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Teste do bafômetro

Ao admitir que bebeu, Polese apresenta prova que a Corregedoria não achou

Deputado estadual Lucas Polese (PL) foi multado, em maio, após se recusar a fazer o teste do bafômetro ao dirigir carro oficial da Assembleia. Corregedoria arquivou o caso

Publicado em 28 de Dezembro de 2023 às 13:23

Públicado em 

28 dez 2023 às 13:23
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Não chega a surpreender, mas, na noite de quarta-feira (27), o deputado estadual Lucas Polese (PL) fez uma live, transmissão ao vivo nas redes sociais, na qual admitiu que recusou o teste do bafômetro, em maio, porque havia ingerido bebida alcoólica.
Normalmente, é por isso mesmo que motoristas recusam-se a se submeter ao exame. O problema, além da infração de trânsito, é que ele dirigia um carro oficial bancado pela Assembleia Legislativa do Espírito Santo.
a Corregedoria da Casa arquivou um procedimento contra o deputado por falta de provas. O colegiado alegou que não recebeu nenhum auto de infração referente ao episódio. Lendo os autos, é possível notar que não houve muito esforço para encontrar a tal prova. Ninguém pensou, por exemplo, em acionar o Detran.
A Corregedoria sustentou que "não há qualquer prova inequívoca de alteração da capacidade psicomotora em razão da influência de álcool", como registra o relatório do corregedor-geral, Mazinho dos Anjos (PSDB).
O quanto a ingestão de álcool alterou a capacidade do deputado de dirigir, realmente, não é possível saber, mas a prova de que ele bebeu o próprio Polese, agora, entregou. O vídeo da live está no início desta página, na íntegra. Apesar de o parlamentar ter deletado a publicação na manhã desta quinta-feira (28), a reportagem de A Gazeta já havia feito o download.
Ele havia sustentado outra versão. Em nota oficial, em maio, afirmou que foi "orientado pelo jurídico" a não fazer o teste e que, por travar uma "batalha contra a alta cúpula da segurança pública", tinha receio de "retaliações e perseguições".
Em áudio enviado a um grupo de WhatsApp, ainda em maio, o deputado garantiu que, se fosse parado em dez blitze, recusaria o bafômetro em todas elas. 
"Se for parado em mais dez blitz (blitze, no plural), eu recuso o bafômetro nas dez. Aonde que eu vou dar a abertura para quem quer me ferrar na alta cúpula da polícia? Coronel Caus (comandante-geral da PMES) conseguir, finalmente? Jamais, rapaz, jamais", disse o parlamentar do PL, na ocasião.
Estava implícito que, se por algum motivo, a alta cúpula da PM não gosta de você, o soldado que está na rua trabalhando pode fraudar o bafômetro ou inserir dados falsos em um auto de infração.
O militar que parou Polese na blitz naquela madrugada registrou que o deputado apresentava "odor etílico".
Já nesta quarta, o deputado disse que, durante jantar com o embaixador do Azerbaijão, num restaurante de Vitória, brindou e bebeu vinho, para agradar ao representante do país estrangeiro.
O encontro fazia parte de uma agenda oficial. Por mais que pareça meio aleatório, a coluna já havia mostrado que naquele dia, e em dias imediatamente anteriores, o parlamentar havia ciceroneado o embaixador do país do leste europeu durante passagens por cidades capixabas.
O deputado admitiu em vídeo, na live, que recusou o bafômetro por ter ingerido bebida alcoólica: "Por ter bebido essa taça, por não saber se ia ser pego ou não em um bafômetro, eu preferi não fazer".
Então o problema não era a "alta cúpula" ou "o sistema" e sim algo bem mais trivial.
Polese foi multado em R$ 2,9 mil e, de acordo com o Código de Trânsito, fica 12 meses com o direito de dirigir suspenso. Como ocorre com qualquer motorista em situação similar.
O USO DO CARRO
A Corregedoria da Assembleia Legislativa foi acionada pela ONG Transparência Capixaba para apurar se o deputado infringiu o Código de Ética e Decoro Parlamentar ao supostamente dirigir o carro oficial sob efeito de álcool e em quais circunstâncias ele usou o veículo.
De acordo com a Corregedoria, Polese apresentou documentos que comprovaram que ele utilizou o carro naquele dia para cumprir agenda com o embaixador do Azerbaijão. 
Ou seja, não foi para fins pessoais. Ok. 
Na transmissão ao vivo, o deputado diz que a Corregedoria apurou apenas isso e não a ingestão de álcool.
Na verdade, a representação tratava das duas coisas.
O relatório de Mazinho afirma que "ao cometer uma infração de trânsito, deve o indivíduo responder administrativamente, civilmente e, sendo o caso, penalmente, não sendo da alçada desta casa de leis decidir se o indivíduo/deputado terá seu mandato suspenso ou cassado ante qualquer infração de trânsito".
Mas também que "o que se busca avaliar é a compostura das ações do representado (...) que de alguma forma possam embaraçar a higidez e a dignidade da representação popular".
É que uma coisa é o parlamentar ser multado por recusar o bafômetro ao dirigir o carro particular dele, outra é isso acontecer ao volante de um veículo oficial.
Imaginem se um policial dirige uma viatura após ingerir bebida alcoólica? Ou se um motorista a serviço do governo estadual faz o mesmo ao conduzir um carro utilizado para atividades administrativas? 
Já afirmei, ainda em maio, neste espaço, que não via problema algum se, por acaso, o parlamentar tivesse ingerido bebida alcoólica, moderadamente e às próprias custas, numa agenda oficial.
A questão foi pegar o volante depois. 
Ao analisar essa parte, a Corregedoria foi bem complacente. 
O colegiado considerou que não havia, na Assembleia, existência de auto de infração/notificação sobre a ocorrência de trânsito.
É que o Setor de Transportes da Casa e o próprio gabinete de Lucas Polese informaram que não receberam nada.
Se a Corregedoria tivesse demandado o Detran, como a reportagem de A Gazeta fez, saberia que o auto de infração foi encaminhado à empresa dona do veículo guiado por Polese, a Localiza, com quem a Assembleia mantém um contrato de aluguel dos carros oficiais.
Isso ocorreu ainda em junho.
A Transparência Capixaba, na representação feita à Assembleia, ainda sugeriu que o colegiado pedisse as imagens das câmeras do restaurante em que o deputado jantou com o embaixador do Azerbaijão, pouco antes da blitz, que poderiam mostrar a ingestão de bebida alcoólica.
O relator do caso, Mazinho, registrou no relatório que a ONG não informou o nome do restaurante e que, por isso, não poderia atender ao pedido "genérico". Nem cogitou perguntar ao parlamentar onde foi realizado o jantar? 
Dica: na live da noite desta quarta, Polese falou o nome do restaurante.
O Código de Ética e Decoro Parlamentar da Assembleia Legislativa diz que é dever do deputado "exercer o mandato com dignidade e respeito à coisa pública e à vontade popular".
O código não prevê como únicas punições possíveis a suspensão ou a perda do mandato. Há penas mais brandas: advertência ou censura.
Para o relator do caso Polese, o corregedor-geral Mazinho dos Anjos, contudo, "inexiste nos autos justa causa para aplicação de qualquer sanção".
A coluna tentou contato com Mazinho, diretamente e por meio da assessoria de imprensa, para saber se, após a confissão, o colegiado vai adotar alguma providência. Não houve resposta até a publicação deste texto.
MINISTÉRIO PÚBLICO INVESTIGA
Além da Corregedoria, a Transparência Capixaba acionou o Ministério Público Estadual.
Lá, o procedimento para apurar o caso não foi arquivado. A coluna conferiu que o último andamento foi registrado justamente nesta quarta-feira (27). 
A Reclamação referente a improbidade administrativa está no gabinete da procuradora-geral de Justiça, Luciana Andrade. Trata-se de uma Notícia de Fato.
De acordo com o próprio Lucas Polese, na transmissão ao vivo, ele prestou depoimento sobre isso ao MP:
"Fui lá e falei tudo sobre o que aconteceu, mostrei que estava trabalhando (...) porque não tenho nada para esconder da minha vida", afirmou o deputado.
O curioso é que, até esta quarta, após a divulgação do arquivamento do procedimento na Corregedoria, ele omitiu que havia ingerido bebida alcoólica pouco antes de ser parado na blitz e preferiu apontar outros culpados pela própria omissão.
O QUE DIZ LUCAS POLESE
À reportagem de A Gazeta, Lucas Polese afirmou o seguinte:
"O arquivamento do processo aconteceu porque comprovei que não houve quebra de decoro, que estava usando o veículo para funções de trabalho mesmo, relacionadas ao mandato. Comprovei isso com vídeo de câmeras de filmagem dos estabelecimentos onde eu estava antes e depois da blitz. Quanto à multa, isso se insere no Código de Trânsito. É uma infração de trânsito pessoal minha, isso eu vou pagar, não se insere na esfera do mandato".

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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