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Senador do ES

Como Marcos do Val transita entre o casagrandismo e o bolsonarismo

Senador do ES defende pautas do governo federal em Brasília, mas também é aliado de primeira hora do governador Renato Casagrande (PSB)

Publicado em 04 de Outubro de 2021 às 02:00

Públicado em 

04 out 2021 às 02:00
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Senador Marcos do Val na CPI da Covid
Senador Marcos do Val na CPI da Covid Crédito: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Em um país polarizado, basicamente dividido entre quem é bolsonarista, quem não é e quem não sabe em que ano estamos, um senador da República chama a atenção. Marcos do Val, eleito pelo PPS (que depois mudou de nome para Cidadania) em 2018, transita entre mundos, aparentemente, antagônicos.
Faz coro a propostas e teses apregoadas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), como a flexibilização do acesso a armas de fogo, o "tratamento precoce" contra Covid-19 – comprovadamente ineficaz – e adoção do "voto auditável", que é como o presidente chama o voto impresso associado ao eletrônico com contagem manual das cédulas.
Ao mesmo tempo, Do Val está ao lado do governador Renato Casagrande (PSB), um crítico do governo federal e que, diga-se de passagem, opõe-se às três bandeiras acima citadas. E o governo estadual também se perfila com Do Val, em determinadas ocasiões.
"Senador parceiro nosso", definiu o próprio Casagrande, em solenidade no Palácio Anchieta no último dia 27.
Como isso é possível? A coluna ouviu integrantes do alto escalão do Palácio Anchieta e a conclusão pode-se resumir a uma palavra: pragmatismo.
Antes, porém, voltemos ao passado recente.
O PSB e o Cidadania são unha e carne no Espírito Santo. Logo, desde 2018, Do Val, agora filiado ao Podemos, já estava no palanque do socialista. Aliás, em julho daquele ano, quando as candidaturas ainda não estavam formalizadas, Marcos do Val chegou a cogitar abrir mão da disputa, se Casagrande pedisse.
"Não teria nenhum problema (ter que abrir mão da pré-candidatura). Se for desejo do Renato, eu posso fazer, sem problema nenhum. Se a gente precisa dar um recuo para avançar lá na frente, não tem problema nenhum. Sou despido de vaidade e penso no grupo. Deixo o Renato livre para tomar as decisões", afirmou Do Val, na ocasião.
Na época, ele patinava nas pesquisas de intenção de voto. Na reta final, impulsionados por um desejo de renovação, Do Val e Fabiano Contarato (Rede) dispararam e tiraram de cena os veteranos Ricardo Ferraço (então filiado ao PSDB) e Magno Malta (filiado ao PR, que hoje se chama PL).
Na empolgação, eleitores desavisados podem não ter reparado no perfil dos escolhidos nas urnas.
Contarato, delegado da Polícia Civil e defensor de penas mais pesadas para quem comete crimes no trânsito, foi a opção talvez de bolsonaristas-raiz, que agora se revoltam quando o veem apontar o dedo para o governo federal e flertar com o PT.
Do Val, dono de uma empresa de treinamento para policiais, tinha menos projeção midiática, apesar de ter sido comentarista da área de segurança pública na TV, mas contava com uma base arraigada nas redes sociais.
Pouco se sabia, no entanto, sobre como se posicionaria no Senado. No primeiro turno, furtou-se a declarar em quem votaria para presidente da República. Casagrande estava com Ciro Gomes (PDT).
Depois de eleito, Do Val montou o gabinete em Brasília com nomes indicados pelo grupo político do governador.
Corta para 2021.
Do Val tem dois anos e oito meses de mandato. É membro suplente na CPI da Covid. O colegiado é majoritariamente composto por senadores da oposição, que centram fogo no governo federal. Na comissão, Do Val se posta na defesa da administração de Bolsonaro e quase foi às vias de fato com um depoente.
Enquanto isso, Casagrande critica a condução do governo federal na pandemia. Como a CPI da Covid mostrou, houve recusa, reincidente, em comprar doses da vacina da Pfizer e há suspeitas sobre transações espúrias para aquisição de vacinas indianas, o que não chegou a se concretizar.
Quando o assunto é o Espírito Santo, no entanto, a coisa muda de figura. Bolsonaro tem usado a estratégia de culpar os governadores por quase tudo que dá errado no país.
Do Val, por sua vez, não se insurge contra Casagrande. Pelo contrário. Tem participado frequentemente de eventos a convite do Palácio Anchieta e é elogiado por integrantes do governo estadual.
"Cada pessoa é uma pessoa, ele (Do Val) vai definindo os caminhos dele. Mas é ativo e parceiro para questões do governo do Espírito Santo. Ele se envolve em questão de ferrovia, em liberar financiamento do Banco Mundial, que precisa de aprovação do Senado... Ele pegou para resolver", afirma o Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação, Educação Profissional e Desenvolvimento Econômico, Tyago Hoffmann.
O secretário de Governo, Gilson Daniel, que é presidente estadual do Podemos, partido de Do Val, adota o mesmo tom.
“O Podemos é um partido de centro. Claro que com algumas coisas a gente não concorda”, afirmou o secretário, ao responder a coluna sobre os atos de Sete de Setembro, convocados por Bolsonaro e os quais Do Val apoiou.
“Agora, a gente conversa muito com o Marcos. E ele ouve. É uma pessoa boa de diálogo. Foi eleito no palanque do Renato, é um aliado”, complementou Gilson Daniel.

CONSTRANGIMENTO?

A coluna ouviu outros integrantes do primeiro escalão do governo Casagrande e questionou se não há constrangimento ao ver o aliado apregoar que toma cloroquina aos finais de semana (com prescrição médica, ressaltou Do Val na CPI da Covid) ou a minimizar o escândalo da Prevent Senior.
O senador afirmou que apenas uma pequena parte dos médicos credenciados ao plano de saúde apontou a existência de uma espécie de trama macabra para fraudar atestados de óbito, retirando menções a mortes por Covid-19, e para impor o “tratamento precoce”, mesmo sem consentimento dos familiares dos pacientes.
As respostas, em caráter reservado, rechaçaram qualquer constrangimento, uma vez que as bandeiras levantadas por Do Val em Brasília pouco interferem na gestão estadual, exceto quando destinou uma emenda parlamentar para compra de “Kit Covid”, com cloroquina, para o Espírito Santo. A Secretaria de Estado da Saúde, entretanto, não adotou tal protocolo.
“Ele pode fazer e dizer essas coisas por convicção mesmo. Ok. Pode ser também que faça isso para mobilizar a base dele, que é forte nas redes sociais. Só que, se for isso, está errando. Existe uma minoria barulhenta que, se você não estiver atento, você acha que é a maioria”, alertou um palaciano.
“Se fôssemos nos guiar por redes sociais, pelos ataques que recebemos, muito mais pessoas teriam morrido de Covid no Espírito Santo. Teríamos enfiado cloroquina na goela das pessoas e feito hospitais de campanha, que eram estratégias erradas. As pessoas estão percebendo isso. Bolsonaro está derretendo”, complementou.
O fato é que, pragmaticamente, Do Val é senador até 2026. O governo Casagrande não teria nada a ganhar comprando briga com ele por causa de Bolsonaro.
Na atual conjuntura, Do Val, por outro lado, fica “bem na fita” tanto com Bolsonaro quanto com Casagrande.

O QUE DIZ MARCOS DO VAL

Após a publicação deste texto, o senador Marcos do Val enviou uma nota na qual trata, em suas próprias palavras, sobre essa, digamos, dualidade política:
“Minha postura é a do diálogo e do equilíbrio. Não trabalho pensando em lados políticos, em uma disputa vazia que não traz resultado, trabalho pensando no que é melhor para os capixabas, para conseguir recursos importantes para o meu estado e melhorar a nossa qualidade de vida.
Para se ter uma ideia de como trabalho, basta lembrar que já destinei recursos para todos os 78 municípios capixabas, independentemente do partido ou gestor que está à frente da administração municipal.
É nisso que eu acredito. Em uma política onde há liberdade para defender o contraditório, que seja diferente do modus operandi tradicional.”

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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