- R$ 54 milhões em pagamentos indevidos
"O Consórcio Andrade Valladares-Topus, na execução do Contrato de Empreitada nº 012/2013, teria recebido pagamentos por 'eventogramas' – metodologia de medição e pagamentos não prevista no edital nem no contrato celebrado e considerada irregular pela Tomada de Contas Especial realizada pelo Iopes com pagamentos antecipados por serviços/equipamentos não realizados/entregues."
Essa suspeita, mencionada na portaria que instaurou o PAR, é a que foi apontada pela área técnica do Tribunal de Contas em processo que aguarda julgamento na Corte, marcado para o dia 13 de junho.
De acordo com os auditores do TCES, em valores atualizados e corrigidos, o consórcio recebeu R$ 54 milhões antecipadamente e ilegalmente, causando prejuízo aos cofres públicos.
- Serviço prestado sem cobertura contratual
"O Relatório Conclusivo de Auditoria nº 10/2015 da Secont apontou que, após o término da vigência do Contrato nº 066/2010 celebrado com o Iopes (em 11.11.2010), a empresa Concremat Engenharia e Tecnologia S/A teria mantido a prestação do serviço de gerenciamento de obra sem cobertura contratual, até a data de 10.5.2012, o que teria provocado a nulidade dos termos aditivos de prorrogação contratual celebrados extemporaneamente."
Em novembro de 2010, o antigo Instituto de Obras Públicas do Espírito Santo (Iopes), cujas atribuições hoje estão com o DER-ES, assinou contrato com a Concremat para gerenciar as obras de construção do Cais das Artes e de reforma e ampliação do estádio Kleber Andrade.
"A contratação de gerenciamento propicia a utilização de ferramentas modernas que antes só eram utilizadas na iniciativa privada e que, se bem aplicadas, trazem modernidade e eficiência à gestão pública", anunciou o Iopes, na época.
A auditoria da Secont, entretanto, apontou que a empresa seguiu prestando serviços mesmo após o fim do contrato, por meio de aditivos irregulares.
E, como se pode notar pela quantidade de suspeitas quanto às obras do Cais das Artes e do Kleber Andrade, sem contar os atrasos nos trabalhos, a atuação da Concremat não garantiu eficiência à gestão pública.
- Superfaturamento
"O Consórcio Andrade Valladares-Topus teria recebido irregularmente valores relativos a canteiro de obra desproporcionais em relação ao andamento financeiro da obra, incluídos em medição pela gerenciadora, empresa Concremat Engenharia e Tecnologia S/A, que configuraram, em tese, superfaturamento (chegando ao percentual de 9,12% do total contratado), que contemplaram serviços acrescentados posteriormente, já previstos na contratação inicial, e que deveriam ter sido arcados pela contratada"
Isso, que está mencionado na portaria que instaurou o PAR, foi indicado pela área técnica do Tribunal de Contas, em instrução técnica conclusiva que tratou exclusivamente do Kleber Andrade.
- Sobrepreço
"A aplicação de percentual de reajustamento (ao contrato para realização da obra), sem análise técnica demonstrando que refletia o valor de mercado, teria gerado valores com sobrepreço. O TCES condenou as envolvidas a ressarcir os danos causados ao erário"
Esse foi mais um ponto levantado pela área técnica do TCES e que, agora, também está sob avaliação da Secont.
- Pagamentos indevidos e em duplicidade
"O Consórcio Andrade Valladares-Topus teria recebido pagamentos indevidos, por acréscimo de serviços já contemplados na planilha de custo inicial (como serviços de controle tecnológico, segurança da obra, para apoio à execução de estruturas metálicas, tanque de irrigação para a obra, locação de gerador de energia – este sem nem comprovação da necessidade), e por valores em duplicidade por serviço prestado, incluídos na medição pela gerenciadora, empresa Concremat Engenharia e Tecnologia S/A"
A portaria que instaurou o PAR, mais uma vez, considerou o que foi apresentado pela área técnica do TCES em processo sobre o Kleber Andrade: serviços já contemplados na planilha de custo inicial foram, depois, acrescentados, como se fossem coisa nova. E o consórcio recebeu a mais por isso, com a anuência da empresa fiscalizadora do contrato.
FRAUDE E MANIPULAÇÃO
Início de um sonho / Deu tudo errado
As histórias da obra do Cais das Artes, um complexo cultural que reuniria museu, teatro e espaço para exposições, em Vitória, e do estádio Kleber Andrade, em Cariacica, começaram em 2010.
Em abril daquele ano, a empresa Santa Bárbara Construções e Incorporações Ltda, “que soma 40 anos de história e mais de mil obras espalhadas pelo país”, destacou, na época, a Secretaria Estadual de Cultura, começou a erguer a estrutura gigante que marcaria a paisagem da Enseada do Suá, na Capital.
Os trabalhos deveriam custar R$ 115,5 milhões e durar 18 meses. Era o último ano do governo Paulo Hartung (MDB) e a coordenadora do projeto era a então primeira-dama Cristina Gomes. O diretor-geral do Instituto de Obras Públicas do Espírito Santo na época, Pedro Firme, falava em “marco na arquitetura capixaba”, “metodologias construtivas diferenciadas” e “know-how em obras de grande porte”.
Em dezembro de 2010, Hartung, Cristina e o então senador Renato Casagrande (PSB) – eles eram aliados – visitaram o canteiro. Pelo cronograma, a obra deveria ter sido entregue no segundo semestre de 2011. Mas a Santa Bárbara, à beira da falência, não cumpriu o combinado. O contrato foi rescindido pelo Iopes em junho de 2012, no governo Renato Casagrande (PSB).
Já em Cariacica, a Empresa Blokos Engenharia Ltda deveria realizar as obras do estádio Kleber Andrade entre abril de 2010 e abril de 2012. Em meio a greves de trabalhadores e outros percalços, ela também não cumpriu o contrato. Em junho de 2012, o acordo foi rescindido pelo Iopes.
Além das empresas executoras, no Cais das Artes e no Kleber Andrade havia uma só para gerenciar e fiscalizar. Em novembro de 2010, a Concremat Engenharia assinou a parceria com o Iopes.
“A empresa terá o compromisso de gerenciar de forma eficiente as duas importantes obras, alocando e dirigindo recursos humanos, financeiros e técnicos para execução dos serviços dentro do prazo, custo e qualidades estabelecidos pelo governo do estado. A empresa vai gerenciar tanto elementos isolados das construções como o empreendimento como um todo”, divulgou o instituto.
De nada adiantou.
O consórcio Andrade Valladares-Topus, que havia ficado em segundo lugar na licitação, assumiu a obra do Kleber Andrade após a saída da Blokos. O contrato foi assinado pelo consórcio com o Iopes em julho de 2012.
Já para o Cais das Artes foi aberto novo processo de licitação. E o consórcio Andrade Valladares-Topus Cais das Artes venceu. A assinatura do contrato ocorreu em maio de 2013, com prazo de 18 meses para a conclusão da obra.
Assim, o consórcio, como executor, e a Concremat, como gerenciadora, passaram a tomar conta dos dois empreendimentos.
Desde julho de 2015, a obra do Cais das Artes está parada.
Há uma disputa judicial entre o governo do Espírito Santo e o Andrade Valladares-Topus. O processo está suspenso, em busca de acordo entre as partes. Acordo esse que nunca sai. Enquanto isso, materiais se deterioram no canteiro abandonado.
O Kleber Andrade, por sua vez, foi parcialmente entregue pelo consórcio em junho de 2014 e reinaugurado em dezembro daquele ano. Mas não estava, realmente, pronto.
Em março de 2015, o governo anunciou o término e a não renovação do contrato e informou que realizaria um inventário das obras pendentes antes de definir sobre nova licitação.
Foi somente em 2019 que isso ocorreu. A Deck Construtora e Incorporadora Ltda venceu. O Kleber Andrade foi entregue, de novo, no final de 2020.