Câmara de Vitória: Leandro Piquet, o cheque e o ônus
Mudança
Câmara de Vitória: Leandro Piquet, o cheque e o ônus
Presidente do Legislativo municipal quer mudar a sede do Poder de endereço e afirma que devolveu dinheiro à prefeitura. Esta história, entretanto, tem várias camadas
Publicado em 06 de Outubro de 2023 às 02:10
Públicado em
06 out 2023 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Leandro Piquet, presidente da Câmara de Vitória, concede entrevista coletivaCrédito: Câmara de Vitória/Divulgação
Os três prédios em que a Câmara de Vitória funciona, na Avenida Beira-Mar, já não comportam as necessidades do Legislativo municipal e o atendimento à população. O que abriga o plenário até apresenta riscos. Com esse argumento, o presidente da Casa, Leandro Piquet (Republicanos), quer mudar o endereço da sede do Poder. A solução encontrada é deixar o espaço, que é da prefeitura, e alugar um prédio.
A decisão é de Piquet e não do conjunto de vereadores.
Em entrevista coletiva concedida nesta quarta-feira (4), ele frisou que pretende evitar, no futuro, ser acusado de omissão, uma vez que tem em mãos um relatório técnico elaborado pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES) que conclui haver "diversas anomalias" e até "perigo de vida para os transeuntes, colaboradores e frequentadores da CMV".
Piquet chegou a fazer alusão à Boate Kiss. O estabelecimento, localizado no Rio Grande do Sul, sofreu um incêndio em 2013, no qual morreram 242 pessoas.
Obviamente, ninguém quer que a Câmara de Vitória vire palco de uma tragédia. O plenário, forrado com carpetes, no chão, e com plástico, no teto, tem apenas uma porta de entrada e saída e nenhuma emergencial. (Veja vídeo no final deste texto)
Como o prédio é tombado pelo patrimônio histórico, uma reforma drástica não pode ser feita, é preciso preservar o projeto original. E o edifício não foi construído com a finalidade de ser a sede do Poder Legislativo.
Esses são os fatos, mas há mais camadas nesta história.
Arquivos & Anexos
A íntegra do relatório do CREA sobre a Câmara de Vitória
Conselho Regional de Engenharia apontou "anomalias" e riscos nos prédios que são sede do Legislativo municipal
A Câmara da Capital consome menos recursos do que poderia, algo sempre lembrado pelos vereadores. É verdade.
A Constituição Federal estabelece que, em municípios com população entre 300 mil e 500 mil habitantes, a despesa do Legislativo é limitada a 5% do "somatório da receita tributária e das transferências" realizadas no exercício anterior. A referência é à receita da prefeitura.
A Casa comandada por Piquet vai ter um orçamento equivalente a 2,37% desse somatório em 2024 (R$ 43,7 milhões). Ou seja, abaixo dos 5% (que equivaleriam a cerca de R$ 100 milhões).
Em que pese isso, falar em aumento de gasto no Legislativo é uma pauta negativa. O parlamento, via de regra, não tem uma imagem muito positiva. Ainda mais os parlamentares municipais. Há quem questione até a necessidade da existência de vereadores.
Também vai haver reajuste salarial. O subsídio dos edis vai passar, em 2025, de R$ 8,9 mil para R$ 17,6 mil.
Tudo foi feito sob a alegação de que as medidas não representariam mais gastos. Bastaria a Câmara remanejar o orçamento do qual já dispõe.
Ora, o orçamento de 2024 do Legislativo municipal, que não inclui, obviamente, os novos 6 vereadores e até 90 servidores que vão chegar em 2025, já é 7% maior que o de 2023.
A iniciativa de Piquet de levar a Câmara para um prédio alugado, portanto, vem na esteira dessas outras duas medidas impopulares. Ressalte-se que o presidente votou contra o aumento de vagas de parlamentares na Casa.
O republicano afirmou que mesmo se mantido o número de vereadores (15) seria preciso deixar a sede do Legislativo municipal, uma vez que o relatório do CREA-ES trata da situação atual.
Mas é impossível não relacionar o incremento das cadeiras e de cargos comissionados com a necessidade de mudança de endereço.
E, assim, temos mais uma medida impopular. Piquet sabe disso, mas decidiu assumir o ônus político da iniciativa.
O CHEQUE
O prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, e o presidente da Câmara de Vitória, Leandro PiquetCrédito: Instagram/@delegadopiquet
Antes, porém, tentou cercar-se de algum bônus, também politicamente falando.
Como já explicitado neste texto, de acordo com o limite imposto pela Constituição Federal, o orçamento da Câmara de Vitória para 2024 poderia ser de cerca de R$ 100 milhões.
O orçamento elaborado por Piquet e enviado à Prefeitura de Vitória, contudo, foi de R$ 47,3 milhões. A diferença é de aproximadamente R$ 52 milhões.
Eis que, dias antes da entrevista coletiva em que anunciou que a Câmara vai fazer uma chamada pública em busca de um imóvel para alugar, o presidente da Casa apareceu ao lado do prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) e entregou a ele um cheque fictício de R$ 52 milhões.
Piquet chamou isso de "devolução". "Esse é o jeito Republicano de fazer política: com responsabilidade, controle os gastos públicos e atenção e cuidado à população", escreveu o vereador, no Instagram. A legenda ilustra o vídeo do "checão".
Na prática, o presidente da Câmara não devolveu nada. Isso é impossível, já que a Casa não chegou a receber os R$ 52 milhões.
E a Constituição estabelece um limite de gastos, o que é diferente de impor um padrão de despesa. Não necessariamente o orçamento da Câmara de Vitória seria de R$ 100 milhões, mesmo sem, digamos, o desprendimento de Piquet.
Para se ter uma ideia, no ano passado, na transição entre as presidências de Davi Esmael (PSD) e Armandinho Fontoura (na época, filiado ao Podemos), o Executivo municipal recebeu a proposta de orçamento do Legislativo para 2023 no valor de R$ 76 milhões, 137% a mais do orçado para 2022.
Mas a foto e o vídeo protagonizados por Piquet, Pazolini e o cheque gigante têm mais um significado político que financeiro, ou matemático.
Mostram a preparação do terreno para o anúncio sobre a mudança de sede e a harmonia entre o prefeito e o presidente da Câmara, que, num passado recente, não estavam tão alinhados.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.