Coronel x Coronel: um dilema na PM do ES e na Secretaria de Segurança
Mudança de governo
Coronel x Coronel: um dilema na PM do ES e na Secretaria de Segurança
Ramalho foi convidado a voltar ao comando da Sesp e Caus tem disposição para permanecer à frente da tropa. Mas há ruído na linha
Publicado em 17 de Dezembro de 2022 às 02:10
Públicado em
17 dez 2022 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Governador Renato Casagrande, em 2020, entre o então secretário de Segurança Alexandre Ramalho e comandante da PM Coronel CausCrédito: Reprodução Governo do Estado
Dezenove dos 21 coronéis da Polícia Militar do Espírito Santo vão para a reserva quando a alteração nas regras de aposentadoria de militares estaduais for aprovada pela Assembleia Legislativa. O projeto deve ser enviado pelo governador Renato Casagrande (PSB) à Casa em fevereiro, como a coluna mostrou. A alteração vai antecipar a passagem de diversos oficiais e praças à inatividade e abrir espaço para promoções de quem permanecer na ativa.
Isso, apesar de ser um pleito dos militares estaduais, resolve um problema para o governador Renato Casagrande (PSB). Reeleito, ele vai assumir um novo mandato em janeiro com a perspectiva de ver sair de cena uma série de coronéis que assinaram cartas com queixas e cobranças à gestão estadual. Reivindicações corporativas, basicamente.
Ao mesmo tempo, entretanto, uma incógnita surge quanto ao comando da PM, o que está ligado diretamente à escolha do próximo secretário de Segurança Pública.
O atual comandante da tropa, coronel Douglas Caus, está no posto de abril de 2020. Para substituí-lo, até que a nova legislação sobre aposentadoria entre em vigor, Casagrande teria que escolher um dos coronéis missivistas – 14 assinaram as cartas que, aliás, passaram por cima da autoridade de Caus e foram endereçadas diretamente ao então secretário estadual de Segurança, coronel Alexandre Ramalho.
Isso quer dizer que, a partir de janeiro, Casagrande tem as seguintes opções: manter o atual comandante ou escolher um dos atuais integrantes do Alto Comando, ainda que tenham disparado petardos contra o governo.
Caus, se sair do cargo, vai direto para a reserva. Isso porque o tempo dele na ativa, na verdade, já passou, mas, pelo fato de ser o comandante-geral, ele pode continuar em atuação enquanto estiver no posto de chefia. A legislação permite.
Da mesma forma, se escolher um dos coronéis assinantes das cartas, este poderia permanecer no comando da PM, não iria para a reserva como os demais colegas, mesmo após a mudança nas regras de aposentadoria. Mas não é uma obrigação. Um comandante-geral pode ser trocado a qualquer tempo pelo governador.
De acordo com uma pessoa próxima ao atual comandante, ele quer continuar na função.
Caus é o mais longevo ocupante do posto no Espírito Santo desde a redemocratização do país (a partir de 1985). Contabiliza dois anos e oito meses à frente da tropa.
Quem chegou mais perto, nesse período, foi o coronel Antonio Carlos B. Coutinho, que foi comandante por dois anos e seis meses (de 07/07/2006 a 07/01/2009, no governo Paulo Hartung).
O atual comandante-geral tem mostrado serviço. Publica no Instagram ações da PM das quais participa subindo morros de madrugada e tirou dezenas de fotos ao lado de sargentos recém-formados este mês em uma solenidade.
Mas há um porém. Alguns parágrafos acima escrevi que a escolha do comandante-geral da PM está entrelaçada à do próximo secretário de Segurança.
O coronel Ramalho, hoje na reserva da PM, foi convidado por Casagrande para voltar a chefiar a Sesp. Ramalho e Caus não se dão bem.
Um aliado do ex-secretário chegou a confidenciar à coluna que "se o Caus ficar, Ramalho não vai (voltar à pasta)".
O motivo, de acordo com esse mesmo aliado, é que Ramalho "quer ter autonomia para tocar a secretaria e cuidar da polícia". Isso inclui se relacionar com os chefes da PM e da Polícia Civil, por exemplo.
O ex-secretário está "mergulhado". Há tempos não atende a coluna e não revela o que pretende fazer.
Já um oficial que não tem lá muita simpatia por Ramalho e acompanhou um pouco da relação entre o então secretário e Caus avalia que o entrevero entre os coronéis se deu porque "Ramalho quis se destacar, aparecer, durante operações da PM, que não tinham a ver com a função dele, porque precisava aparecer, devido a interesses político-eleitorais. Tinha operação, ele queria estar à frente gravando (vídeo), queria estar junto fazendo entrega".
Um integrante do alto escalão do governo disse à coluna que quem indicou Caus para o comando da PM foi o próprio Ramalho, logo que assumiu a secretaria. Os dois são da mesma turma do Curso de Formação de Oficiais, de 1991, e já foram próximos.
Já um aliado de Caus o considera "uma escolha técnica do governador", que conta com a simpatia do chefe do Executivo estadual. "Tanto que, mesmo a contragosto do Ramalho, o governador manteve o comandante no cargo".
Enfim, à parte a guerra de versões, um secretário do governo admite que "ocorreram divergências que deixaram o Ramalho incomodado". Ou seja, de acordo com diversas pessoas, Ramalho e Caus não se dão. Mesmo.
Claro que esse não é o único fator que o ex-secretário vai sopesar ao decidir o próprio destino. Caso decida não voltar à Sesp, o atual titular da pasta, coronel da reserva da PM Márcio Celante Weolffel, poderia seguir no posto.
A preferência de Ramalho, segundo Gilson, era assumir o mandato de deputado federal. O coronel disputou o cargo, após ser rifado da corrida pelo Senado, mas ficou na suplência.
O militar somente viraria deputado se o correligionário, que foi eleito para a Câmara, tirasse licença do mandato para virar secretário de Casagrande. Ocorre que o governador decidiu não alçar Gilson Daniel ao primeiro escalão da administração, onde ele estava até abril.
Apesar de ser aliado de primeira hora do socialista, se Gilson fosse abrigado na gestão isso daria início a um sem-fim de pedidos similares de outros apoiadores do governador, ávidos por alocar aliados no parlamento e, ao mesmo tempo, garantir uma secretaria.
Assim, resta a Ramalho voltar a comandar a Sesp ou trabalhar com Gilson Daniel em Brasília. O presidente do partido ofereceu a ele a possibilidade de assessorar o mandato.
DISCURSO CONTRA A BANDIDAGEM
Quem reclama da postura de Ramalho e vê no fato de ele aparecer em operações e conceder entrevistas bradando contra a criminalidade um ponto negativo talvez esteja na contramão do que quer o governo e o próprio Casagrande.
O antecessor de Ramalho, Roberto Sá, tinha um perfil diferente, mais discreto. Foi substituído.
Os números da segurança pública não eram muito positivos, mas um dos motivos da saída de Sá e da chegada do coronel à Sesp, em abril de 2020, foi justamente ter alguém com uma postura mais, digamos, midiática, para dar uma resposta pública às ações criminosas, mostrando atitude por parte do governo.
SALÁRIO DE ACORDO COM O PIB
Defensores da permanência do coronel Caus no comando da PM elencam melhorias entregues à coporação no período em que ele esteve e está à frente da tropa, como novas viaturas, investimento em tecnologia e até instalação de ar condicionado nos quartéis.
O que os militares querem saber mesmo, entretanto, é de reajuste salarial, que foi concedido, mas há reivindicação por mais.
Em recente reunião com oficiais Caus afirmou, de acordo com uma fonte da coluna, que a meta do governo é que os salários tenham um nível correspondente ao Produto Interno Bruto (PIB).
Por exemplo: se o Espírito Santo tem o 10º ou 11º maior PIB do país, o salário dos militares deve ser o 10º ou 11º maior na comparação com as PMs de outros estados.
REDUÇÃO DO EFETIVO
Quem quer que esteja à frente da Sesp e da PM a partir do ano que vem, entretanto, tem que se preparar para outro desafio numérico.
De acordo com um oficial de alta patente consultado pela coluna, em 2023 a PM do Espírito Santo vai ter o menor efetivo da história: 7,5 mil pessoas na ativa.
O reforço no quadro está a caminho, tem concurso em andamento, mas novos homens e mulheres somente vão estar prontos para serem empregados, após passarem por curso de formação, em 2024.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.