo local, mas varia a intensidade”, conta.
"Enquanto não podemos dar um resultado preciso, indicamos ao governo e ao DER utilizar a areia monazítica no fundo do mar para a dragagem e engorda artificial para a situação não piorar"
Marcos Tadeu Orlando - Professor e coordenador do projeto pela Ufes
Toda a riqueza encontrada em Meaípe, no entanto, encontra-se em risco, devido ao elevado grau de erosão da praia, que interfere na manutenção natural da areia monazítica. Motivados por essa preocupação, os pesquisadores incluíram a questão ambiental no projeto de pesquisa. Dois oceanógrafos da USP simularam e analisaram as configurações da areia e as informações obtidas por meio da torre. Eles concluíram que a praia está morrendo por falta de afluxo de areia.
“É como se a praia fosse um coração e algumas das veias estivessem entupidas. O mar vem e leva a areia; o rio e as correntes do próprio mar trazem. Então, se mantém um equilíbrio dinâmico: a areia entra e sai. Mas algumas dessas veias foram entupidas e a reposição é lenta: a ala sul, que vem do porto, entupiu uma corrente. Além dela, tem a parte norte, a parte central e o rio”, explica Orlando, que coordena o projeto pela Ufes.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.