Por pouco, o Convento da Penha não virou um grande open bar
Leonel Ximenes
Por pouco, o Convento da Penha não virou um grande open bar
Conheça os bastidores e as polêmicas que envolveram a anunciada festança (depois cancelada) de réveillon no mais importante templo religioso do ES
Publicado em 22 de Novembro de 2023 às 03:11
Públicado em
22 nov 2023 às 03:11
Colunista
Leonel Ximenes
lximenes@redegazeta.com.br
Convento da Penha, o templo da padroeira do ESCrédito: Carlos Alberto Silva
Certamente Nossa Senhora da Penha não foi consultada. Nem ela nem o arcebispo de Vitória, dom Dario Campos, que acabou sendo surpreendido com o anúncio de uma festa de réveillon nababesca e inusitada que seria promovida no espaço sagrado do Convento da Penha, na noite de 31 de dezembro.
Anunciada durante todo o fim de semana, o banquete com comida sofisticada, bebida alcoólica à vontade, música e DJ, mediante ingressos com valor inacessível para a maioria dos devotos da Virgem, repercutiu muito mal em amplos segmentos da Igreja, nas comunidades eclesiais e até nas redes sociais. O tom era de crítica a um evento incomum em um espaço tão importante para a religiosidade do povo capixaba.
“Assim que o evento foi anunciado na imprensa, houve uma demanda muito grande diante da quantidade de ingressos inicialmente previstos e colocados à disposição dos participantes sendo que não conseguiríamos propiciar a devida recepção a todos os presentes. Agravado ainda com a instabilidade climática, muito comum neste período”, diz a nota que anunciava o cancelamento da megafesta.
A alegação utilizada pelos organizadores chegou a ser considerada constrangedora por muita gente nos bastidores católicos. Alguém foi além e ironizou ao dizer que é a primeira vez na história da humanidade que um evento foi cancelado por “excesso de sucesso”.
“Imagine que são colocados 50 mil ingressos para um show de música, todos os bilhetes são vendidos, e os organizadores, por causa desse sucesso todo, determinam o cancelamento do show. Isso é possível?”, indaga uma fonte da Igreja ouvida pela coluna.
Alguém entendeu? Os motivos apontados para o cancelamento não parecem razoáveis, inclusive os de ordem climática. Ou os devotos frades franciscanos só descobriram tardiamente que o verão, em todo o Brasil e inclusive no Campinho do Convento, é instável pela própria natureza?
Missa da Festa da Penha 2023 no Campinho do ConventoCrédito: Vitor Jubini
Os críticos do revéillon do open bar, da música dos DJs e da comida cara e sem limites no Convento apontaram incoerências no festão que seria promovido pelos franciscanos (logo eles, discípulos de São Francisco, o homem que se fez pobre e amigo dos pobres!).
A mais comentada das incoerências, por ser de conhecimento público, era a cobrança de ingressos com valores altíssimos, o que permitiria apenas que a elite fosse se esbaldar no réveillon conventual. Afinal, ingressos de R$ 560 a R$ 800 são excludentes para a maioria do povo católico. E isso no espaço de um templo franciscano?
Mas há outro fator que escandalizou os católicos, principalmente os que têm vida ativa nas comunidades eclesiais: existe um documento, assinado pelo arcebispo há alguns anos, que proíbe a comercialização de bebidas alcoólicas nas festas religiosas promovidas no âmbito da Arquidiocese de Vitória.
“Para o povo, para os pobres nas festas da comunidades, não pode nem uma cachacinha, nem uma cervejinha sequer, mas para os ricos que podem pagar uma fortuna na festa do Convento é liberou geral?”, pergunta um integrante de uma paróquia em Cariacica.
“No dia anterior (19/11), celebramos o Dia do Pobre. E agora eles que gritam pelos pobres, e fazem uma coisa dessa, os frades? Isso é um absurdo. A gente está indignado mesmo com essa profanação, isso é profanação”, afirmou um sacerdote em um grupo de fiéis de uma comunidade da Grande Vitória.
Embora as críticas à festa fossem intensas também nas redes sociais, muitos internautas ponderaram que o objetivo do evento - arrecadar recursos para melhorar a acessibilidade no Convento - era nobre e necessário, mas discordaram da suntuosidade do “Réveillon Luz”, como foi chamado, restrito a uma minoria privilegiada de 1,5 mil pessoas.
MAIS UMA POLÊMICA
Esse episódio, por sinal, não é o único carregado de polêmica na gestão do frei Djalmo Fuck como guardião do templo mariano. Em fevereiro do ano passado, o frade se envolveu numa trapalhada ao publicar, nas redes sociais oficiais do Convento, fotos dele com o então presidenciável Sérgio Moro, durante visita que o ex-juiz fez ao principal monumento religioso do Estado.
Frei Djalmo, o guardião do Convento da Penha, recebeu Moro em fevereiro de 2022Crédito: Bruno Fritz
Alvo de intensas críticas nas redes sociais, Fuck acabou recuando e apagou as imagens dele, todo sorridente, com Moro, isso em um ano eleitoral marcado por muita rivalidade.
E pra não dizer que não falei das flores, a gente encerra com um comentário de um fiel que a tudo assistiu nos últimos dias: “No espaço sagrado da padroeira, a festa é da Penha, o alimento é a eucaristia e a música é de louvor. E é tudo de graça - para os pobres e para os ricos, porque todos são filhos de Deus”. Amém!
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.