Um vídeo que circulou neste domingo (24) nos grupos de troca de mensagens de
Colatina está deixando a população impressionada. Nele, o vendedor ambulante Fabrício Paulo Félix, de 52 anos, relata seu drama com a
Covid-19, entre dores e uma pitada de bom humor, e faz algo parecido com uma profecia: “Vamos esperar amanhã para ver se ele vai me arrebentar de novo”.
Não houve amanhã. Nesta segunda-feira (25), Colatina amanheceu com a notícia de que Fabrício não suportou o “novo ataque” do coronavírus sobre seu organismo e morreu na UTI do Hospital Silvio Avidos.
O seu pai adotivo, o advogado Henrique Macedo, relatou que Fabrício chegou a melhorar, mas que infartou, foi levado para a UTI, intubado e depois morreu.
“Perdi meu filho para essa Covid. Estamos perdendo muitos amigos. É tudo muito triste”, lamenta Henrique, que era vendedor de roupas no calçadão de Colatina quando conheceu Fabrício e passou a cuidar dele como filho. “Tanto que meus filhos o chamavam de irmão”, disse. Trabalhando na rua, Henrique fez Direito e montou escritório. Fabrício continuou no ofício de ambulante.
No vídeo, que, segundo o jornalista Carlos Madureira, que conhecia a vítima, teria sido gravado na madrugada de domingo, Fabrício demonstra sofrimento, mas chega a brincar com sua luta contra o coronavírus e deixa um recado para que as pessoas não negligenciem a doença e usem a máscara, o que ele, confessadamente, não fez.
Com a voz arrastada, Fabrício relata: “Boa noite, rapaziada. A briga hoje foi feia com esse vírus. Hoje quase que ele me leva. Foi pesado. Ele me arrastou, fez igual a crocodilo no Nilo, me abocanhou e rodou. Sabe o giro da morte? Me estraçalhou, só não conseguiu me engolir porque fui forte, titã. Mas ele me balançou, me chacoalhou, me despedaçou”.
Em seguida, Fabrício faz uma previsão, tentando ser otimista: “Amanhã é o oitavo dia, está passando, mas não está fácil não. Usa a máscara, gente. Faz igual eu fiz não... não brinca não. Vamos esperar amanhã para ver se ele vai me arrebentar de novo. Se eu passar esses dois dias que vêm agora, estou fora dele”.
Estas palavras acima foram as últimas de Fabrício, que frequentava muito a Banca do Briel, cujo proprietário também já foi contaminado com o vírus, mas conseguiu superar bem: “Eu tinha feito uma cirurgia de coração um ano antes e fiquei preocupado. Mas, graças a Deus, só senti uma febre e perdi o paladar. Esse vírus está muito difícil. Muita gente conhecida morreu em Colatina”.
Dentre pessoas bem conhecidas da cidade, e que não resistiram à doença, estavam o médico Fred Tannure e o dono de jornal José Francisco Mendes. “Mas tem umas 20 pessoas muito conhecidas que morreram”, pontua Briel.
De acordo com os últimos números divulgados pela
Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), Colatina já tem 13.374 casos confirmados de Covid, o que representa 11% da população atingida pelo vírus. Fabrício Félix é a vítima de número 203 na cidade.