Clima de barata-voa na eleição para o comando da Assembleia do ES
Legislativo estadual
Clima de barata-voa na eleição para o comando da Assembleia do ES
Blocão que congregava a maior parte dos 30 nomes que vão compor a Casa a partir de fevereiro está dividido e outro grupo já surgiu
Publicado em 18 de Janeiro de 2023 às 02:10
Públicado em
18 jan 2023 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Sede da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, em VitóriaCrédito: Carlos Alberto Silva
A menos de 15 dias da eleição da Mesa Diretora que vai comandar a Assembleia Legislativa do Espírito Santo – a votação vai ocorrer no dia 1º de fevereiro –, o clima é de barata-voa entre os nomes que vão compor a Casa.
A posse dos deputados eleitos e reeleitos está marcada para a mesma data. De manhã, a solenidade que vai lhes conferir os mandatos. À tarde, a formalização da definição de quem vai ser presidente, vice-presidente, secretário e demais cargos da Mesa.
Há tempos um blocão foi formado, com mais de 20 participantes. Entre eles, quase todos os cotados para lançar candidatura à presidência do Legislativo estadual: Tyago Hoffmann (PSB), Dary Pagung (PSB), João Coser (PT) e Vandinho Leite (PSDB). Apenas Marcelo Santos (Podemos) estava de fora.
Com o passar do tempo, Hoffmann e Vandinho fortaleceram-se na disputa. Aliados do tucano, nos bastidores, chegaram a dar como certo que o nome dele seria consenso.
Nesta terça-feira (17), um deputado próximo a Vandinho disse à coluna que ele contaria com 18 votos. Para se eleger uma chapa, bastam 16, a maioria absoluta do plenário.
Mas nem tudo são flores. Aliás, neste verão quente, a primavera está passando longe. Na segunda-feira (16) deputados ouviram Hoffmann dizer que deixaria o bloco.
A insatisfação do socialista, de acordo com alguns dos futuros colegas dele na Casa, é com a prevalência de nomes da oposição ao governo Renato Casagrande (PSB) no grupo.
Hoffmann foi eleito para iniciar seu primeiro mandato na Assembleia. Ele foi comandou a Secretaria da Ciência, Tecnologia, Inovação, Educação Profissional e Desenvolvimento Econômico (Sectides), como um supersecretário da gestão estadual, até março, quando deixou o cargo para disputar as eleições.
"Mas ele sempre soube que o bloco contaria com pessoas da oposição. Ele e outros deputados (entre eleitos e reeleitos) foram até à casa de pessoas da oposição para pegar assinaturas para a formação do bloco", diz um parlamentar que é mais próximo a Vandinho.
Pablo Muribeca (Patriota), vereador da Serra que, a partir de fevereiro, vai ser deputado estadual, contou à coluna nesta terça que o blocão não apenas ruiu como outro já foi criado.
Muribeca era um dos integrantes do grupo que surgiu primeiro, mas já assinou outro papel para se juntar à nova configuração de forças.
"Eu estou no novo bloco, formado hoje (terça) e liderado por Dary. O bloco anterior tinha muita restrição a deputados da base (do governo)", afirmou.
De acordo com Muribeca, Dary encabeça o bloco devido ao fato de ser líder do governo, mas isso não quer dizer que vá ser o nome de consenso para presidir a Assembleia. Marcelo Santos e Hoffmann, ainda segundo o vereador da Serra, também são signatários do novo grupo.
Enquanto isso, um aliado de Vandinho esperava que Dary firmasse um acordo com o tucano.
Hoffmann, Coser, Dary, Vandinho e Marcelo estão fechados em copas. Não atenderam a coluna nesta terça. Certamente, têm muitos nós a desatar.
Pelas contas de Pablo Muribeca, o novo bloco já tem 13 integrantes. Isso quer dizer que vários chancelaram o primeiro grupo e agora mudaram de ideia.
Poderia ser desconfiança em relação a Vandinho, que já foi oposição a Casagrande?
Um integrante do próprio governo minimiza o risco de o tucano voltar aos tempos em que chegou a fazer uma "visita surpresa" ao Hospital Dório Silva no auge da pandemia de Covid-19 logo após o então presidente Jair Bolsonaro (PL) exortar simpatizantes que invadissem unidades de saúde para "provar" que não havia pacientes internados com a doença lá. Só para constar: havia, sim.
"O PSDB, que o Vandinho preside no Espírito Santo, está na base do governo. O PSDB tem o vice-governador (Ricardo Ferraço). Então o momento é outro", avaliou um integrante do segundo escalão casagrandista.
Pablo Muribeca diz que a situação dos governistas no bloco em que Vandinho ganhava cada vez mais força, entretanto, não era das melhores.
"O bloco criado prestigiou a oposição e não prestigiou a base do governo. Tanto que teve deputado da base que nem entrou (Marcelo Santos, Janete de Sá, entre outros). O Dary mesmo assinou por último", exemplificou.
Ele diz, meio em tom de brincadeira e meio a sério, que "Vandinho é mau" e barrou Marcelo no primeiro bloco.
"Então eu pedi que esse novo bloco não tenha restrição a ninguém. E não vai ter. Pode vir deputado de oposição, governista, de esquerda, de direita", afirmou o deputado estadual eleito.
E o governo em meio a isso tudo? Casagrande, sempre que questionado, diz que não vai se intrometer em um assunto que diz respeito, precipuamente, à Assembleia.
Mas já começou a conversar com os parlamentares. À reportagem de A Gazeta, o governador afirmou que pretende apenas ouvi-los, sem interferir no voto de cada um.
O chefe do Executivo estadual externou que, obviamente, deseja que o escolhido seja alguém que mantenha a boa relação entre o Palácio Anchieta e o Legislativo. E que haja uma chapa de consenso. Trata-se, portanto, de um perfil, não de um nome específico.
Difícil crer, porém, que Dary Pagung, líder do governo na Assembleia na atual legislatura, faria alguma movimentação sem as bênçãos do governador.
E PODE HAVER DOIS BLOCOS?
Como já mencionado, alguns deputados eleitos e reeleitos concordaram em fazer parte de um único bloco. Só que, segundo Pablo Muribeca, já há um racha que resultou na formação de mais um bloco, com sobreposição de assinaturas em um e outro.
Isso tem gerado ruído – mais barata-voa – entre os signatários. Mas a coisa é mais simples do que parece.
Ocorre que, oficialmente, não há bloco algum. O protocolo no sistema da Assembleia pode ser feito apenas no dia 1º de fevereiro, quando começa a nova legislatura.
Além do mais, os deputados também vão tomar posse no dia 1º. Diversos deles nem têm mandato. Dos 30 que vão compor a Casa a partir do mês que vem, 16 são novatos. Logo, como poderiam assumir posições oficiais na Casa desde já?
O que existe, portanto, é um "combinado", um acordo. E acordos podem ser desfeitos conforme as circunstâncias.
Se dois blocos forem protocolados, aí sim, um deputado não pode ficar nos dois ao mesmo tempo. Teria que escolher. E depois de deixar o grupo, não poderia criar outro.
Outra questão é que não é necessário formar um blocão com a ampla maioria dos deputados para se registrar uma chapa na disputa pela Mesa Diretora. Basta ter o apoio de um partido que integre a Casa.
Já o bloco deve ter no mínimo três deputados de dois partidos diferentes e serve para definir quem vai ocupar espaços nas comissões temáticas da Casa (Constituição e Justiça, Educação, Saúde...). Mas, politicamente, é uma demonstração de força.
Tradicionalmente, forma-se o blocão para dividir as comissões e desse mesmo grupo sai uma chapa, que tem que ser composta por sete deputados. Chapa única.
Ao menos desde 2007 não há disputa pelo comando da Assembleia Legislativa do Espírito Santo. O dia da eleição serve apenas para confirmar o que já foi definido nos bastidores.
Para que uma chapa seja eleita, como já registrado aqui, é preciso que ela receba ao menos 16 dos 30 votos possíveis. O voto é aberto e nominal.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.