Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

De homenageado a encarcerado

Ascensão e queda de um juiz no Espírito Santo

Antes de ser preso na Operação Alma Viva, que apura venda de sentença, e de ser denunciado por advocacia administrativa, Alexandre Farina colecionava amigos entre autoridades do estado e homenagens diversas

Publicado em 15 de Outubro de 2021 às 02:10

Públicado em 

15 out 2021 às 02:10
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Juiz de Direito Alexandre Farina em discurso na Assembleia Legislativa do Espírito Santo
Juiz de Direito Alexandre Farina em discurso na Assembleia Legislativa do Espírito Santo, em 2019 Crédito: Lissa de Paula/Ales
Antes de ser alvo da Operação Alma Viva, que o levou à prisão preventiva, o juiz de Direito Alexandre Farina Lopes frequentava ambientes bem mais amenos que o Quartel do Comando Geral da Polícia Militar, em Maruípe, Vitória, onde é mantido.
De acordo com o Ministério Público Estadual (MPES), Farina intermediou a venda de uma sentença. É esse o caso em investigação no âmbito da Alma Viva, que atingiu também o juiz Carlos Alexandre Gutmann, este em prisão domiciliar para cuidar das filhas.
Farina, no entanto, é alvo ainda de outra denúncia, desta vez sob a acusação de ter praticado o crime de advocacia administrativa, como a coluna já mostrou. Em relação a esse ponto, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) avalia um procedimento disciplinar, inicialmente arquivado pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES).
De uma só vez, portanto, várias frentes se abriram contra o magistrado. Ressalte-se que ele ainda não foi julgado, logo, nem condenado nem absolvido. O contexto, no entanto, é muito diverso de um passado recente.
Farina recebeu diversas homenagens, já foi elogiado, inclusive, pelo CNJ. Era figura frequente em solenidades e em eventos com outras autoridades, ainda que de maneira informal.
Bastou que as apurações da Alma Viva viessem à tona, em julho, para passarem a circular, no submundo do WhatsApp, fotos outrora sorridentes do magistrado na companhia de pessoas da mais alta estirpe. Claro que isso não tem nada de ilegal.
Também é preciso frisar que Alexandre Farina, embora esteja afastado das funções, não foi punido administrativamente, diferentemente de outros juízes, que receberam a pena máxima nessa esfera: a aposentadoria compulsória com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço.
O Portal da Transparência do TJES mostra o juiz lotado na 2ª Vara da Infância e da Juventude da Serra e recebendo o salário de R$ 33.689,11, além de verbas indenizatórias e vantagens eventuais. Em agosto, ele contou com R$ 47.417,65 brutos no contracheque.
O afastamento enquanto é investigado não faz com que ele perca a remuneração. Isso seria considerado uma punição antecipada. Já a prisão preventiva, como o nome sugere, não é para cumprimento de pena – já que não há condenação – e sim para impedir que o magistrado interfira nas apurações.

APLAUSOS

Farina graduou-se em Direito pela Ufes em 1996. Ingressou na magistratura em 2003. Já em 2010, foi designado pelo TJES como gestor do programa Começar de Novo, que tinha o objetivo de reinserir presos e egressos do sistema prisional no mercado de trabalho.
“O juiz Alexandre Farina Lopes merece o efusivo Nosso Aplauso!”, registrou o CNJ, em 2016. Naquele ano, uma visita da Corregedoria Nacional de Justiça ao Espírito Santo constatou que:
“Incomodado com a burocracia interna da máquina judiciária, o que resulta na morosidade da marcha processual, Farina desenvolveu uma metodologia que torna mais célere os processos de réus presos – atacando diretamente o crônico problema de superlotação das penitenciárias brasileiras, onde estão encarcerados dezenas de milhares de presos provisórios”.
Sem manchas no currículo e aplaudido, ninguém pensou que seria ruim ser amigo de Alexandre Farina. E ele ganhou vários títulos, oficialmente, como tal: amigo da Polícia Militar, amigo da Polícia Civil e ainda foi honrado como cidadão de diversas cidades.
As investigações da Alma Viva mostraram, no entanto, outra amizade, menos divulgada. De acordo com o MPES, o juiz mantinha contato com o então policial civil Hilário Frasson, depois condenado como mandante da morte da médica Milena Gottardi. Hilário também intermediou, de acordo com o Ministério Público, a venda de sentença, em parceria com Farina.
Na Assembleia Legislativa, o juiz ganhou, antes de isso tudo vir a público, evidentemente, a Ordem do Mérito “Domingos Martins” no grau de oficial.
Aliás, os anais da Assembleia registram que o juiz é, ou era, “grande colaborador do Rio Branco”. Isso por ocasião dos 91 Anos do Rio Branco Atlético Clube.
A foto do juiz em meio a um grupo de amigos num jogo no Maracanã (não do Rio Branco, mas do Flamengo), causou certo mal-estar.
Entre os convivas estava o procurador de Justiça Eder Pontes, candidato a uma vaga de desembargador no TJES. Como favorito à cadeira, no entanto, a avaliação de membros do Tribunal consultados pela coluna é que a efeméride futebolística não deve trazer nenhuma complicação prática. Afinal, não é ilegal.
Farina atuou em diversos municípios como magistrado, como Vitória, Aracruz e, por último, na Serra. Lá, era o diretor do Fórum. Ainda na Assembleia Legislativa, como convidado, fez um discurso efusivo sobre o município, em 2019:
“Uma cidade com o maior número de habitantes no estado do Espírito Santo, também com vários problemas que deságuam na Justiça. Precisamos e passamos da hora de dialogar com a sociedade e fazer com que a Serra cresça cada dia mais, cada um com sua responsabilidade, seja no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Serra precisa e merece crescer. E para isso precisa de nós, nós todos, com humildade, com sabedoria com tranquilidade”, afirmou Farina, na ocasião.

SEM APLAUSOS

Prisão do juiz - Operação Alma Viva
Carro que levou o juiz Alexandre Farina ao Quartel do Comando Geral da PM, onde está preso preventivamente Crédito: Fernando Madeira
O humor dos desembargadores não foi dos melhores ao analisar as acusações contra Farina, em meio ao vazamento de informações sobre a investigação, até então sigilosa.
O Tribunal afastou e mandou prender preventivamente o magistrado, assim como Carlos Alexandre Gutmann.
E ainda analisa se recebe a denúncia por advocacia administrativa. Essa diz respeito apenas a Farina.Na sessão desta quinta-feira (14) a votação avançou, mas houve mais um pedido de vista, desta vez do desembargador Willian Silva, que retirou voto anteriormente proferido em favor da abertura de uma ação penal.
Enquanto isso, o juiz contratou uma defesa de peso, capitaneada pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay.
A defesa sustenta que não há necessidade da prisão preventiva e aponta que o juiz estava comparecendo aos atos processuais. Os advogados também rechaçam a denúncia por advocacia administrativa, apontam que o magistrado apenas manteve contato com juízas, sem que isso configure um crime em favor de réus.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Ataque a tiros em pirâmides do México deixa turista morta e várias pessoas feridas
Imagem BBC Brasil
Governo Trump manda delegado da PF que ajudou ICE a prender Ramagem deixar os EUA
Agência do Banco do Brasil em Baixo Guandu voltou a funcionar normalmente
Agência do Banco do Brasil volta a funcionar e não vai fechar em Baixo Guandu

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados