Quem substituirá o médium morto pela Covid no maior centro espírita do ES?
Leonel Ximenes
Quem substituirá o médium morto pela Covid no maior centro espírita do ES?
Já está definida a sucessão de Lourenço Velloso, líder espiritual da obra religiosa fundada no final do século XIX em Nova Venécia
Publicado em 18 de Março de 2021 às 19:11
Públicado em
18 mar 2021 às 19:11
Colunista
Leonel Ximenes
lximenes@redegazeta.com.br
Lourenço Velloso (à esquerda), médium-chefe, e Braz Velloso lideraram a comunidade por cinco décadas. Braz morreu em 2017 e Lourenço no último dia 16, de CovidCrédito: divulgação
Depois de 40 dias internado, morreu num hospital de Vila Velha o agricultor Lourenço Velloso, aos 86 anos, como consequência de complicações da Covid-19. Lourenço deixa milhares de seguidores e admiradores. Afinal, ela era o médium responsável pelos ofícios religiosos do Centro Espírita Senhor dos Passos, na Comunidade dos Velloso, em Nova Venécia, a maior obra espírita do Espírito Santo.
Considerado uma espécie de Chico Xavier capixaba, embora a comunidade não goste da comparação por considerar o médium mineiro muito superior a todos os demais, Lourenço, na linha sucessória “sacerdotal”, foi o terceiro médium-chefe da história do centro. Sucedeu a mãe, Alexina, que morreu em 1976, após um acidente de automóvel. Ela era a segunda filha do fundador da obra e estava no seu comando desde 1925, quando o pai morreu.
Lourenço Velloso morreu na última terça-feira (16), no ano de comemoração dos 125 anos do surgimento da obra, o que abre o debate sucessório: quem vai continuar a orientação espiritual do centro espírita criado por um quase padre em 1896, em Laje do Muriaé (RJ), e depois transferido para Bom Jesus do Itabapoana, na divisa do Rio de Janeiro com o Espírito Santo.
Quem garimpou essa história para a coluna foi o jornalista José Caldas da Costa, que também é geógrafo e especialista em Psicologia Positiva e Desenvolvimento Humano e vive procurando pessoas centenárias vivas no Espírito Santo. Foi ele também quem nos trouxe a história de dona Maria Rita Pereira, moradora de Barra de São Francisco, que fez 114 anos em janeiro último e é a pessoa viva mais idosa no Estado.
Maria Helena Velloso Poeys, conhecida como "Conceição", é a nova médium-chefe do centroCrédito: Divulgação
Lá na Comunidade Velloso, em Nova Venécia, mora dona Filomena, 106 anos, última filha viva do criador do centro, no final do século XIX. Seria ela a herdeira da liderança mediúnica do centro Senhor dos Passos? É isso o que vamos saber.
Primeiro, é preciso conhecer como começa essa história do maior centro espírita do Espírito Santo, pelo menos quando se considera o tamanho de sua obra social que a comunidade chama de “caridade”. Sua origem, conta a tradição oral, preservada de geração a geração, remonta a 1896. E quem a conta ao jornalista é Braz Velloso Pianissoli, 27 anos, quinta geração de Francisco Hilário da Silva, com quem tudo começou.
A data de nascimento de Francisco Hilário da Silva Helena é incerta e calculada com base no episódio que resultou na criação da obra espírita. Era natural de Diamantina (MG), mas sua data de nascimento não é registrada em sua certidão de casamento com Maria Mathilde Nazionzeno da Silva Primo, ocorrido em 4 de fevereiro de 1899.
“Ele devia ter uns 20 anos, pois estava há menos de seis meses para se formar padre em Diamantina (MG), quando recebeu uma missão para ir a Bom Jesus do Itabapoana, de onde era a família dele, e dar um susto numa comunidade espírita que crescia na cidade, dando uns tiros para cima para espalhar o pessoal. Eram épocas de muita perseguição aos espíritas. Assim ele fez, mas, logo depois de cumprir a missão, surtou e desapareceu por três dias. Ninguém tinha notícias dele, até que reapareceu na casa da família, todo sujo, roupa rasgada e maltrapilho, desorientado”, conta Braz Velloso, o trineto de Francisco Hilário.
Levado para tratamento espiritual no Rio de Janeiro com Bezerra de Menezes, talvez o maior líder da religião no país, então presidente da Federação Espírita Brasileira, este teria identificado a mediunidade de Francisco Hilário e teria lhe dado a missão de criar um centro, onde fosse o líder espiritual.
Vista geral da Comunidade dos Velloso, em Nova Venécia, onde fica o centro espíritaCrédito: Reprodução do Facebook
Bezerra era médico, militar, escritor, jornalista, político, conhecido filantropo e expoente da Doutrina Espírita, conhecido, mesmo antes de aderir à religião, como “o médico dos pobres”. E foi assim que começou o Centro Espírita Senhor dos Passos, que, entretanto, rompeu com a Federação Espírita Brasileira por uma razão muito singela, vinculada às origens de seu fundador. O primeiro centro foi foi montado em Laje do Muriaé, então distrito de Itaperuna (RJ).
“Somos o único centro espírita do mundo onde todos os serviços religiosos são católicos. Francisco Hilário era quase padre e tudo o que fez, as rezas, as liturgias, seguiram a tradição católica. E mantivemos isso. Fazemos novenas, cantamos ladainhas, temos sacramentos do batizado e do casamento, terço, rosário, procissão, via sacra na Semana Santa e a devoção a uma santa católica, mas às quartas, quintas e sábados temos as orações com os passes, conforme o Evangelho o Espiritismo, codificado por Allan Kardec”, explica Braz Velloso.
O lado, digamos, menos nobre da trajetória do primeiro líder e até os problemas posteriores não são omitidos na transmissão oral da história. De Francisco Hilário sabe-se, por exemplo, que teve dois filhos de seu casamento com Matilde. O mais velho, “Tio Dico” e Alexina, nascida em 1901, e mais quatro reconhecidos com outra mulher.
Mas fala-se que ele teve mais de dez filhos”, destaca Braz, com a ajuda da tia Maria de Cássia Velloso, que hoje conta 66 anos e era filha de seu avô, Braz Veloso, que morreu em 2017 e que também tem um vínculo muito forte com a nova fase da obra espírita em Nova Venécia.
Antes mesmo de Francisco Hilário morrer, houve a primeira cisão, provocada pela preferência do patriarca, com a preparação da filha Alexina para sua sucessora e não o primogênito, “Tio Dico”. “Logo depois do casamento da Alexina, em 1920, um dia o “Tio Dico” anoiteceu e não amanheceu e roubou tudo o que era do centro, todos os manuscritos, a herança de Hilário, e foi fundar um centro espírita no Rio de Janeiro”, lembra o trineto de Francisco Hilário.
Filomena Velloso, na foto com 102 anos, já completou 106 e é a única filha viva do fundador do centroCrédito: Divulgação
Nota-se claramente que não é bem quisto pela família, tanto é que nem o nome certo dele é passado pelas gerações, ao contrário dos demais da linha hereditária, e o que se fala é que “ele não prosperou na obra”.
Quando Hilário morre, em 1925, Alexina assume a mediunidade do centro espírita e emerge a figura lendária de seu marido, Agostinho Batista Velloso. Enquanto Alexina dedica-se totalmente à obra espírita, Agostinho, católico, cuida da herança deixada por Francisco Hilário, que, além de filhos, também prosperou materialmente.
Agostinho nunca criou qualquer empecilho ao trabalho mediúnico de Alexina, pelo contrário, talvez tenha incorporado aquilo que é uma marca do Senhor dos Passos até os dias atuais: o sincretismo entre o kardecismo e o catolicismo.
Em 1950, ocorre um fato histórico que dá surgimento a um evento que se torna a marca da comunidade espírita: a festa do Velloso. Braz conta que uma peste se abateu sobre os animais e a mortandade era grande na Fazenda Sesmaria, em Bom Jesus do Itabapoana, que sediava também o centro de Alexina. Ela, então, fez uma promessa a Nossa Senhora das Graças que, se a peste acabasse, anualmente a família faria uma festa, na data em que a imagem da santa chegasse à Sesmaria, em honra da santa e que serviria almoço e café da tarde de graça para quem quisesse participar.
“A peste acabou como por milagre e no dia 2 de julho daquele ano a imagem da santa chegou à tarde e foi servido um farto café aos presentes ao serviço religioso, com tudo o que poderia haver de bom lá na roça”, conta Braz. E todos os anos, na mesma data a festa se repetiu, pelos próximos seis anos.
Em 1955, um grupo saiu da fazenda e foi atrás de terras no Norte do Espírito Santo. Depois de percorrer vários lugares em Nova Venécia, escolheu a barra do Córrego da Peneira. Assim, em 1956, depois da festa em honra a Nossa Senhora das Graças, no dia 2 de julho, as famílias lideradas por Agostinho Velloso se deslocaram para as novas terras, imagem da santa à frente. Foi mais de uma semana de viagem, as mulheres e crianças de ônibus e de caminhões que levavam a mudança, e os homens a pé, liderados por Agostinho, levando os animais.
Ocuparam uma área de 200 alqueires. Agostinho comandou a prosperidade, acelerada pela descoberta de águas-marinhas “no quadrado separado” para a construção do centro. “De tudo o que se achava, 20% era para o centro. Teve quem roubou? Teve. Mas tudo isso impulsionou a obra espírita e a própria comunidade”, lembra Braz.
Alexina continuava responsável pelo centro e Agostinho, pela fazenda. Mais três famílias estavam se juntando à comunidade, vindas na grande viagem: Furtado - João Furtado que casou com a Maria Velloso Furtado, Dias -, dona Zumira, viúva, acompanhada pelos filhos, e Oliveira- Agneu e Filomena, filhos “naturais” de Francisco Hilário, ela casada com Eraclides José de Oliveira. Quem não era espírita, acabava se convertendo, por força da associação comunitária. Ou, antes, uma espécie de catolicismo espírita ou espiritismo católico.
A Fazenda Velloso chegou a ter 600 alqueires, dedicada inicialmente à extração de madeira para as serrarias de Colatina, e na sequência à criação de gado. Em 1958, a prefeitura construiu uma escola na comunidade e Agneu Aquino tornou-se o professor dela.
Pessoas de todo o Brasil e até do exterior passaram a procurar o “centro do Velloso” para tratamento espiritual com a médium Alexina. Logo, passaram a chegar 60 a 70 pessoas por semana. A família ampliou o centro para acolher essas pessoas, que passavam pelo menos nove dias durante a novena no centro. Recebiam hospedagem e comida de graça.
Os 11 dos 13 filhos de Alexina e Agostinho VellosoCrédito: Álbum de família
“Como muitas dessas pessoas chegavam com doenças espirituais, logo foi criado um centro de tratamento para interná-las. Naquela época, ninguém fazia isso. Depois, a própria igreja católica e os evangélicos passaram a fazer e isso aliviou bastante a nossa carga, mas a obra continua e já temos mais de 60 mil pessoas catalogadas como tendo passado pelo centro de tratamento”, enumera Braz.
Alexina morreu em 1976 e Agostinho Velloso em 1980, de infarto, no dia 3 de julho, mas as festas do Velloso continuam acontecendo por tradição. Já chegaram a atrair até 13 mil pessoas num só dia. Começam às 5 da manhã e vão até às nove da noite. Pelo menos 5 mil pessoas almoçam e tomam café da tarde nesses dias. A comunidade cresceu muito. A descendência de Francisco Hilário é calculada em mais de 600 pessoas até a quinta geração.
A pandemia de Covid, entretanto, impediu que a festa ocorresse em 2020 e já está decidido que também não haverá este ano. Mas, para 2022, se já estiver todo mundo em segurança sanitária, os herdeiros do culto espírita já programam a maior de todas as festas, para celebrar os 125 anos de fundação do Centro Espírita Senhor dos Passos e os 70 anos da chegada da imagem de Nossa Senhora das Graças na Fazenda Sesmaria, no Norte fluminense.
Possivelmente, marcará oficialmente a “consagração” da nova “sacerdotisa” do culto sincrético, que mistura elementos do catolicismo e do espiritismo, que sucederá a Lourenço Velloso, morto pelo vírus que interrompeu a tradicional festa em homenagem à santa que acabou com a peste dos animais em 1950.
E a nova médium-chefe é Maria Helena Velloso Poeys, conhecida como “Conceição Velloso, 72 anos, filha de José. “O processo de escolha é natural e ninguém contesta. A pessoa vai se comprometendo com o trabalho, assumindo a responsabilidade. Há dois anos, meu tio Lourenço já havia chamado a tia Conceição e dito para ela que seria sua sucessora. Com a morte dele, apenas se oficializa”, explica Braz.
Nos últimos anos, houve uma grande transformação na Comunidade do Velloso. O centro, que antes era apenas um serviço religioso, tornou-se uma associação de utilidade pública municipal e estadual, uma pessoa jurídica que pode receber recursos públicos de convênios. Trabalho este atribuído à capacidade de organização e à visão de Braz da Silva Veloso, que parece ter herdado esse senso do pai Agostinho e comandou a comunidade nos últimos 50 anos.
Em 2017, parecendo prever a própria morte, Braz decidiu reunir a associação e eleger aqueles que passariam a comandá-la. Como uma espécie de patriarca dos tempos antigos, elegeu: Reginaldo Furtado (presidente), Maria de Cássia Velloso (vice), Mateus Oliveira (secretário), José Oliveira (2º secretário) e Braz Veloso Pianissoli (tesoureiro). No conselho fiscal, uma mescla de juventude com experiência: Ronaldo Furtado, irmão de Reginaldo; Magno Velloso Poeiz, filho do Ivan e Conceição; e Carlos André Oliveira, filho do Francisco Oliveira. Em dezembro de 2020, a assembleia renovou o mandato da diretoria.
É uma espécie de dinastia construída, principalmente, a partir do casamento de Alexina e Agostinho Velloso, que geraram 14 filhos, sendo que 13 viveram para construir essa história e dos quais somente resta um, todos netos de Francisco Hilário da Silva, fundador do Senhor dos Passos: Daldi da Silva Velloso, o Dadinho, Maria, José, Porcina, Francisco, João, Jorge, Braz, Lourenço, Agostinho (único vivo, que fará 86 anos no dia 15 de abril), Rafael, Gabriel e Tereza (que hoje teria 75 anos).
E assim a tradição vai ser passada, de geração a geração. Os mais jovens que estão assumindo os ofícios estão abaixo dos 30 anos, como Braz e seu primo Mateus, que está sendo preparado para ser o sucessor de Conceição na chefia da mediunidade do Senhor dos Passos. E a Comunidade Velloso, cortada pela BR 342, a 35 quilômetros de Nova Venécia e a 50 de Ecoporanga, na Região Noroeste do Estado, só faz crescer e prosperar, com base numa administração própria e na firmeza da fé construída pela tradição.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.