Ciente do que havia sido dito pelo adversário – um integrante da campanha do socialista ouviu tudo –, o socialista inseriu nas respostas sobre questões relativas à área econômica contrapontos e críticas ao candidato do PL.
A plateia era formada por empresários, representantes de boa parte do PIB do estado.
"Temos um estado equilibrado na área fiscal. Fui acusado, no primeiro turno, de ser um governante responsável. Tenho, sim, dinheiro em caixa. Não inicio obra se não tiver dinheiro em caixa, não começo um programa se não tiver dinheiro em caixa. A redução do ICMS (dos combustíveis, por exemplo) apliquei imediatamente (graças à reserva financeira)", pontuou, em meio a uma pergunta sobre Educação.
"Medidas boas adotadas pelo presidente da República (Jair Bolsonaro) eu adotei todas. Governador não é para fazer oposição ao presidente da República", complementou.
A estratégia permeou toda a apresentação. A ideia é frisar que apenas o candidato do PSB tem "capacidade de diálogo e equilíbrio emocional" para lidar com quem quer que seja o chefe do Executivo federal a partir do ano que vem, Lula (PT) ou Bolsonaro (PL).
Dirigindo-se aos empresários, Casagrande questionou: "Trabalhamos juntos para tirar o estado das mãos do crime organizado, vocês nos ajudaram (referindo-se ao período anterior às últimas duas décadas) ... A gente não pode correr risco. Por que vamos interromper um processo de aperfeiçoamento institucional?".
"Temos um governo realizador, mas reconheço que um novo mandato não é um mandato de oito anos. É uma nova equipe. Ricardo vai me ajudar na área da Agricultura", frisou, na primeira menção à "arma secreta", que não é nenhum segredo: o ex-senador Ricardo Ferraço (PSDB), vice na chapa.
Ricardo foi ao evento, assim como outros aliados do governador, entre eles o deputado federal Felipe Rigoni (União Brasil) e o secretário da Fazenda, Marcelo Altoé. O socialista também tinha sua claque na plateia.
Caberia a Ricardo, ao final, o discurso que, aparentemente, mais agradou ao público presente, que o recebeu com efusivos aplausos.
A lentidão no licenciamento ambiental foi um dos pontos criticados por Manato, que prometeu desburocratizar o processo. Casagrande, por sua vez, afirmou que encontrou o Iema (Instituto Estadual do Meio Ambiente), responsável pelas licenças, "na Idade da Pedra".
"A gente assumiu com o Iema destroçado, estamos tirando da Idade da Pedra e colocando sistema. Contratamos DTs, mas estamos fazendo concurso para o Iema", justificou.
"Hoje é um dia triste, lamentamos a morte de dois jovens policiais, mas fomos lá e prendemos as quatro pessoas envolvidas. Há crime organizado no estado, mas o crime organizado não está dentro das instituições (...) A gente não pode perder isso num debate superficial", afirmou Casagrande.
"Ele (Manato) está escondido na moita, atrás de Bolsonaro", afirmou, cutucando o adversário, que não estava mais presente. "A Le Cocq foi responsável por tirar a vida de muita gente".
A Scuderie Le Cocq foi um grupo de extermínio famoso nos anos 1990. Antes de Casagrande chegar, Manato já havia se antecipado e rebatido o fato de ter integrado a entidade. Garantiu que, lá, fez apenas filantropia.
O candidato do PL também acusou o socialista de integrar o crime organizado e citou a prisão do ex-secretário da Fazenda Rogelio Pegoretti, sob suspeita de participação em fraude fiscal.
Casagrande foi questionado sobre corrupção em uma pergunta da plateia e mencionou o episódio. "Se alguém me apontar um erro eu não tenho compromisso com o erro (...) Foi a nossa Secretaria da Fazenda que identificou o desvio, foram os auditores da Sefaz. Isso é deixar a instituição funcionar. A pessoa (Rogelio) não estava mais no governo e vai responder na Justiça".
"Temos que escolher entre projetos. Entre quem tem interesse de aperfeiçoar as instituições e outro, que nos leva para instabilidade e insegurança", avaliou.
"RAINHA DA INGLATERRA"
Ao final, o vice na chapa poderia falar, se assim quisesse. O governador chamou Ricardo Ferraço que, ao ter o nome mencionado, foi bastante aplaudido.
O tucano tem bom relacionamento com o empresariado.
"Casagrande tem vice para ganhar a eleição e para ajudar a governar. Cada escolha tem consequência (...) Sei onde Casagrande e eu estávamos quando estávamos reorganizando o estado. Não sei onde o outro candidato estava", provocou.
"Vou ter uma conversa estilo Tramontina com vocês: minha ideologia é o resultado. Tenho impressão que estamos disputando a eleição com Bolsonaro. Estamos disputando com Manato (...) não somos manada. É preciso distinguir o debate local do debate nacional. Não tenho preocupação com o meu futuro. Tenho preocupação com o futuro do Espírito Santo", afirmou, no que irromperam aplausos, mais uma vez.
"Meu papel não será o de rainha da Inglaterra, até porque a rainha da Inglaterra se foi. Vou coordenar ações na agricultura e no desenvolvimento econômico. E um choque de gestão na área do meio ambiente", disse Ricardo.
Entre as propostas de Casagrande, que foram citadas além das críticas a Manato, estão a Escola do Futuro, "uma escola totalmente digital"; a construção de uma via estadual em alternativa à obra federal na BR 262, se esta demorar ainda mais a sair do papel; a criação de um comitê para debater com os representantes do setor da agricultura de três em três meses e a realização de concursos anuais para a Polícia Militar.
O FEF, que realizou o evento, é formado por ES em Ação, Federação da Agricultura e Pecuária (Faes), Federação do Comércio, Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio), Federação das Indústrias (Findes) e Federação dos Transportes (Fetransportes).
Cena política
A primeira coisa que Casagrande fez ao chegar ao evento com empresários foi contar uma piada, embora no restante do tempo tenha ficado contido e concentrado.
Vou resumir aqui. Já aviso que não sou boa em contar piadas, então provavelmente meu resumo vai ser menos engraçado.
Um homem morreu. São Pedro permitiu que visitasse o céu e o inferno para decidir onde gostaria de passar a eternidade. O céu era uma pasmaceira, com anjos tocando harpas. No inferno, uma festa agitada, com todo mundo se divertindo. O morto escolheu o inferno. São Pedro o avisou que não poderia mudar de ideia depois.
Ao chegar ao inferno, entretanto, o homem reparou que as coisas estavam bem diferentes, com as já imagináveis labaredas e o sofrimento constante. O morto, então, procurou o "capeta chefe" (palavras de Casagrande) e perguntou o motivo da mudança. A resposta: "É que antes nós estávamos em campanha".
Letícia Gonçalves
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.