Casagrande e a "escolha óbvia" para o Ministério Público do ES
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Casagrande e a "escolha óbvia" para o Ministério Público do ES
Promotores e procuradores de Justiça elegeram três nomes e governador escolheu um deles para comandar a instituição. Veja os bastidores da decisão e o que pode acontecer a partir de agora
Publicado em 02 de Abril de 2024 às 03:10
Públicado em
02 abr 2024 às 03:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
O promotor de Justiça Francisco Berdeal e o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), na última quinta-feira (28)Crédito: Reprodução/Twitter
No páreo, também estavam os promotores Pedro Ivo de Sousa, o mais votado, e Maria Clara Mendonça Perim. Na prática, a soma dos votos dos dois, que fazem oposição à atual gestão, mas são de grupos diferentes, superou os destinados a Berdeal. Este, por sua vez, foi apoiado pela atual procuradora-geral, Luciana Andrade, era o candidato da situação.
Isso quer dizer que o novo chefe do MPES vai começar a gestão sabendo que a maior parte dos promotores e procuradores de Justiça, se tivesse a palavra final, preferiria um nome diferente do dele e, mais que isso, que não representasse a continuidade da administração.
O mesmo grupo comandava o MPES havia, ao menos, 12 anos. Em 2024, entretanto, houve uma divisão. O ex-procurador-geral de Justiça Eder Pontes, hoje desembargador do Tribunal de Justiça (TJES), endossou, nos bastidores, o nome do promotor Danilo Raposo na corrida, enquanto Luciana Andrade apoiou Berdeal.
Raposo ficou em quinto lugar, nem chegou, portanto, a compor a lista de três nomes apresentada ao governador para a escolha.
Isso livrou Casagrande de ter que optar entre o aliado do antigo procurador-geral e o da atual. Mas por que optou por Berdeal?
O chefe do Executivo já havia avisado que, não necessariamente, escolheria o mais votado da lista tríplice. Tradicionalmente, essa é uma saída política simples, já que o governador pode justificar a decisão tendo como base a vontade da maioria dos promotores e procuradores.
Um casagrandista avaliou à coluna que o governador fez "a escolha óbvia": "Embora tenha se dividido (antes da eleição da lista tríplice), o mesmo grupo comanda o Ministério Público há 12 anos. Isso dá estabilidade à instituição. O governador já tinha uma tendência forte a optar por alguém desse grupo. Franscisco Berdeal é um caminho conhecido, seguro".
Antes de revelar a decisão, o governador ouviu os três candidatos. Conforme a coluna apurou, também conversou, na própria quinta-feira, com o deputado estadual Tyago Hoffmann (PSB), dileto aliado e pré-candidato a prefeito de Vitória.
AS CARTAS NA MANGA
Eder Pontes foi escolhido procurador-geral, em 2012, por Casagrande e, depois, reconduzido por Paulo Hartung. Luciana Andrade é considerada ainda mais próxima do governador que o antecessor. Nas entrelinhas, por isso, a escolha por Berdeal seria "óbvia".
Não que houvesse algum senão em relação aos outros candidatos que os inviabilizasse. Pedro Ivo faz oposição a Andrade, não ao governo estadual. O irmão dele, o ex-deputado Sandro Locutor, aliás, é subsecretário para Relações Institucionais na Casa Civil.
"Ele (Pedro Ivo) tem, pessoalmente, uma relação boa com o governo", contou um aliado de Casagrande.
O promotor, contudo, dentro e fora do MPES, alinha-se a políticos mais "de direita", apesar de rechaçar o rótulo de bolsonarista.
Já Maria Clara Mendonça Perim também concorreu como opositora à gestão de Luciana Andrade, mas é mais moderada, uma pessoa de centro-esquerda.
Ficou em terceiro lugar na votação para a lista tríplice, mas articulou-se externamente e conseguiu apoios relevantes, como o do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, que até tratou do assunto com o governador.
"Todos os três tinham chance, mas havia todos os motivos para o Ministério Público permanecer no caminho atual", afirmou um palaciano, nesta segunda-feira (1º).
A maior parte dos membros do MPES, como já registrado aqui, porém, discorda. Pedro Ivo recebeu 146 votos, apenas 14 a mais que Berdeal (132), mas Maria Clara Mendonça Perim recebeu outros 97. Somando os números dos dois opositores, são 243 votos contra a continuidade da atual gestão.
O processo de escolha do procurador ou procuradora-geral de Justiça é determinado pela Constituição Estadual, à semelhança da Constituição Federal. E estabelece que a primeira etapa, a eleição dos três nomes, cabe à própria categoria, o que tem prós e contras.
Mas, enfim, as coisas são como são. O fato é que a vitória de Berdeal foi também a vitória de Luciana Andrade. O promotor vai comandar o MPES pelos próximos dois anos com o desafio de tentar unir os colegas.
Ele deve convidar Andrade para integrar a administração superior, como subprocuradora-geral, mas, de acordo com uma pessoa próxima à promotora, ela pode passar a ocupar alguma função em Brasília, no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), talvez.
O grupo que apostou em Danilo Raposo sai enfraquecido.
Maria Clara Mendonça Perim, uma espécie de terceira via entre o primeiro e o segundo colocados na lista tríplice, sai prestigiada pelo apoio angariado em tribunais superiores e setores da sociedade. Ela segue na Promotoria de Justiça Cível da Serra.
Quem é ele
Francisco Martínez Berdeal tem 50 anos. É promotor de Justiça desde 2003. Formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e especialista em Direito Processual Civil pela FDV, tem MBA em Gestão Estratégica de Pessoas pela FGV/MMurad.
É o atual secretário-geral do gabinete da PGJ e o 4º Promotor de Justiça Cível de Vitória. Tem 17 anos de atuação nas promotorias de 14 municípios do interior e Grande Vitória e 12 anos de experiência na gestão do MPES. Foi ainda coordenador do Centro de Apoio Operacional Eleitoral/CAEL, do Núcleo de Autocomposição de Conflitos do MPES e do Centro de Apoio Operacional de Defesa do Patrimônio Público
Correção
02/04/2024 - 7:22
Inicialmente, escrevi aqui que o promotor Danilo Raposo ficou em sexto lugar na eleição da lista tríplice. Na verdade, ele ficou em quinto. A informação foi corrigida.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.