Casagrande sobre tarifaço de Trump: "Não podemos ter uma ditadura mundial"
Taxa de 50%
Casagrande sobre tarifaço de Trump: "Não podemos ter uma ditadura mundial"
Governador do ES criticou medida anunciada por presidente dos EUA que prejudica empresários capixabas. Veja o que ele disse e a análise da coluna sobre os efeitos políticos desta história
Publicado em 10 de Julho de 2025 às 15:44
Públicado em
10 jul 2025 às 15:44
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
O vice-governador Ricardo Ferraço, o governador Renato Casagrande e o secretário estadual de Desenvolvimento Sérgio Vidigal durante coletiva de imprensa no Palácio AnchietaCrédito: Rodrigo Zaca/Governo ES
Além de repreender as motivações ideológicas do líder americano na condução da política econômica, o governador do Espírito Santo avaliou os argumentos dos opositores do governo federal, que culpam o presidente Lula (PT) pelas ações de Trump.
O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, afirmou que o petista "atacou com palavras o presidente da maior economia do planeta" e "declarou apoio à opositora do então candidato Trump (Kamala Harris)".
A tarifa que vai atingir a produção e os produtores brasileiros, para o senador, portanto, é uma reação à postura de Lula.
"Se o Lula errou ou não, cada um faz a sua avaliação, se errou ao apoiar uma candidatura à presidência de outro país. Mas não é legítimo o argumento (usado por Ciro Nogueira) porque não podemos ter uma ditadura mundial, um pensamento único mundial", afirmou Casagrande, ao ser questionado pela coluna durante coletiva de imprensa no Palácio Anchieta.
"Você pode ter pensamentos distintos, desde que isso não afete as relações econômicas e diplomáticas. Você pode ter uma opinião política sobre um país, mas não misturar essa opinião política com suas relações comerciais e com a cultura das relações diplomáticas. Esse não é um argumento que fique de pé".
O PSB de Casagrande integra o governo Lula. Contraditoriamente, o PP, presidido nacionalmente por Ciro Nogueira, também.
É verdade que Trump usou argumentos apenas políticos e ideológicos ao anunciar o tarifaço e não técnicos ou econômicos.
A carta que o presidente americano enviou a Lula, com afagos ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) desde o primeiro parágrafo, não deixa margem a dúvidas.
Além disso, ao contrário do que diz a missiva, os Estados Unidos não sofrem "déficits comerciais insustentáveis" na relação com o Brasil. A balança pende a favor dos americanos.
O texto, com vocabulário limitado e algumas palavras grafadas inteiramente em letras maiúsculas, parece ter sido escrito por um tuiteiro, não por um chefe de Estado.
E é nas redes sociais também que uma batalha é travada.
Há os que, como Ciro Nogueira, usam o tarifaço para fustigar o governo federal.
A gestão Lula anda mal das pernas mesmo e um revés nas exportações só pioraria as coisas.
Politicamente falando, entretanto, o apoio de brasileiros a uma medida irracional e prejudicial ao próprio país pode ser um tiro no pé.
Eleitores de centro e moderados vão notar a contradição evidente que é se dizer "patriota" e, ao mesmo tempo, defender prioritariamente interesses e vontades de um país estrangeiro.
Do ponto de vista dos valores democráticos e republicanos, é grave a imposição de tarifas econômicas para tentar influenciar as ações administrativas e judiciais de outro país.
Nem todo mundo se importa com valores democráticos e republicanos, mas há algo bem mais prático e imediato em jogo.
Por mais bolsonarista ou trumpista que um empresário brasileiro seja, não vai querer perder dinheiro.
Curtir posts contra Lula e fazer vista grossa sobre os argumentos pífios de Trump não resolve o problema.
Políticos que flertam com o agronegócio, o setor de rochas e o siderúrgico, importantes para a economia do Espírito Santo, vão certamente ouvir apelos em busca de soluções.
Mas como impedir o tarifaço?
Lula não pode interferir em decisões do Supremo Tribunal Federal para beneficiar Bolsonaro, como bizarramente quer o presidente dos Estados Unidos.
O Congresso Nacional, composto por vários "patriotas" simpatizantes do país da América do Norte até poderia facilitar, ou ao menos não complicar, a vida das "plataformas de mídias sociais dos Estados Unidos", também mencionadas na carta de Trump.
Deputados e senadores poderiam, por exemplo, não regular as big techs ou estabelecer um nível máximo de liberdade para a atuação das empresas estrangeiras no Brasil. Mas isso ocorreria por meio de um longo processo legislativo, com regras ditadas pela Constituição Federal, não por Trump.
Tudo isso considerado, a parcela da população que não é lulista mas tampouco bolsonarista pode até desenvolver uma inesperada simpatia por Lula, no momento em que o presidente defende o "Brasil soberano".
Não creio que seja a "salvação da lavoura" do petista, que está mal na foto nas pesquisas de opinião e frequentemente atravessa a rua para escorregar em casca de banana.
Mas a iminente "perda da safra" do agronegócio, setor muito ligado ao bolsonarismo, tem poder.
E AGORA, JOSÉ RENATO?
Donald Trump não é conhecido pela coerência e ou por manter a palavra. Então não vai ser surpresa se, ao fim e ao cabo, a taxa de 50% sobre produtos brasileiros não for aplicada.
Até porque a medida pode causar danos à economia dos Estados Unidos também. Encarecer produtos e matérias-primas tem reflexos na inflação.
Enquanto isso, na coletiva de imprensa, o governador José Renato Casagrande defendeu que o governo Lula não aplique, ao menos por enquanto, uma tarifa de igual percentual contra as importações de produtos americanos.
"Estou sugerindo que, neste momento, é melhor o governo (Lula) ter paciência. A reciprocidade é normal, mas é um instrumento que pode ou não ser utilizado. Talvez precisemos usar, mas não entrar agora na guerra tarifária, que é o que Trump quer, é o melhor", afirmou o socialista.
"É preciso ouvir o setor produtivo", frisou Casagrande, que já manteve contato com empresários do Espírito Santo.
Governadores não podem ditar a política econômica externa do Brasil, apenas opinar.
Na sexta-feira (11), Lula tem visita marcada ao Espírito Santo, em Linhares. Casagrande pretende tratar do assunto com o petista na ocasião.
Embora não exerça nenhuma função no governo brasileiro nem no Congresso, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que decidiu se mudar para os Estados Unidos, tem sido apontado como um dos articuladores do tarifaço e da carta de Trump.
Obviamente, a lógica dele é que a medida é contra o governo Lula e a favor do ex-presidente. O "detalhe" é que, na verdade, prejudica todo mundo, inclusive os eleitores e empresários bolsonaristas.
Não posso atestar a influência que Eduardo Bolsonaro tem sobre Trump, mas se for real, sugiro que os pedidos de solução para a questão sejam endereçados ao parlamentar.
A íntegra da carta de Trump a Lula
Eu conheci e lidei com o ex-presidente Jair Bolsonaro e o respeitei muito, assim como a maioria dos outros líderes de países. A maneira como o Brasil tratou o ex-presidente Bolsonaro, um líder altamente respeitado em todo o mundo durante seu mandato, inclusive pelos Estados Unidos, é uma vergonha internacional. Esse julgamento não deveria estar ocorrendo. É uma caça às bruxas que deve terminar IMEDIATAMENTE!
Devido, em parte, aos ataques do Brasil às eleições livres e aos direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos (conforme ilustrado recentemente pela Suprema Corte do Brasil, que emitiu centenas de ordens de censura SECRETAS e INJUSTAS para plataformas de mídia social dos EUA, ameaçando-as com multas de milhões de dólares e expulsão do mercado de mídia social brasileiro), a partir de 1º de agosto de 2025, cobraremos uma tarifa de 50% sobre todo e qualquer produto brasileiro enviado para os Estados Unidos, além de todas as tarifas setoriais.
Os produtos transbordados para burlar essa tarifa de 50% estarão sujeitos a essa tarifa mais alta.
Além disso, tivemos anos para discutir nossa relação comercial com o Brasil e concluímos que devemos nos afastar da relação comercial de longa data e muito injusta, gerada pelas políticas tarifárias e não tarifárias do Brasil e pelas barreiras comerciais. Nosso relacionamento, infelizmente, está longe de ser recíproco.
Por favor, entenda que o número de 50% é muito menor do que o necessário para ter o campo de jogo nivelado que precisamos ter com seu país. E é necessário que isso aconteça para corrigir as graves injustiças do regime atual. Como é de seu conhecimento, não haverá nenhuma tarifa se o Brasil ou empresas de seu país decidirem construir ou fabricar produtos nos Estados Unidos e, na verdade, faremos todo o possível para obter aprovações de forma rápida, profissional e rotineira - em outras palavras, em questão de semanas.
Se, por qualquer motivo, você decidir aumentar suas tarifas, qualquer que seja o número escolhido para aumentá-las, ele será adicionado aos 50% que cobramos. Entenda que essas tarifas são necessárias para corrigir os muitos anos de políticas tarifárias e não tarifárias do Brasil e as barreiras comerciais que causam esses déficits comerciais insustentáveis contra os Estados Unidos.
Esse déficit é uma grande ameaça à nossa economia e, de fato, à nossa segurança nacional! Além disso, devido aos contínuos ataques do Brasil às atividades de comércio digital das empresas americanas, bem como a outras práticas comerciais injustas, estou instruindo o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, a iniciar imediatamente uma investigação do Brasil nos termos da Seção 301.
Se desejar abrir seus mercados comerciais até então fechados para os Estados Unidos e eliminar suas políticas tarifárias e não tarifárias e barreiras comerciais, talvez possamos considerar um adendo a esta carta. Essas tarifas podem ser modificadas, para cima ou para baixo, dependendo de nosso relacionamento com seu país. Você nunca ficará desapontado com os Estados Unidos da América.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.