Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

"Quem teme a Deus não tira a vida de ninguém"

Em entrevista à coluna, viúva de Gerson Camata fala do julgamento do assassino do seu marido, da expectativa de justiça e dos momentos dramáticos que está vivendo

Publicado em 02 de Agosto de 2021 às 17:25

Públicado em 

02 ago 2021 às 17:25
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

lximenes@redegazeta.com.br

São mais de dois anos e meio de angústia, de muito sofrimento, de lembranças dolorosas. Nesta terça-feira (3), começa o julgamento de Marcos Venicio Moreira de Andrade, assassino confesso do ex-senador Gerson Camata, um momento muito aguardado pela viúva, Rita Camata, e sua família, que esperam que a justiça seja feita. Nesta entrevista à coluna, marcada por grande emoção, a ex-deputada federal conta como está sendo viver desde aquela fatídica tarde de 26 de dezembro de 2018, quando seu marido foi covardemente assassinado em plena rua, na Praia do Canto, pelo ex-assessor dele.  
“Está tudo tão pesado, tão doído, não quero acreditar numa coisa tão cruel, tão covarde. Relembro, todos os dias, tudo o que nós passamos, é um tempo de muita dor. Tenho que ser muito forte, tenho filhos, tenho netos, e é isso que está me alimentando. Peço que [Gerson Camata] olhe por nós, temos uma missão a cumprir.  Mas confio nos advogados, na promotoria, no júri popular, na justiça", afirma Rita

Como você e sua família estão na véspera do julgamento?

Eu e minha família estamos revivendo todo sofrimento de dois anos e poucos atrás, parece uma mentira. A dor é tão profunda, mas o sentimento de união é muito grande entre todos nós. Mas temos apreensão, a angústia pela ausência e pela forma brutal como nos foi tirado um pai, um marido, um avô, um homem que a vida inteira fez o bem para as pessoas e que vivia feliz e alegre, sempre festejado aonde chegava. Parece pesadelo, parece não ser verdade. Isso tudo nos faz ter esperança que pelo menos a justiça seja feita, que não passe em vão uma vida, sonhos e esperança que nós ainda temos junto dos filhos, dos amigos, de tantas pessoas que nesse período não só se solidarizaram com a família Todos nos deram apoio e suporte para tentarmos superar a dor da ausência.  Gerson nos deixou um exemplo  de homem público, de pai amoroso, uma pessoa alegre, sempre contando piada e fazendo da vida uma paixão. Ele tinha paixão por viver, ele tinha paixão pela família, ele tinha paixão pelo povo do nosso Estado, era um apaixonado e sempre preocupado com as pessoas que precisavam, que pediam um apoio, que pediam um suporte. E ter o fim que ele teve, isso é muito triste... Nós estamos passando por uma fase muito difícil, foram mais de dois anos de sofrimento, de reclusão e de união com os filhos. Vieram os netos, e aí vem aquela pergunta, cadê o vovô? Porque ele não está aqui, ele que tanto amava a Rafaela [Enza, filha mais velha]. Ele não teve a oportunidade de ver Enrico e Antonela [netos] e compartilhar alegria, a saúde que ele tinha ao lado dos amigos e da nossa família.

Qual é a sua expectativa para o julgamento?

Hoje a expectativa nossa é de que haja justiça e que haja punição. E que essa união que nós tivemos nesse período e o suporte dos amigos, da família, possa ser um legado para todas as famílias que vivem a dor da perda, da perda abrupta, cruel, selvagem, como foi premeditada. Porque ninguém me tira da cabeça que há anos e anos esse cidadão [Marcos Venicio] ficou pensando e ameaçando que ia acabar com a vida de Gerson. Ele nunca acreditou nisso e poupava a família. E veja o fim que ele teve, às cinco horas da tarde numa rua, num bairro todo movimentado pondo em risco também a  vida de outras pessoas. O que nós queremos nesse julgamento popular é que de fato a promotoria, os advogados e a justiça possam prevalecer e demonstrar que ninguém pode ceifar a vida de um semelhante que nunca fez mal a ninguém, que só fez doar sua vida na função pública com tanta honestidade e seriedade. Nós vamos para esse julgamento de coração aberto, mas muito apertado porque é muita solidão.

Como está sua vida e da sua família desde o dia do crime?

Tem momentos que eu procuro ser forte para preservar meus filhos e meus netos. Isso acaba sendo um alento, uma força e uma esperança para eu continuar firme e reinventando, demonstrando alegria, união e reforçando todos os princípios que o Gerson sempre teve, de muita fé, de acreditar na vida e de fazer dos nossos sonhos um esforço para concretização e para crescermos e aprendermos cada dia mais.

De onde vem tanta força para suportar esse período tão difícil?

Eu busquei também na meditação, no esporte, forças e conforto que também me permitiram procurar me reinventar. Tirar água de pedra e fazer com que a vida pudesse continuar. Eu não tinha escolha e assim eu acho que é. A gente tem a cruz conforme a força que tem pra carregar e nós estamos carregando a nossa como tantos milhares de outras pessoas vivem situações piores ou iguais a nós. Deus tem nos dado muita força e muita fé e não posso deixar de agradecer à minha família e aos amigos.

Tem recebido muita ajuda, muito apoio?

Eu tenho  amigas que me deram muita força, momentos de alegria, de descontração para superar e ir fazendo com que aquela dor da ausência da crueldade que nós vivemos pudesse também ser transformada na saudade. A saudade das brincadeiras que ele fazia, da alegria que ele trazia entre nós. As amigas e os meus filhos foram suporte nessa hora e hoje a gente revive tudo isso, tudo, principalmente a dor e a falta que ele faz.

Qual a lição que fica?

Nós recebemos muitas lições, temos que ter força e fé. Deus tem nos dado muita força, muita fé e eu não posso deixar de agradecer minha família e aos amigos. Eu acho que o que a gente tira disso tudo é que a vida tá muito banalizada, sabe? Falta amor, falta respeito, falta consideração e muita fé em Deus.  Isso tudo é muita falta de amor e de temor a Deus. Quem teme a Deus não tira a vida do seu semelhante por nada, isso é uma coisa que nós temos como princípio de vida e eu espero muito, tenho muita fé em Deus que o júri popular saberá compreender e julgar para que o assassino tenha a pena do tamanho do crime hediondo, premeditado, cruel. Ele não deu nenhuma possibilidade de defesa a uma pessoa  que tinha uma vida aberta, que aos setenta e sete anos de vida  sonhava viver muito mais. Nós perdemos a oportunidade de compartilhar sonhos com o Gerson. Hoje ele não está mais junto de nós aqui na Terra, mas eu tenho certeza de que está nos dando força, suporte e apoio para a gente continuar essa caminhada e com esperança de cada dia viver a possibilidade de ser feliz com os filhos e os netos. Eu fico preocupada às vezes, sabe? Buscando força, o lado do útero, da alma, para poder suprir um pouco a ausência do pai. O Bruno [filho mais novo] ainda ficou, era um menino e tem toda uma formação que ele recebeu, toda uma trajetória de vida pela frente.

E a mensagem que você deixa?

 Há dias que eu me senti muito fraca, sozinha, mas eu pedi a Deus, ao próprio Gerson e à minha mãe, que já foi também, que me ajudassem para que a família continuasse unida vivendo o amor e a esperança de ser feliz, porque ninguém nasceu para ser infeliz nessa vida. Nós temos todo o direito de ser felizes e nesse sentido eu buscava junto das amigas um alento para continuar essa caminhada e fazer  dessa dor uma experiência de vida para ir me fortalecendo.

Leonel Ximenes

Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem BBC Brasil
Governo Trump manda delegado da PF que ajudou ICE a prender Ramagem deixar os EUA
Agência do Banco do Brasil em Baixo Guandu voltou a funcionar normalmente
Agência do Banco do Brasil volta a abrir em Baixo Guandu
Viatura da Polícia Militar
Criminosos invadem obra e causam prejuízo de R$ 50 mil na Praia da Costa

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados