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Leonel Ximenes

Quem com comunismo fere, com comunismo será ferido

Deputada capixaba Soraya Manato (PSL) foi injustamente atacada com a mesma arma com a qual (também injustamente) costuma enfrentar seus adversários políticos

Publicado em 08 de Fevereiro de 2022 às 18:00

Públicado em 

08 fev 2022 às 18:00
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

lximenes@redegazeta.com.br

Acusada de comunista pelo agronegócio, Soraya Manato retirou projeto da Câmara dos Deputados
Acusada de comunista pelo agronegócio, Soraya Manato retirou projeto da Câmara dos Deputados Crédito: Amarildo
Virou “acusação” fácil, corriqueira, típica de quem tem pouca capacidade argumentativa: “isso é coisa de comunista!”. Não é de hoje que este recurso desonesto intelectualmente é utilizado no Brasil, mas nos últimos tempos, com a chegada do bolsonarismo ao poder, rotular uma pessoa de comunista virou moda. Uma triste moda.
É um expediente grosseiro e despolitizado, mas há momentos em que vira até comédia. E o algoz de sempre pode ser a vítima da vez. Aconteceu com a deputada bolsonarista Soraya Manato (PSL), furiosamente “acusada” (sempre entre aspas, óbvio, porque ser comunista não é ilegal nem pecado) por uma tradicional agência de notícias do agronegócio de ter um “forte viés comunista” (não precisa rir não, gente).
O crime que a perigosa deputada “vermelha” cometeu? Ter apresentado um projeto de lei sobretaxando as exportações de milho. Sim, trata-se de uma legítima iniciativa parlamentar, mas para esses agroanticomunistas, já é suficiente para decretar que uma das integrantes mais conservadoras (se eles soubessem…) do Congresso Nacional é uma perigosa ameaça ideológica ao setor.
O agro, neste caso, não teve nada de pop - foi hard mesmo. Soraya Manato comunista? Soa tão absurdo, mas a parlamentar capixaba, assustada com a reação furiosa de um setor do agronegócio brasileiro, obedientemente retirou seu projeto de pauta e voltou à sua rotina: dizer amém a tudo que emana do Palácio do Planalto, que também não gostou do projeto dela.
Mas a dra. Soraya, que é médica, não tinha mesmo como reclamar publicamente dos agroacusadores. Ela e seus aliados, a maioria de extrema-direita, vivem apontando o dedo em direção aos seus adversários, pespegando-lhes a pecha de… “comunista!”
A nobre deputada, desta vez, experimentou o próprio veneno com o qual muitas vezes tenta matar de asfixia o saudável debate e a bem-vinda troca de ideias. Para gente assim, é mais fácil rotular do que enfrentar, gritar do que argumentar, falar do que ouvir. E fica a dúvida: será que essas pessoas têm pelo menos a noção do que é comunismo?
Comunismo é um sistema de ideias, de filosofia, de concepção de sociedade. Não machuca, não morde, não faz mal ao estômago. Não é monolítico, tem variações profundas. Há dentro dele tendências democráticas, mas existem também concepções muito autoritárias.
Aliás, é preciso reconhecer que não é fácil definir comunismo. A questão não é tão simples. Partidos comunistas europeus, por exemplo, bebem na fonte da social-democracia. Alguns deles, como o português (PCP), foram decisivos na derrubada da ditadura salazarista e na posterior reconstrução democrática do país.
China, por sua vez, se diz comunista, mas tem uma das economias mais abertas do mundo; entretanto, sufoca absurdamente a liberdade, inclusive a política e a religiosa. Um horror. Ser comunista é isso?
Ser comunista é um direito assegurado a qualquer pessoa pelas sociedades democráticas que prezam o livre debate. Sociedades liberais não temem o confronto de ideias. Pelo contrário, é esse movimento que mantém as democracias saudáveis e ativas. Ou alguém quer a paz dos cemitérios?
Não há o que temer: os comunistas, no Brasil, devem se submeter às regras democráticas, à Constituição, ao Estado Democrático de Direito. Os comunistas e, de resto, todas as demais forças e tendências políticas do país.
Portanto, é importante estudar, ler, conhecer as experiências históricas. Afinal, não é melhor ferir a ignorância e o preconceito do que machucar a inteligência e o bom-senso? 

Leonel Ximenes

Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.

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