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Leonel Ximenes

Por que a Campanha da Fraternidade dividiu a Igreja Católica?

Grupos ultraconservadores católicos estão sabotando abertamente a iniciativa da conferência dos bispos brasileiros

Publicado em 17 de Fevereiro de 2021 às 11:52

Públicado em 

17 fev 2021 às 11:52
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

lximenes@redegazeta.com.br

O cartaz da Campanha da Fraternidade 2021, que é ecumênica
O cartaz da Campanha da Fraternidade 2021, que é ecumênica Crédito: Reprodução da internet
Era pra ser uma campanha em clima de fraternidade. Era. Só faltou combinar com os setores ultraconservadores da Igreja Católica, que não estão aceitando ou, mais que isso, sabotando abertamente a Campanha da Fraternidade 2021, cujo lema é "Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor". Pois o que menos se vê é fraternidade, diálogo e amor neste embate.
Desde 1962, quando foi criada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para reflexão no período da Quaresma, nunca uma Campanha da Fraternidade foi alvo de tantas críticas e ataques. Desta vez a resistência parte de grupos católicos de extrema-direita que não aceitam o texto-base da campanha, elaborado de forma ecumênica pela CNBB e pelo Conic, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, entidade que congrega representantes das chamadas igrejas evangélicas históricas.
A cada cinco anos a Campanha da Fraternidade é promovida de forma ecumênica em conjunto com outras denominações cristãs. Seu objetivo é despertar a solidariedade dos seus fiéis e da sociedade em relação a um problema concreto que envolve a sociedade brasileira, buscando caminhos de solução.
Mas é exatamente esse caráter ecumênico que não é aceito por entidades conservadoras católicas. Mesmo entre o próprio episcopado católico há defecções. E são públicas. Já manifestaram a sua não adesão à campanha, o arcebispo ordinário militar do Brasil, dom Fernando Guimarães, o arcebispo de Juiz de Fora (MG), dom Gil Antônio Moreira, e o bispo dom Fernando Arêas Rifan, da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, de Campos (RJ).
Mas além do caráter ecumênico da campanha, o que mais tem desagradado tanto os setores conservadores da Igreja Católica? É que no texto-base foram incluídas referências ao movimento LGBTQI+ e à chamada “questão de gênero”, temas apontados pelos extremistas de direita como bandeiras da esquerda.
O texto-base da campanha deste ano também condena a violência contra mulheres, negros, indígenas e desaprova o negacionismo em relação à pandemia do novo coronavírus, com críticas à atuação do governo federal e à postura das igrejas em relação ao distanciamento social.
Em entrevista ao site DW Brasil, o padre Antônio Carlos Frizzo, assessor eclesiástico da Pastoral de Fé e Política e um dos secretários da CNBB responsáveis pela campanha, justifica a inclusão da causa dos homossexuais na campanha.
“O texto-base cita, sim, o movimento LGBTQI+ como vítima da intolerância. O Brasil é um dos países que mais matam pessoas transexuais. O Brasil é uma sociedade tremendamente violenta. Não é mais cordial. Predomina a intolerância”, argumenta.
Argumentos que são contestados por grupos como o Centro Dom Bosco, entidade ultraconservadora que reúne leigos católicos no Rio de Janeiro. “A Campanha da Fraternidade é conduzida por protestantes revolucionários com o objetivo explícito de introduzir ideias anticatólicas em nossas dioceses“, protesta o grupo que, em 2019, tentou na Justiça impedir a exibição do Especial de Natal do Porta dos Fundos na Netflix.
A pastora luterana Romi Bencke, secretária-executiva do Conic, é um dos principais alvos dos ataques dos conservadores. Ela afirmou que muitos deles acontecem porque a entidade assinou um pedido de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
Uma forma concreta de resistência à Campanha da Fraternidade 2021, utilizada pelos extremistas católicos, é o boicote à coleta nacional, realizada no Domingo de Ramos nas paróquias de todo o país. O dinheiro arrecadado nesse dia é direcionado para o Fundo Nacional de Solidariedade e para o Fundo Diocesano de Solidariedade, para ser empregado em projetos sociais, geralmente relacionados à Campanha da Fraternidade.
Em resposta às críticas, a CNBB divulgou outra nota na qual afirma que o objetivo maior da campanha deste ano é o diálogo e que, por ser “construída ecumenicamente”, segue a linha de pensamento do Conic e não da CNBB. “São duas compreensões distintas, ainda que em torno do mesmo ideal de servir a Jesus Cristo”, diz o texto.
Por fim, a Campanha da Fraternidade deste ano explicita uma divergência de fundo na Igreja Católica, dividida basicamente entre aqueles que preconizam uma atuação social e política mais intensa da instituição em contraposição a um grupo, também numeroso, que defende valores mais conservadores e espirituais e abominam o engajamento da Igreja nas lutas sociais. Será que estamos a caminho de um novo Cisma?

Leonel Ximenes

Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.

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