Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Projeto na Assembleia

Bispo da Universal quer Cannabis medicinal no SUS. Conselho de Saúde do ES concorda

O Projeto de Lei 77/2023 tramita na Assembleia Legislativa do Espírito Santo e é de autoria do deputado Bispo Alves (Republicanos). Uma moção de apoio à proposta foi publicada no Diário Oficial

Publicado em 01 de Setembro de 2023 às 02:10

Públicado em 

01 set 2023 às 02:10
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

O canabidiol, conhecido popularmente como CBD, é uma substância extraída da planta Cannabis
O canabidiol, conhecido como CBD, é uma substância extraída da planta Cannabis Crédito: Julia Teichmann/ Pixabay
Benedito Alves Costa nasceu em Sergipe, foi deputado estadual no Rio de Janeiro e exerce, desde fevereiro, o primeiro mandato na Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, ele é conhecido como Bispo Alves e filiado ao Republicanos, o braço político da entidade religiosa.
Já nos primeiros dias como parlamentar em terras capixabas, Bispo Alves protocolou o Projeto de Lei 77/2023, que institui a política estadual de fornecimento gratuito de medicamentos à base de canabidiol, substância extraída da Cannabis, a maconha. 
A ideia é incorporar esses remédios ao SUS no estado. Inclusive os feitos em associação como o tetrahidrocanabidiol, outro ingrediente da Cannabis.  Uma proposta similar, feita pelo deputado Danilo Bahiense (PL) também em fevereiro de 2023, foi anexada ao texto.
O projeto recebeu o aval da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com a supressão de dois artigos.
No último dia 16, Coronel Weliton (PTB) pediu que o PL passe a tramitar em regime de urgência, ou seja, que seja votado o mais brevemente possível em plenário.
O Republicanos, cujo slogan é "o verdadeiro partido conservador do Brasil", o PL do ex-presidente Jair Bolsonaro e o PTB, que deu uma guinada à direita após Roberto Jefferson virar bolsonarista, portanto, aliam-se a uma causa progressista.
Veja a íntegra dos dois projetos no (quase) final deste texto.
"Muito embora, desde o ano de 2015, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) já autorize a importação dos produtos à base dessa substância, o processo ainda é considerado burocrático e o custo elevado, o que dificulta o acesso de parte da população que necessita desse medicamento", escreveu Bispo Alves, na justificativa do projeto de lei.
De acordo com a Fiocruz, as indicações mais bem fundamentadas cientificamente da Cannabis medicinal são para epilepsia, dor neuropática e para lidar com os efeitos adversos de quimioterapia ou radioterapia.
Para alguns, principalmente os que se autoidentificam como conservadores ou religiosos, maconha é quase um palavrão, o que priva pessoas que estão em sofrimento de acesso a determinados tratamentos. 
E, sem o fornecimento pelo Sistema Único de Saúde, mesmo quem não se rende ao obscurantismo enfrenta barreiras. Os produtos são caros. Para fazer com que o poder público os disponibilize, recorre-se ao Judiciário. E isso em casos específicos.
Não que o Espírito Santo esteja na vanguarda científica ou iluminista da coisa.
Levantamento publicado pela Folha de S. Paulo, em julho, mostrou que 13 estados já aprovaram leis estaduais semelhantes à que Bispo Alves sugere. Um deles é São Paulo, do governador Tarcísio de Freitas, correligionário do deputado.
Na quarta-feira (30), o Conselho Estadual de Saúde publicou, no Diário Oficial do Estado do Espírito Santo, uma moção de apoio ao PL 77/2023.
O texto destaca que há urgência em "romper com a lógica proibicionista, pautada em preconceitos socialmente difundidos que, mobilizada por agentes políticos, vem obstaculizando a regulação, o acesso e a democratização do uso de medicamentos e/ou terapias à base de extratos da Cannabis sp, negando, assim, o direito à saúde e a uma sobrevivência digna às pessoas que dependem desses medicamentos e a necessidade de desmistificar o uso da Cannabis junto à população em geral".
O conselho lamentou, na moção, "o sofrimento de famílias que precisam encarar longos e complexos processos judiciais para conseguir permissão para importar os medicamentos, bem como daquelas que não possuem recursos econômicos para adquiri-los por meios próprios, ficando na dependência do beneplácito do estado em cumprir as determinações judiciais quando estas são favoráveis".
Mas então por que o SUS não fornece, nacionalmente, os medicamentos (para fins específicos e com receita médica, evidentemente)?
O Congresso Nacional poderia aprovar uma legislação para o uso da Cannabis medicinal em todo o país. Mas, diante da omissão da Câmara dos Deputados e do Senado, Assembleias Legislativas e até Câmaras municipais têm agido.
O risco é haver regras diferentes em cada lugar. E nem sempre com o devido rigor científico.
O governo federal, por meio do Ministério da Saúde, poderia incluir produtos a base de Canabidiol no SUS por conta própria. Mas, para isso, espera recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).
À Folha, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, afirmou que "é no âmbito desta comissão que nós vamos tratar porque uma decisão como essa não pode ser uma decisão político-administrativa, ela tem que ser uma decisão com base nessa avaliação científica. Se houver evidência científica e se houver uma visão que é uma política adequada para o SUS, poderá ocorrer a incorporação. São os dois parâmetros".
Deputado estadual Bispo Alves
Deputado estadual Bispo Alves Crédito: Lucas S. Costa/Ales
O Artigo 1ª do texto de autoria de Bispo Alves que tramita na Assembleia do Espírito Santo diz, originalmente, que "Fica instituída a política estadual de fornecimento gratuito de medicamentos de derivado vegetal à base de canabidiol, em associação com outras substâncias canabinóides, incluindo o tetrahidrocanabidiol, em caráter de excepcionalidade pelo Poder Executivo nas unidades de saúde pública estadual e privada conveniada ao Sistema Único de Saúde – SUS".
Relatório da Comissão de Constituição e Justiça sugeriu alterar o texto. Uma emenda modificativa insere, no artigo, que o medicamento deve ser "industrializado e tecnicamente elaborado, nos termos das normas elaboradas e aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa e com a devida prescrição pelo médico assistente".
A CCJ também aprovou duas emendas supressivas.
O Artigo 5º do projeto do bispo licenciado da Universal estabelece o prazo de 30 dias para a Secretaria Estadual de Saúde criar uma comissão de trabalho para implantar a política de fornecimento de medicamentos à base de canabidiol. Isso ficaria de fora do texto.
A Comissão também definiu que um artigo do projeto de autoria de Bahiense deve ser excluído, o que diz que o Poder Executivo teria 60 dias para regulamentar a lei.
Com a supressão desses artigos, a CCJ avalia que a lei, se aprovada, não interferiria a organização administrativa do Poder Executivo e não inovaria em obrigações a serem cumpridas pelo governo estadual, apenas eliminaria uma etapa burocrática para que a Secretaria Estadual da Saúde pudesse fornecer os medicamentos à base de canabidiol.
Para ser aprovado, o PL 77/2023 precisa dos votos da maioria simples dos 30 deputados estaduais. A votação é simbólica ("Aqueles que concordam permaneçam como estão. Os contrários se manifestem").
Para valer, o projeto ainda precisaria ser sancionado pelo governador Renato Casagrande (PSB) ou, em caso de omissão do chefe do Executivo, promulgado pela Assembleia.

Arquivos & Anexos

A íntegra do PL 77/2023

Leia  o projeto do deputado estadual Bispo Alves (Republicanos)
Tamanho do arquivo: 346kb
Baixar

Arquivos & Anexos

A íntegra do PL 84/2023

Leia o projeto do deputado estadual Danilo Bahiense (PL)
Tamanho do arquivo: 450kb
Baixar
O QUE A "PÍLULA DO CÂNCER" E A CLOROQUINA ENSINAM
Confiar apenas em parlamentares quando se trata de saúde pública é arriscado. Em 2016, o Congresso autorizou o uso da fosfoetanolamina sintética, conhecida como “pílula do câncer”, por pacientes diagnosticados com a doença.
O comprimido, como se sabe, é ineficaz, mas havia um clamor popular. Assim, surgiu a Lei 13.269/2016, que passou por cima da Anvisa.
A Associação Médica Brasileira (AMB) apontou a ausência de testes da substância em seres humanos e recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), que suspendeu os efeitos da lei. Em 2020, o mérito da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 5501) foi julgado e a lei, considerada inconstitucional.
Exemplo mais recente é a cloroquina, que não contou com lei aprovada por deputados federais e senadores, mas ganhou impulso graças ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus auxiliares. O remédio, disponível no SUS para outras doenças, passou a ser prescrito para o tratamento de Covid-19, fim para o qual é ineficaz e pode até prejudicar a saúde do paciente. 
E até médicos, muitos, inclusive, embarcaram na propaganda política, deixando de lado o método e as evidências científicas. Afinal, nem todo médico é apegado a isso.
Em resumo, preconceito e desinformação nunca devem ser levados em conta ao se tomar decisões, principalmente as que impactam a saúde das pessoas. Seja para liberar, seja para proiibir produtos.
O fato de o Conselho Estadual de Saúde apoiar o PL 77/2023 é um sinal de que o texto tem pé e cabeça. Mas, se aprovado e sancionado, outro desafio se impõe: a regulamentação do fornecimento de produtos à base de Cannabis no SUS.
Cenas dos próximos episódios. A não ser que a Assembleia deseje cancelar a temporada. 

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Vídeo mostra homem agarrado ao teto de viatura da PM em Vila Velha
Vídeo mostra homem agarrado ao teto de viatura da PM em Vila Velha
Imagem de destaque
Tarot do dia: previsão para os 12 signos em 22/04/2026 
Imagem de destaque
Maior produtor de camisinhas do mundo pode subir preços em até 30% por causa da guerra no Irã

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados