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Será que foi confronto?

Em 6 anos, 11 pessoas foram mortas em confronto com a polícia em Pedro Canário

Cidade do Norte do ES tem taxa de homicídios gerais, não ligados a embates com policiais, muito mais alta que a do restante do estado

Publicado em 03 de Março de 2023 às 02:10

Públicado em 

03 mar 2023 às 02:10
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Vídeo mostra momento em que PM mata homem algemado em Pedro Canário
Vídeo mostra momento em que PM mata homem algemado em Pedro Canário Crédito: Leitor | A Gazeta
De acordo com dados do Instituto Jones dos Santos Neves, autarquia vinculada à Secretaria de Estado de Economia e Planejamento do Espírito Santo, 286 mortes em confronto com a polícia ocorreram de 2016 a 2022 no estado. Onze delas em Pedro Canário.
morte de um suspeito na última quarta-feira (1º), por um Policial Militar em serviço, poderia inaugurar a estatística de 2023 na cidade. Com um "detalhe": não houve confronto.
O adolescente de 17 anos já estava rendido, com as mãos para trás, como se estivesse algemado, quando foi alvejado por tiros disparados pelo militar. Tudo foi flagrado por uma câmera de videomonitoramento.
A cidade do Norte é pequena, tem população estimada em 26.575 pessoas, segundo o IBGE. Destaca-se, porém, quando o assunto é violência.
A taxa de homicídios gerais, não necessariamente ligados a embates com agentes estatais, é bem mais alta que a média estadual.
Em 2022, por exemplo, o Espírito Santo registrou 24, 26 assassinatos a cada 100 mil habitantes. Em Pedro Canário, a taxa foi de 54,44 a cada 100 mil.
Isoladamente, enquanto número absoluto, 11 mortes como resultado de confrontos com a polícia podem não chamar muito a atenção. Mas quando se compara o dado com o contingente populacional a coisa muda.
Na Serra, município mais populoso do estado, por exemplo, houve 49 mortes em confronto com a polícia no período de seis anos.
Considerando a população estimada da cidade pelo IBGE em 2021 (536.765 habitantes), que é o dado mais recente, isso equivale a 9,12 mortes em confronto com a polícia a cada 100 mil habitantes, de 2016 a 2022. A média anual é de 1,5 a cada 100 mil.
O número 11 em Pedro Canário, por sua vez, resulta em uma taxa de 41,5 mortes em confronto com a polícia a cada 100 mil habitantes nos mesmos seis anos. A média anual fica em 6,9.
Em todo o ano de 2022, houve uma morte em confronto na cidade do Norte capixaba. Em 2021, foram 6.
No período de 2016 a 2022, a maioria dos mortos tinha entre 15 e 29 anos e era preta ou parda. Somente um era branco. Todos eram homens.
O comandante-geral da PM, coronel Douglas Caus, afirmou que não há dúvidas que o caso da última quarta-feira tratou-se de um homicídio, dadas as imagens da câmera de segurança de um imóvel que, por acaso, gravou tudo.
Aí fica a questão: e os outros casos, que não foram filmados? Foram mortes resultantes de confrontos com a polícia mesmo ou também execuções?
Sem elementos de prova que contraponham a versão que os policias de cada ocasião registraram nos boletins de ocorrência, não se pode levantar suspeitas sobre todos eles, que fique claro.
Mas isso é mais um argumento para que a Polícia Militar apresse a instalação de câmeras nas fardas dos militares.
Quem for acusado injustamente terá, de pronto, uma defesa. Quem quiser cometer crimes vai ser bastante desestimulado a tal conduta.
Os cinco policiais envolvidos na ocorrência que levou à morte do suspeito de 17 anos foram presos em flagrante e tiveram as prisões convertidas em preventivas.
O adolescente morto tinha diversas passagens pela polícia e a própria família não nega que ele tivesse envolvimento com o crime. Isso, entretanto, não dá aval para que policiais comportem-se com a mesma crueldade dos bandidos.
Os familiares agora temem represálias, apesar da prisão dos militares envolvidos diretamente na ocorrência.
É preciso também zelar pela segurança do proprietário ou proprietária da câmera de segurança que gravou o assassinato. 
E das pessoas que disponibilizaras as imagens.
O vídeo viralizou e foi graças a isso que os PMs foram detidos. Confrontados com as imagens, que desmentem o que foi registrado por eles no boletim de ocorrência – o documento narrava que o suspeito colocou a mão na cintura para pegar uma arma – os militares ficaram em silêncio.
O medo, aliás, toma conta de vários moradores da cidade depois do episódio, e coloca os demais policiais que atuam no município em risco, uma vez que criminosos podem tentar vingar a morte do adolescente.
ES TEM BAIXA LETALIDADE POLICIAL
A reportagem de A Gazeta já mostrou, com base em dados do Instituto Jones, que a letalidade policial no Espírito Santo aumentou 40% em 2022, em comparação com 2021. Isso foi impulsionado por um caso em Santa Leopoldina, em outubro do ano passado.
A ocorrência foi um ponto fora da curva que elevou os números. Via de regra, as polícias do estado têm baixa letalidade. 
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2022, que exibe informações de 2021, mostra o Espírito Santo entre as cinco unidades da federação com as taxas mais baixas de mortalidade por intervenções civis e militares.
Para que o estado não apareça feio na foto, a exemplo da imagem mal ajambrada da cidade de Pedro Canário, é preciso que crimes como o da última quarta-feira recebam a punição devida, dentro da lei, e que não se passe pano para a política do "bandido bom é bandido morto".

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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