Gandini vira à direita e bombeiro entra em cena na relação com Casagrande
Assembleia Legislativa
Gandini vira à direita e bombeiro entra em cena na relação com Casagrande
Deputado estadual, que preside o Cidadania no ES, segue fora da base aliada ao governo e deu uma guinada ideológica. Um ator político tenta contornar parte da reviravolta
Publicado em 04 de Março de 2023 às 02:10
Públicado em
04 mar 2023 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Deputado estadual Fabrício GandiniCrédito: Lucas S. Costa/Ales
O deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania) surpreendeu muita gente, inclusive esta colunista, quando, na sessão da Assembleia Legislativa do último dia 15, usou palavras duras para emplacar uma emenda e, assim, alterar um projeto de autoria do governador Renato Casagrande (PSB).
O parlamentar, até então aliado histórico do socialista, defendeu dobrar o valor do Bolsa-Estudante, benefício que vai ser pago a 120 alunos do 4º ano do ensino médio. O governo estabeleceu o valor da bolsa em R$ 400 mensais. Gandini propôs R$ 800.
Diante da resistência de casagrandistas, como Tyago Hoffmann (PSB), que, pouco depois, seria designado vice-líder do governo, o deputado do Cidadania elevou o tom:
"A Assembleia não vai ficar com medo de ameaça feita por líder do governo. Se não votar do jeito que o governo quer, o governo vai vetar?", provocou Gandini, no plenário.
A emenda foi aprovada. Derrota do Palácio Anchieta.
Quando o projeto do Bolsa-Estudante voltou à pauta da Assembleia, os governistas tinham três opções: retirar o texto de tramitação, recomendar que os deputados votassem contra a proposta de Casagrande por ela ter sido alterada pela emenda de Gandini ou orientar que ela fosse aprovada.
Foi um sinal do governador ao parlamentar. O valor aumentado da bolsa os cofres públicos arcam com folga, afinal, trata-se de apenas 120 alunos.
Mas o custo político da manobra foi Casagrande que decidiu bancar.
Gandini comemorou, em nota enviada à imprensa, e elogiou o governador:
“É uma vitória para a Educação capixaba! E mostra a responsabilidade e a sensibilidade do chefe do Poder Executivo estadual com a Educação. Fico agradecido por ter contribuído com um projeto que já era bom e ficou ainda melhor com a minha emenda. Vamos avançar muito mais!”, declarou o deputado.
Os dois, entretanto, ainda não se encontraram para conversar.
E Gandini segue fora da base.
O BOMBEIRO
O presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Santos (Podemos), tem atuado como bombeiro.
Fontes da coluna relataram que, desde o fatídico dia 15, Marcelo tem trabalhado por uma possível reaproximação entre o governador e o deputado do Cidadania.
OS MOTIVOS DA GUINADA
O entrevero de Gandini com o até então aliado, porém, vai além da questão da Bolsa-Estudante. Muito além.
O deputado já disse à coluna que não se identifica mais como um político de centro-esquerda, que é o perfil do Cidadania.
Mas ainda não havia se reposicionado no tabuleiro ideológico. Agora, Gandini abertamente se apresenta como um deputado de direita.
Não de extrema direita, como Capitão Assumção (PL), mas, digamos, conservador em certos aspectos. Um aliado do deputado assim o define.
Embora nunca tenha usado isso politicamente, Gandini é da 1ª Igreja Batista de Jardim Camburi e, como evangélico, alinha-se a algumas pautas da direita, como a posição contrária ao aborto.
A mudança de postura, contudo, não tem a ver com fervor religioso puro e simples, mas com pragmatismo eleitoral.
Muitos dos eleitores do deputado em 2022 são desse espectro político. E o parlamentar teve menos votos no ano passado em comparação com 2018.
Precisa, portanto, avançar.
O sinal amarelo acendeu.
Em 2020, destoando do próprio histórico, Vitória elegeu um prefeito de centro-direita, Lorenzo Pazolini (Republicanos).
Apesar de não ter exibido estas figuras na campanha, Pazolini era aliado do senador Magno Malta (PL) e foi chamado de amigo pela ex-ministra Damares Alves (Republicanos), expoentes da extrema-direita.
Gandini, por sua vez, não chegou ao segundo turno, vaga que ficou com o ex-prefeito João Coser (PT).
"PARA O PT NÃO VOLTAR"
O deputado, que foi vereador na Capital, opunha-se à gestão petista. Agora, Casagrande está cada vez mais próximo do Partido dos Trabalhadores.
O PT compõe o primeiro escalão, comanda a Secretaria de Esportes, com o ex-deputado Nunes. O Cidadania não está representado.
Aliás, no dia da votação da emenda de Gandini na Assembleia, Nunes havia exonerado um aliado do deputado que ocupava cargo comissionado na secretaria.
O parlamentar já negou ter saído da base como retaliação à exoneração e elencou uma série de motivos, como a necessidade de se reformular politicamente e o fato de Casagrande não chamar o Cidadania para conversar sobre questões estratégicas.
Por falar nisso, estrategicamente, Gandini pode adotar um lema bem conhecido da direita: "Para o PT não voltar".
Casagrande tende a reproduzir em Vitória a aliança nacional e estadual entre PT e PSB. Isso daria força a João Coser, nome dado como certo na corrida pela prefeitura no ano que vem.
Dessa forma, Gandini não teria espaço na centro-esquerda para concorrer ao comando do Executivo municipal.
Fora da base governista, ele poderia se apresentar como uma opção da centro-direita aos eleitores descontentes com Pazolini, mas que não querem o retorno do ex-prefeito.
Contrapor-se ao PT não representaria uma guinada. Afinal, como já mencionado aqui, o deputado, enquanto vereador, já fazia isso. E, em 2020, disputou a prefeitura contra Coser, no primeiro turno.
O complicado vai ser vender-se como um novo nome da direita sendo tão conhecido pelos eleitores de Vitória.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.