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Estratégia de persuasão?

Gilvan da Federal X Marcos do Val: do ringue às urnas

Senador e deputado federal do ES bateram boca e trocaram empurrões. As cenas de comédia pastelão têm o objetivo de mobilizar os eleitores para as eleições de 2026

Publicado em 01 de Julho de 2024 às 13:16

Públicado em 

01 jul 2024 às 13:16
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Gilvan da Federal e Marcos do Val
O deputado federal Gilvan da Federal e o senador Marcos do Val Crédito: Zeca Ribeiro/Agência Câmara/Agência Senado
O senador Marcos do Val (Podemos) e o deputado federal Gilvan da Federal (PL) protagonizaram, nos últimos dias, cenas e discursos, no mínimo, inusitados. Os dois integrantes da bancada federal do Espírito Santo bateram boca no Congresso Nacional e chegaram a trocar empurrões no Aeroporto de Vitória. Por fim, o deputado desafiou o senador para lutar num ringue, "no boxe, no MMA, no vale-tudo". 
A briga, entretanto, é muito mais metafórica que literal. Partidos e políticos mobilizam-se para a eleição de 2024, que é municipal, já de olho no pleito de 2026.
Daqui a dois anos vão estar em jogo duas cadeiras no Senado, hoje ocupadas por Fabiano Contarato (PT) e Do Val. Gilvan está no primeiro mandato na Câmara dos Deputados, com atuação calcada no bolsonarismo radical. Em 2026, quer ser eleito senador.
Do Val pode tentar a reeleição e o eleitorado dele também é bolsonarista. Assim, o deputado federal e o senador disputam o mesmo nicho. As recentes trocas de farpas refletem isso.
Nos bastidores, já se especulava que Gilvan seria a aposta do PL-ES para o Senado em 2026. Isso foi explicitado no último dia 27, no evento de lançamento de Coronel Ramalho (PL) a prefeito de Vila Velha.
O deputado é a personificação de um parlamentar folclórico, com a bandeira do Brasil pendurada no ombro como se fosse um pano de prato — algumas pessoas usam o item doméstico assim ao cozinhar —, mas tem outra estratégia clássica, a provocação, verbalmente agressiva.
Assim, ele chama a atenção para si, fabrica polêmicas e "lacra" na bolha bolsonarista. Você pode criticar os métodos do parlamentar do PL, mas não seus resultados.
Em 2022, ele foi o segundo deputado federal mais votado do estado, com 87.994 votos, ficou atrás apenas de Helder Salomão (PT), escolhido por 120.337 eleitores.
Gilvan, por exemplo, chama Do Val de "Swat da Shopee", em referência ao fato de o senador do Podemos ter ministrado cursos para agentes da Special Weapons and Tactics, unidades de polícia especializa nos Estados Unidos.
Tenta, assim, descrebilizar e até ridicularizar o potencial concorrente.
É uma estratégia de baixo nível, mas não chega a surpreender.
Do Val, por sua vez, acabou sendo o próprio algoz em determinados episódios. Por exemplo, ao tornar público um plano rocambolesco em que, de acordo com o senador, Bolsonaro o teria convidado a participar de um golpe de estado.
Depois, o senador recuou e deu diversas versões conflitantes. No ápice da história, admitiu que, em declarações e entrevistas à imprensa sobre o caso, simplesmente, mentiu, ou como preferiu definir, adotou "estratégia de persuasão". Ele se reaproximou da família Bolsonaro, mas sua credibilidade foi abalada.
Gilvan viu aí um flanco a ser explorado.
Se Do Val tentar a reeleição em 2026, o que não sei se fará, e tampouco qual partido o daria espaço para tal, o principal adversário dele vai ser, justamente, Gilvan.
Por isso, o deputado já ligou a artilharia pesada. De acordo com o senador, Gilvan tem feito "xingamentos" a ele, em mensagens privadas e posts nas redes sociais. Em plena reunião da Comissão de Constituição e Justiça, o senador o desafiou: "Encosta em mim se você tiver coragem e fala na minha cara o que você tem dito nas redes sociais. Retire-se do Senado agora!" bradou Do Val, no último dia 20 de junho.
Gilvan da Federal repetiu que considera Do Val um "Swat da Shopee" e um "traidor" devido à trama mal explicada sobre a tentativa de golpe de Estado envolvendo Bolsonaro.
Já o senador, que recuperou recentemente o acesso aos perfis nas redes sociais, exibe-se, por exemplo, supostamente dormindo no chão do gabinete para passar a imagem de trabalhador incansável.
 E DAÍ?
Diante dessas coisas comezinhas, o que o povo do Espírito Santo tem a ver com isso? Poucos, creio eu, são árbitros de MMA ou analistas de redes socais.
Basicamente, a disputa aí é sobre quem é mais ou menos bolsonarista, mais ou menos de extrema direita, quem tem o ego maior, quem viraliza mais nas redes sociais.
Falando, ou escrevendo, assim, parece algo pueril, mas pode ter consequências práticas relevantes.
O ponto principal é a estratégia do PL de fortabelecer a base bolsonarista no Senado, ainda que o ex-presidente esteja inelegível. Com isso, vão poder impor agendas anticivilizatórias e afagar o público conservador.
Tudo misturado com uma suposta missão divina e valores cristãos deturpados para garantir "a luta do bem contra o mal". “Precisamos nos manter unidos porque o outro lado está unido, porque é uma luta do bem contra o mal. E nós estamos do lado do bem. E nós vamos vencer! Se nós estivermos unidos, vamos vencer!”,  na descrição de Gilvan.
Do Val também pode exercer esse papel, mas às vezes troca os pés pelas mãos, desagradando até possíveis aliados.
Para quem acompanha a política capixaba, porém, é tudo cômico, se não fosse trágico.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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