Casagrande decreta o fim da pauta ideológica, mas bolsonaristas têm outra ideia
Empossado
Casagrande decreta o fim da pauta ideológica, mas bolsonaristas têm outra ideia
Governador reeleito do ES pregou união e afirmou que a posse dele e de Lula fizeram do domingo (1°) "o dia da democracia brasileira"
Publicado em 01 de Janeiro de 2023 às 19:32
Públicado em
01 jan 2023 às 19:32
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Renato Casagrande chega ao Palácio Anchieta, já empossado, e toca casaca com integrantes de banda de congo. A primeira-dama Virgínia Casagrande bate palmas ao lado do governadorCrédito: Carlos Alberto Silva
Enquanto o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), subia a rampa do Palácio do Planalto e o governador reeleito Renato Casagrande (PSB) tomava posse no Palácio Anchieta, o acampamento bolsonarista em frente ao quartel do 38º Batalhão de Infantaria do Exército persistia, ainda que esvaziado.
As barracas postadas na Prainha, em Vila Velha, são um lembrete de que as solenidades de posse, normalmente protocolares, ganharam mais importância.
São marcos democráticos frente àqueles que pedem que as Forças Armadas deem um golpe, o que, obviamente, é ilegal, além de brega.
Casagrande, em discurso na Assembleia Legislativa, onde assinou o termo de posse, afirmou que “temos que olhar pra frente”.
“Chegou ao fim o debate ideológico puro e simples”, decretou. A bem da verdade, o governador foi pragmático, apesar de fiel ao próprio partido. Nunca partiu dele a ideologização do debate. Foi flexível até ao ponto de incentivar o voto CasaNaro.
Na solenidade, estavam presentes chefes de Poderes e instituições, como o presidente da Assembleia, Erick Musso (Republicanos), e a procuradora-geral de Justiça do Ministério Público Estadual, Luciana Andrade.
Aliás, o comandante do 38º BI, tenente-coronel Rodrigo Penalva de Oliveira, também estava lá, em posição de destaque.
“As instituições brasileiras e capixabas passaram pelo maior teste e sobreviveram, ficaram de pé. Hoje é um exemplo da solidez dessas instituições”, discursou o governador, lembrando das posses de Lula e governadores pelo país.
“As instituições prevaleceram. Isso precisa ser aplaudido”, pontuou.
A Polícia Militar monitorou possíveis manifestações ilegais, que pudessem tentar atrapalhar a posse. Mas tudo ocorreu com tranquilidade. Nenhum ato contrário ao resultado das urnas.
O entorno da Assembleia e o do Palácio estava no clima de feriado, como o restante da cidade.
O governador falou mais de uma vez, em discursos nos dois locais, que “a eleição acabou”.
“Foi a eleição mais dura que eu participei. E já participei de muita eleição, sou igual Matusalém. Mas a vitória foi gostosa (aplausos da plateia). Só que a eleição acabou. Sou governador de todo mundo, de quem votou em mim e de quem não votou em mim”, ressaltou, no Salão São Tiago, na sede do Poder Executivo.
Ou seja, mais um sinal de “olhar para frente” e, mais ainda, de união.
O secretariado que assumiu neste domingo é formado por nomes de centro-esquerda e centro-direita. Até bolsonaristas estão no primeiro escalão, assim como o PT de Lula.
“Faremos um governo amplo. Ninguém vai ser questionado ou avaliado pelo que pensa e sim pelo desempenho na sua função”, avisou o socialista.
“Mas fulano lá trás não sei o que… A gente tem que juntar as pessoas num projeto de interesse desse estado”, frisou o governador.
“O dia de hoje é o dia da democracia brasileira”, celebrou.
HORIZONTE
A disputa ideológica pode arrefecer devido à saída de Jair Bolsonaro (PL) do poder central, mas certamente não acabou.
Pessoas que se prestam a acreditar em “fatos alternativos”, como a inverídica fraude nas urnas e a pedir “SOS FFAA” ainda estão por aí.
O mesmo vale para os políticos que tentam, por vezes de forma teatral, agradar a esse público.
A título de exemplo, a maior bancada da Assembleia a partir de fevereiro vai ser a do PL, com cinco deputados.
Os aliados de Casagrande ainda vão ser a maioria na Casa, composta, ao todo, por 30 parlamentares.
Mas a oposição promete ser mais barulhenta do que foi até agora. Ao bolsonarismo não interessa a união e tampouco que pautas ideológicas sejam deixadas de lado.
O horizonte em direção ao qual Casagrande navega, portanto, pode guardar turbulências.
Ao entrar no Palácio Anchieta neste domingo para assinar o compromisso de recondução ao cargo, o governador ouviu a cantora Elaine Vieira entoar:
Quero os horizontes novos/ Que ele vai me ofertar/ Sou irmão dos outros povos / Que estão para além do mar (Vela Aberta, canção de Walter Franco)
Além do desafio político, há o social. O próprio Casagrande lembrou que o governo estadual precisa fazer mais para garantir educação e oportunidades iguais para todas as crianças e para reduzir desigualdades, frente ao número de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza.
Em outro momento da cerimônia, Elaine Vieira também cantou, acompanhada por músicos da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo:
E ecoa noite e dia / É ensurdecedor / Ai, mas que agonia / O canto do trabalhador (O Canto das Três Raças, de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro)
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.