Jogo do bicho: as acusações contra assessor de vereador de Vitória
Organização violenta
Jogo do bicho: as acusações contra assessor de vereador de Vitória
De acordo com o Ministério Público, Patrik Vieira ia ao Rio de Janeiro duas vezes por mês levar dinheiro para organização criminosa "que age com extrema violência". E mais: outro integrante do grupo já trabalhou no Legislativo da Capital e o chefe foi homenageado pelos vereadores
Publicado em 06 de Setembro de 2023 às 11:41
Públicado em
06 set 2023 às 11:41
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Operação da PF: dinheiro encontrado em casa de assessor de vereador de VitóriaCrédito: Divulgação | Polícia Federal
Patrik Roger Correa Vieira foi exonerado da Câmara de Vitória logo após ser preso pela Polícia Federal na Operação Mahyah, no último dia 1º. Desde janeiro de 2021, ele era assessor, um cargo comissionado, no gabinete do vereador Duda Brasil (União), líder do prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) na Casa.
A PF encontrou R$ 160 mil com Patrik, na residência do acusado. O agora ex-assessor, além de preso preventivamente, é réu em ação penal que tramita na Justiça do Rio. Ele foi denunciado pelo Ministério Público por integrar uma organização criminosa.
A organização em questão é chefiada por Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, um dos fundadores e ex-presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. A principal atividade do grupo são jogos ilegais, como jogo do bicho, bingo e máquinas caça-níquel. Mas não apenas isso.
"A organização criminosa se utiliza da violência para resolver disputas territoriais e outros conflitos. Fato que evidencia o potencial violento e audacioso da organização foi a compra de 23 pistolas e 22 carabinas, no total de R$ 312.130,00", ressaltou o Ministério Público.
"(A organização) age com extrema violência, praticando crimes como homicídios, corrupção, porte ilegal de armas, violação de sigilo funcional, etc."
Embora Capitão Guimarães seja apontado com o chefão, havia um núcleo da organização no Espírito Santo liderado pelo escrivão aposentado da Polícia Federal Gilberto Ferreira Pereira, que é advogado.
Patrik é morador antigo do bairro Santo Antônio e tem conexões políticas. Antes de assessorar Duda Brasil, trabalhou, de 2017 a 2020, no gabinete do deputado estadual José Esmeraldo (na época, filiado ao MDB, hoje no PDT).
Não se pode associar o vereador ou o deputado às práticas criminosas, uma vez que eles nem são mencionados na denúncia do Ministério Público, mas chama a atenção a proximidade dos integrantes da quadrilha com o poder público.
Gilberto Pereira, por exemplo, em 2015, foi homenageado pela Câmara de Vitória. Ganhou o título de cidadão vitoriense e ainda uma comenda.
O núcleo que atuava no Espírito Santo — em Vitória e Vila Velha — era composto por Gilberto, Patrik e André Luiz Miranda Furtado, conhecido como Mestre. Este, por sua vez, também já foi servidor comissionado na Câmara de Vitória. Entre 2015 e 2017, ele trabalhou no gabinete do então vereador Zezito Maio (MDB).
No dia 29 de agosto, o juiz Juarez Costa de Andrade, da 1ª Vara Especializada em Organização Criminosa, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, determinou as prisões preventivas de 13 pessoas denunciadas por integrar o esquema, entre elas Gilberto, Patrik e André.
A FUNÇÃO DE CADA UM
De acordo com o Ministério Público, Gilberto Ferreira Pereira era o gerente/coordenador do núcleo com atuação no Espírito Santo e fazia a remessa mensal de dinheiro oriundo dos jogos ilegais para Capitão Guimarães.
"Há diversas conversas entre Alzino (outro integrante da quadrilha, do Rio) e Gilberto sobre viagens para o Rio de Janeiro, inclusive mencionando o vulgo Mestre, atribuído ao denunciado André Luiz Miranda Furtado, e supostamente o denunciado Patrik Roger Correa Vieira", diz a denúncia.
Mestre e Patrick "atuariam no transporte dos lucros para a Organização Criminosa, fazendo viagens, duas ou três vezes por mês, que saem de Vitória/ES com destino ao Rio de Janeiro/RJ".
Uma vez, a polícia abordou um ônibus de passageiros, uma linha regular entre Vitória e Rio, em que André Furtado, o Mestre, estava.
Na mochila dele, foram encontrados R$ 129 mil. Na delegacia, Furtado contou que entregou dinheiro a pedido do "doutor Gilberto" diversas vezes e que "doutor Gilberto" é advogado do Capitão Guimarães.
André Furtado, na ocasião, também mencionou que Patrik trabalhava para Gilberto.
Enquanto o Mestre prestava depoimento, eis que "doutor Gilberto" "ligou para a delegacia se identificando como policial federal aposentado, assumindo a responsabilidade e titularidade do dinheiro e afirmando se tratar de honorários advocatícios".
R$ 10 milhões
É o valor movimentado pela organização, em dez anos
Para que um servidor comissionado seja contratado, via de regra, exige-se certidões de nada consta de primeiro e segundo graus da Justiça estadual.
A coluna não localizou condenações contra Gilberto Pereira, Patrik Vieira e André Furtado.
O OUTRO LADO
A coluna não conseguiu contato com os advogados listados no processo como defensores dos denunciados. Mas está à disposição para ouvi-los.
O QUE DIZ DUDA BRASIL
A coluna tenta contato com o vereador Duda Brasil desde a semana passada para saber como ele conheceu Patrik Vieira e como ocorreu a contratação do assessor.
Nesta quarta (6), a assessoria de imprensa do parlamentar informou que "Patrik é morador de Santo Antônio, mesma região do Duda. Eles se conhecem desde a época em que jogavam (futebol). A contratação dele se deu por conta da experiência em outros gabinetes, além do conhecimento que ele tinha tanto da região, quanto dos moradores".
A coluna não conseguiu contato com José Esmeraldo, para quem Patrik Vieira também trabalhou como servidor comissionado.
O QUE DIZ ZEZITO MAIO
O ex-vereador Zezito Maio afirmou não lembrar de André Luiz Miranda Furtado, que trabalhou no gabinete dele de 2015 a 2017.
"Tem pessoas que a gente só conhece por apelido. Se for um que eu chamava de Luiz, nunca percebi nada de errado. Do gabinete para fora, cada um é dono da sua vida, não vou ficar vigiando. Mas, se errou, cada um arque com suas responsabilidades. Se eu soubesse, claro, jamais contrataria, mas ladrão e bandido não têm cara", afirmou Zezito.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.