ES teve 270 confrontos entre policiais e bandidos em 2023, com 21 mortes
Números da violência
ES teve 270 confrontos entre policiais e bandidos em 2023, com 21 mortes
Coordenador do Programa Estado Presente, Álvaro Duboc cita dados e sustenta que a PM é legalista e pouco letal. Ele rebateu o padre Kelder Brandão, para quem "a violência do tráfico de drogas e armas" está intimamente ligada à "violência do braço armado do Estado, a Polícia Militar"
Publicado em 11 de Julho de 2023 às 02:10
Públicado em
11 jul 2023 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Sargento da PM foi baleado no braço no Bairro da PenhaCrédito: Pablo Campos
De janeiro a junho de 2023, houve 270 confrontos entre a polícia (Civil e Militar, mas, sobretudo, a Militar) e bandidos no Espírito Santo, de acordo com o coordenador do Programa Estado Presente, Álvaro Duboc. Tais embates resultaram em 21 mortos, nenhum deles era policial.
Duboc, que é secretário de Economia e Planejamento do governo Renato Casagrande (PSB) e atuou por 32 anos na Polícia Federal, usa os números para sustentar que a Polícia Militar do Espírito Santo é legalista e uma das menos letais do país.
Em homilia durante a missa de domingo (9), na paróquia de Itararé, em Vitória, o religioso considerou "obscena" a atuação da Secretaria Estadual de Segurança Pública e do comandante-geral da PM, coronel Douglas Caus.
Um dos mortos era um homem de 24 anos com mandado de prisão em aberto, alvejado pela polícia. De acordo com a Secretaria Estadual de Segurança Pública, ele atirou contra policiais militares, que revidaram.
O padre, durante a missa, fez algumas generalizações e insinuações, como ao dizer que há "íntima relação" entre a violência do tráfico de drogas e armas "com a violência do braço armado do Estado, a Polícia Militar", e que há corrupção nas forças de segurança, o que resultaria em "pistolas e fuzis nas mãos de jovens, crianças e adolescentes".
Mas um fato é objetivo: o coronel Caus afirmou, em vídeo publicado nas redes sociais, que o homem que atacou a tiros o Destacamento da Polícia Militar (DPM) do Bairro da Penha e baleou um sargento, na última quarta-feira (5), deveria se entregar à Polícia Civil ou desceria o morro "no saco preto".
Na quinta-feira (6), o suspeito apareceu morto. De acordo com a Sesp, foi assassinado por traficantes.
Duboc creditou o arroubo do comandante-geral da PM à "trajetória profissional" do militar, mas frisou que a orientação do governo e do governador Renato Casagrande (PSB) é que a polícia haja sempre dentro da lei.
"A prova de que a orientação é essa e é cumprida é o número de mortes em confrontos. Em 270 confrontos, 21 mortes, em seis meses. No Rio de Janeiro, em apenas uma operação policial, às vezes há esse número de mortos", exemplificou.
"A Polícia Militar do Espírito Santo é legalista e uma das menos letais do país. Aplicamos o método Giraldi para responder à agressão de forma segura", complementou o secretário.
CONFRONTOS AUMENTARAM
Duboc revelou à coluna que, desde 2019, o número de confrontos entre policiais e bandidos tem crescido no Espírito Santo.
"Nossos policiais são recebidos a tiros em muitas comunidades. Tínhamos uma média de 20 confrontos por mês até 2019. Foi quando o governo federal adotou a política de flexibilização de acesso a armas de fogo (para a população). Saímos de 20 para 45 confrontos por mês nesse período", contou o secretário.
"É importante ressaltar que o aumento do número de confrontos não se reflete no número de óbitos. No primeiro semestre de 2022, registramos 21 mortes em confrontos com a polícia, o mesmo número de 2023", frisou Duboc.
Não ignoro que tem gente que acha que as mortes em confronto com a polícia são boa notícia, que isso vai diminuir a criminalidade, e "só morre quem é bandido".
Assim, o discurso do "saco preto" ou do "pra cima deles" faz sucesso.
Trata-se, contudo, de um raciocínio raso. E não estou nem entrando no mérito moral/ético (cristão?) e legal da história.
Pragmaticamente, ainda que todos os mortos fossem criminosos, pouco adiantaria para enguiçar a engrenagem do crime. Esses bandidos são peças rapidamente substituíveis.
Fora que, se o criminosos esperam um comportamento violento da polícia, podem simplesmente atirar primeiro em qualquer situação, certos de que não serão presos e sim mortos, o que coloca em risco a segurança dos próprios policiais e de quem mais estiver por perto.
A segurança pública é um tema caro a Renato Casagrande. Em 2022, ele conseguiu se reeleger, mas a duras penas.
A taxa de homicídios tem caído ano a ano, mas a sensação de insegurança, não, o que é um prato cheio para os críticos do governo estadual.
A cobertura por vezes sensacionalista de parte da mídia, movida pela estranha curiosidade mórbida da audiência, colabora para isso, é verdade. Mas os crimes contra o patrimônio – furtos e roubos – também.
Eis que o padre Kelder diz que o governo estadual e a Prefeitura de Vitória optam por "investir milhões de reais em armas" em vez de em políticas sociais que poderiam afastar os jovens da influência dos traficantes.
Tal crítica parte não de um religioso bolsonarista, como os muitos que há por aí, mas de alguém com um discurso progressista. Ou seja, a política de segurança pública acaba alvejada de todos os lados.
Para afastar esse argumento, certamente, é que Duboc foi escalado para falar com a coluna. Ele elencou, na entrevista, as ações do Estado Presente na região do Bairro da Penha e do Bonfim.
"Lá perto da paróquia dele mesmo tem um Centro de Referência das Juventudes, que atende a quatro mil jovens por mês", exemplificou o secretário.
O governo também aposta na ampliação do número de escolas em tempo integral.
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Foi o número de homicídios no ES no 1º semestre de 2023, 36 a mais que no mesmo período de 2022
Duboc ainda afirmou que o Espírito Santo investe em inteligência e "na transição da segurança pública analógica para a digital", como sempre diz o próprio governador.
Entram aí as câmeras do cerco inteligente, que flagram carros roubados ou usados em crimes, e o programa de microcomparação balística.
"Hoje, conseguimos, dentro do banco de dados da polícia técnico-científica, pegar as armas apreendidas e os projéteis encontrados em locais de crimes, fazer um cruzamento e identificar que uma mesma arma participou de mais de um evento com morte no Espírito Santo", narrou o coordenador do Estado Presente.
Outras câmeras, a serem acopladas às fardas dos policiais militares, seguem em estudo, sem prazo para instalação.
Como já registrei neste espaço, os equipamentos seriam aliados do policial honesto e não afeito à violência gratuita e contraproducente.
Ele poderiam rechaçar, de pronto, quaisquer tentativas de chamar de execução uma morte que ocorreu quando tentava apenas não ser ele mesmo a vítima.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.