Será que vão exigir a burca, aquela peça larga de vestuário da cor preta que cobre o corpo de algumas mulheres muçulmanas? Em se tratando de alguns vereadores de
Vitória, é melhor não subestimá-los.
A cruzada moralista da vez, uma espécie de sharia tupiniquim, é proibir banheiros tipo unissex nos acanhados limites da capital capixaba. Certamente querem uma ilha livre de “impurezas” e “licenciosidades”. Um paraíso pré-Adão e Eva.
O projeto purificador foi apresentado pelo vereador Gilvan da Federal (sempre ele) e conta com o beneplácito de outros sete colegas coautores: André Brandino (PSC), Armandinho Fontoura (Podemos), Davi Esmael (PSD), Leandro Piquet (Republicanos), Denninho Silva (União Brasil), Luiz Emanuel e Maurício Leite (ambos do Cidadania).
Ou seja, mais da metade da
Câmara de Vitória, formada por 15 vereadores, está muito preocupada com quem está entrando nos banheiros da Capital. É tempo de sobra numa cidade que tem tantos e inadiáveis problemas para resolver, como o trânsito, a segurança pública, a poluição, o atendimento básico de saúde, a educação, os moradores em situação de rua, crianças abandonadas, a decadência econômica do Centro…
A marola moralista foi motivada, vejam só, após os vereadores tomarem conhecimento de que os banheiros do Centro de Educação da
Ufes poderão ser usados por identidade de gênero. É o reconhecimento, no âmbito universitário, de que nem todos os seres humanos se reconhecem como homem ou mulher (o mundo é mais complexo do que muita gente imagina).
Essa “pouca-vergonha”, segundo entende a maioria do Legislativo municipal, provoca “insegurança e iminente violência”. E isso numa ilha de paz e segurança, quase uma Cingapura, combinado?
Curiosamente, numa cidade com tantas urgências a resolver, os nobres edis se apressaram em pedir regime de urgência no projeto que proíbe os banheiros unissex, mas que permite os “de família”. Pelo texto do projeto, conceitua-se como “banheiro família” aquele "sanitário destinado ao uso de pais com seus filhos com idade até 12 anos".
Na semana que vem o projeto já será votado. O texto prevê que os atuais banheiros unissex, mesmo em ambientes privados, deverão ser transformados em banheiros família. Como é bom ter um grupo de iluminados que zela pela moral e pelos bons costumes, né?
Associar
pessoas trans à violência não resiste minimamente aos fatos. Afinal, as estatísticas mostram que cerca de 80% dos casos de violência sexual acontecem no ambiente familiar ou com pessoas próximas, como conhecidos e vizinhos.
Ou seja, o banheiro público, na grande maioria das vezes, é mais seguro que o ambiente doméstico - pelo menos no que se refere aos predadores sexuais. É preciso que a burca da hipocrisia seja arrancada urgentemente da Ilha. Que pode ser do mel, mas é doce para poucos. Muito poucos.