Transgênero pré-candidata a prefeita no ES lutou para ser reconhecida na Igreja
Leonel Ximenes
Transgênero pré-candidata a prefeita no ES lutou para ser reconhecida na Igreja
Empresária Bianca Biancardi, de Cariacica, percorreu um longo caminho para ser reconhecida como cristã e receber os sacramentos católicos
Publicado em 03 de Agosto de 2020 às 13:09
Públicado em
03 ago 2020 às 13:09
Colunista
Leonel Ximenes
lximenes@redegazeta.com.br
Bianca sendo crismada pelo bispo auxiliar de Vitória, d. Rubens SevilhaCrédito: Álbum de família
Pré-candidata a prefeita de Cariacica pelo Partido da Mulher Brasileira (PMB), a transgênero Bianca Biancardi já teve que enfrentar outras batalhas difíceis na sua vida, além da política. A primeira foi a de ser reconhecida como mulher, mas talvez a mais desafiadora e persistente, a de ser tratada como autêntica cristã com direito a receber os sacramentos da Igreja Católica. E ela conseguiu. Depois de muita luta e fé.
Bianca nasceu em Linhares, há 52 anos, no seio de uma família católica. Foi batizada, fez a primeira comunhão com 12 anos de idade e frequentou uma comunidade católica em Cariacica, onde mora, até os 15, fase da vida em que sentia uma discriminação muito forte.
“Tive problemas no Grupo de Jovens que eu frequentava, pois a maioria dos integrantes perceberam que eu era diferente, que tinha ‘um jeito diferente de ser’”, conta Bianca a respeito da sua tendência natural de ser mulher apesar de ter nascido homem.
Diante de tantas barreiras, ela deixou a Igreja Católica, mas, como cristã convicta que sempre foi, procurou outras denominações cristãs. “Me senti excluída”, afirma Bianca, que chegou a frequentar as Igrejas Presbiteriana, Maranata e Batista na busca do acolhimento que tanto almejava.
Em algumas dessas igrejas evangélicas, como a Presbiteriana, para onde foi levada pela sua antiga patroa, ela diz que foi aceita “até certo limite”. “Eles queriam que eu me regenerasse, que eu me transformasse, mas nasci transgênero com a mente de um jeito e a genitália de outro”, pondera.
Na Batista, Bianca diz que foi mais aceita como trans, mas mesmo assim ela não se conformou. Percebeu que ainda não se sentia plenamente acolhida como cristã. “Para as igrejas isso não era normal, eu ia nos cultos, mas não era membro da igreja”, recorda. “Sou cristã e não abro mão disso.”
Ainda sedenta pelo pleno acolhimento, Bianca Biancardi, que há 30 anos é dona de um salão de beleza em Cariacica, se aproximou do Kardecismo, onde se aprofundou na doutrina espírita durante três anos. “Encontrei apoio lá, mas eu queria participar plenamente de uma igreja cristã”, insistiu.
Bianca em seu salão de beleza em Campo Grande, CariacicaCrédito: Arquivo pessoal
Decisão tomada, restava a Bianca trilhar o difícil caminho que a levaria de volta à Igreja Católica. O primeiro passo foi dado após uma amiga convidá-la a participar de uma “Oficina de Oração e Vida”, em 1998, promovida pela Renovação Carismática Católica (RCC) e que, entre outros objetivos, acolhe pessoas que se sentem excluídas da Igreja.
A partir daí, durante 15 anos, Bianca participou de outras atividades da RCC, como o “Seminário de Vida no Espírito”, o que a motivou a buscar o sacramento que, na sua visão, faltava para ela ser plenamente integrada à Igreja e receber novamente a comunhão: o crisma.
Há alguns anos, um acontecimento inesperado abriu as portas para que ela fosse plenamente aceita outra vez na Igreja Católica. O papa Francisco, que rompeu a sisudez e o dogmatismo do seu antecessor, Bento XVI, recebeu no Vaticano um casal homossexual e, na ocasião, disse que todos os cristãos católicos devem ser acolhidos independentemente de sua orientação sexual. “Se um homossexual pode ser acolhido pela Igreja, por que não uma transexual”, perguntou-se a empresária.
Em 2014, Bianca procurou o padre Edemar Endringer, pároco da igreja Bom Pastor, em Campo Grande, e contou a sua história para ele. A empresária se abriu ao sacerdote: disse que tinha mudado de sexo, por meio de uma intervenção cirúrgica, e de nome depois de uma batalha judicial, em 2005.
A conversa com o pároco evoluiu para uma confissão - outro sacramento católico -, condição necessária para que Bianca Biancardi recebesse o crisma do bispo, como é tradição na igreja. Nesse mesmo ano, Bianca foi crismada pelas mãos do então bispo auxiliar de Vitória, d. Rubens Sevilha.
“Foi meu dia de glória, foi maravilhoso ser reconhecida perante a Igreja e a mim mesmo. Foi o dia mais feliz da minha vida”, afirma Bianca, que desde então participa normalmente das atividades pastorais e litúrgicas da sua comunidade eclesial. “Não me sinto mais discriminada, minha relação com a Igreja Católica é perfeita”, comemora. Um final feliz para quem não desiste de lutar para ter o direito de manifestar sua fé.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.