A "estratégia de persuasão" de Marcos do Val revelada em mensagens
Perícia no celular
A "estratégia de persuasão" de Marcos do Val revelada em mensagens
Senador do ES teve celular apreendido pela PF. Em conversas com amigas e com o então deputado federal Daniel Silveira, Do Val colocou-se como ator central de um plano que entraria "para a história do Brasil/mundo”
Publicado em 12 de Julho de 2023 às 11:54
Públicado em
12 jul 2023 às 11:54
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Senador Marcos do ValCrédito: Edilson Rodrigues/Agência Senado
O celular do senador Marcos do Val (Podemos) foi apreendido pela Polícia Federal e as mensagens encontradas foram registradas em um relatório.
Em conversas com o então deputado federal Daniel Silveira (PTB) ou em grupos de WhatsApp, como o “Amigas para a eternidade”, o parlamentar do Espírito Santo gabava-se de ter "o destino de dois presidentes" nas mãos e avisava que teria que se reportar à "inteligência americana" sobre o suposto plano golpista no qual ele mesmo teria papel central.
O Globo e Metrópoles tiveram acesso ao relatório. E a coluna faz aqui uma breve análise.
Do Val, em versões contraditórias, contadas nas redes sociais, à imprensa e à PF, relatou que Silveira o convidou a participar de um golpe de Estado, que passava por gravar uma conversa com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
O objetivo era impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e manter Jair Bolsonaro (PL) no poder.
Ou então era apenas atrapalhar o trabalho do ministro. Ou avisar o ministro sobre o plano em curso. Depende da versão.
Marcos do Val chamou isso de "estratégia de persuasão". Uma maneira polida de admitir que mentiu propositalmente.
No relatório, a PF, também polidamente, optou pela palavra "blefe".
Em 13 de dezembro de 2022, o senador enviou mensagem a Silveira, respondendo a um lembrete para "terminarmos aquela conversa".
Do Val ressaltou que, antes, teria que falar com o serviço de inteligência dos Estados Unidos:
"Devido a outra função que exerço, tive que reportar para a inteligência americana. Amanhã teremos uma posição para te passar”.
“Mesmo havendo contatos com números americanos (DDI +1) no celular do senador não foram encontradas mensagens no aplicativo WhatsApp que se referissem ao compartilhamento da ‘missão’ com qualquer contato. É possível que DO VAL tenha dito tal afirmação apenas como um ‘blefe’”, concluiu a Polícia Federal, no relatório.
Mas, como se depreende do relatório da PF, não estava em contato com o FBI, a CIA ou algo que o valha.
Já nos grupos "Chefia" e "Amigas para Sempre", o parlamentar mencionou o plano para impedir a posse de Lula, sempre colocando-se como peça importante no tabuleiro político nacional.
De acordo com Do Val, a missão confiada a ele pelo próprio Bolsonaro entraria "para a história do Brasil/mundo”.
Curioso que um plano dessa magnitude seja discutido em um grupo de WhatsApp com amigas.
"Eu fui convidado por ele (Bolsonaro) para fazer essa ação. Como integrante da CCAI (Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência), fui dando corda para ver até onde ele iria. Na eminência (sic) de fato acontecer eu passei para ele que estaria cometendo um crime gravíssimo contra a democracia e de lá reportei para o órgão responsável. Foi diante disso que ele fugiu para os EUA".
"Ele (Bolsonaro) não estava mais preocupado com o Brasil, mas por ser preso", avaliou o senador, no grupo das amigas.
Nessas mensagens, Do Val estava pouco amistoso em relação a Bolsonaro. Mas, em março de 2023, ele afirmou, pessoalmente, a apoiadores do ex-presidente que atuou apenas para blindar Bolsonaro de Moraes.
Ao mesmo tempo em que falava com Daniel Silveira e com Bolsonaro, mostrando-se aliado a eles na execução do plano, o senador trocava mensagens com o próprio Moraes, contanto o passo a passo da história, como registra o relatório da Polícia Federal.
"Bom dia, ministro. Ontem à noite estava no plenário (do Senado) e o Daniel Silveira foi até a mim e lá fora ligou para o Bolsonaro. Bolsonaro pediu para falar comigo e me perguntou se poderia encontrar com ele hoje no fim da tarde. O objetivo é mesmo derrubar o presidente Lula. Quando sair da reunião, faço contato”, escreveu Do Val em 8 de dezembro.
Voltando às conversas no grupo "Amigas para a eternidade”, Do Val anunciou:
"Simplesmente está em minhas mãos o destino de 2 presidentes".
A referência era a Lula e a Bolsonaro.
Lula tomou posse.
Bolsonaro foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral e, nesta quarta (12), deve prestar depoimento à PF sobre o tal plano mencionado pelo senador do Espírito Santo.
Do Val, por sua vez, foi alvo de mandados de busca e apreensão expedidos pelo STF, no mês passado, e tirou licença do mandato por motivo de saúde.
A PF tem que avaliar, no curso do inquérito, se há indícios de que o senador cometeu algum crime.
O fato é que ele fez um jogo duplo, sabe-se lá com qual objetivo.
A coluna não teve acesso à íntegra das conversas constantes no celular apreendido.
Por enquanto, o que é possível afirmar é que, aparentemente, há bastante "estratégia de persuasão" nas mensagens.
Isso denota uma maneira de fazer política que causa barulho e confusão, chama a atenção. Mas, no fim das contas, tem como saldo apenas um certo constrangimento.
DO VAL NEGA APOIO A ATOS ANTIDEMOCRÁTICOS
O senador enviou uma nota à imprensa, nesta quarta, em que criticou o vazamento das conversas constantes no relatório da PF e afirmou que jamais apoiou movimentos antidemocráticos.
"Marcos do Val jamais endossou quaisquer discursos que pregassem a ruptura democrática, nem deu apoio a quaisquer movimentos nesse sentido", diz a nota, assinada pela assessoria de imprensa do parlamentar.
"As notícias veiculadas hoje envolvendo o nome do senador Marcos do Val descontextualizam trechos de extensas conversas, distorcendo os fatos e atribuindo ao senador uma responsabilidade que não é dele."
CONFIRA A ÍNTEGRA DA NOTA:
Fomos surpreendidos nesta quarta-feira (12) com a publicação de matérias jornalísticas que atribuem ao senador Marcos do Val a responsabilidade por condutas que não são aparadas pelos fatos contidos nos autos da investigação conduzida pela Polícia Federal a respeito dos acontecimentos em torno do 8 de janeiro passado.
A biografia do senador Marcos do Val é pontuada pelo seu apreço pela democracia e repúdio a quaisquer aventuras antidemocráticas. Em toda a sua trajetória pública, antes mesmo de ingressar na arena política, Marcos do Val jamais endossou quaisquer discursos que pregassem a ruptura democrática, nem deu apoio a quaisquer movimentos nesse sentido.
Esse seu posicionamento está cristalizado nos depoimentos que deu à Polícia Federal, que apura os fatos em investigação sigilosa, bem como na íntegra das mensagens que foram criminosamente divulgadas nas matérias publicadas hoje.
As notícias veiculadas hoje envolvendo o nome do senador Marcos do Val descontextualizam trechos de extensas conversas, distorcendo os fatos e atribuindo ao senador uma responsabilidade que não é dele. Ao se analisar o inteiro teor da troca de mensagens citada nas reportagens, percebe-se o quanto a narrativa apresentada hoje pela imprensa não se sustenta.
Por fim, causa-nos espécie e indignação ver que elementos de uma investigação sigilosa que está sendo conduzida pela Polícia Federal tenham sido entregues à imprensa e divulgados ao público sem qualquer respeito à veracidade dos fatos, com o claro intuito de antecipar o julgamento pela opinião pública e manchar o nome do senador Marcos do Val.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.