A centenária arte das rendas de bilro está ocupando os ambientes da mais sofisticada e famosa mostra de decoração do Estado. Mais que uma oportunidade comercial, estão em jogo o resgate e a valorização de uma cultura herdada dos portugueses e que até hoje resiste bravamente ao tempo e à indiferença, especialmente na Barra do Jucu, o famoso balneário
canela-verde.
Cerca de 40 trabalhos das
rendeiras estão sendo expostos e comercializados na Casa Cor, na
Praia da Costa, em Vila Velha, pela segunda vez na história - a primeira foi há cinco anos. O estoque é renovado periodicamente e reposto à medida que é comercializado. As peças, que exigem muito trabalho, dedicação e tempo para serem concluídas, variam de R$ 40 a R$ 550.
O resultado é um mosaico de cores e formas produzido pelas mãos calejadas das rendeiras da Barra do Jucu, que confeccionam, entre outras peças, almofadas, capas de travesseiro, toalhas de lavabo, crucifixos e passadeiras.
“Conquistar este espaço é muito importante para divulgar essa cultura que já foi tradição em todo o litoral capixaba, e para um produto profundamente ligado à iconografia capixaba. Uma cultura que também fomenta a economia criativa, que traz benefícios para toda a comunidade”, explica Regina Ruschi, coordenadora do Barra de Renda, grupo que reúne 30 rendeiras, a maioria da Barra do Jucu, mas que também atrai artesãs de outros bairros de Vila Velha e até da
Serra e de Vitória.
Regina, cuja mãe também é rendeira, destaca que a renda de bilro conecta uma rede de pessoas como costureiras, crocheteiras, bordadeiras, artesãos e vários outros profissionais que se vinculam à produção. “Além de resgatar a cultura, é mais uma fonte de renda para a comunidade.”
O grupo Barra de Renda, que atualmente se reúne numa sala que está sendo reformada anexa ao posto de saúde da Barra do Jucu, é tão rico e diversificado como a arte que produz. A artesã mais nova tem 15 anos (ela começou a atividade com nove) e a mais velha, 90. Como não se trata de um “clube da Luluzinha”, até um homem faz parte do grupo, mas ele anda afastado por causa de problemas de saúde.
A pandemia, claro, prejudicou o trabalho das rendeiras de bilro, que participavam de duas oficinas presenciais semanais e gratuitas. Mas a arte não pode parar e o Barra de Renda conseguiu ser contemplado no edital de apoio cultural da
Secult e promoveu 70 oficinas virtuais, encerradas no mês passado, com a participação de artesãos até de fora do ES, inclusive de Santa Catarina, Ceará e Piauí.
Dedicação e talento merecem aplausos e reconhecimento, claro. E muita gratidão a pessoas como dona Enedina França de Paiva, de 86 anos, que na tarde desta quarta-feira (10), no Palácio Anchieta, receberá, das mãos do
governador Casagrande, o “Prêmio Mestre Armojo do Folclore Capixaba” pelo seu trabalho incansável com as rendas de bilro.
“Meu sonho é resgatar as rendas de bilro no
Espírito Santo”, suspira Regina Ruschi, que é arquiteta de formação e apaixonada pelo artesanato das rendeiras.
Afinal, uma arte que, segundo registros históricos, já estava presente no Estado desde a primeira metade do século XIX, merece mesmo ser preservada e valorizada. Um sonho possível desde que construído coletivamente.