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Levantamento inédito

Mais de 76% dos órgãos públicos no ES são altamente suscetíveis à corrupção

Percentual diz respeito a organizações municipais (prefeituras e câmaras), estaduais e federais, em todos os Poderes. Dados são mais negativos em relação ao Legislativo e ao Judiciário

Publicado em 09 de Dezembro de 2021 às 02:10

Públicado em 

09 dez 2021 às 02:10
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Corrupção
Imagem meramente ilustrativa Crédito: Freepik
Mais de 76% dos órgãos públicos no Espírito Santo, considerando organizações municipais, estaduais e federais de todas as esferas de poder (Executivo, Legislativo e Judiciário), têm alta ou muito alta suscetibilidade a fraudes e corrupção. Outros 23,3% têm média exposição à corrupção. Nenhuma entidade figura no nível aceitável.
No quadro nacional, considerando todos os municípios, estados e Poderes participantes, 82,4% das organizações públicas brasileiras estão sob risco alto ou muito alto de sofrer com fraudes ou corrupção; 16% figuram no nível médio e apenas 1,6% no aceitável.
O levantamento, inédito, e a classificação, a partir de dados informados pelos próprios órgãos públicos, foram elaborados no âmbito do Programa Nacional de Prevenção à Corrupção (PNPC) que, no estado, está a cargo do Fórum de Combate à Corrupção do Espírito Santo (Focco-ES).
O resultado foi divulgado nesta quarta-feira (8) pelo Tribunal de Contas da União e pela Controladoria-Geral da União (GCU). O Espírito Santo foi a unidade da federação com maior participação, ou seja, em que, proporcionalmente, mais órgãos responderam aos questionamentos previstos no PNPC: mais de 90%.
Estar suscetível a casos de fraude ou corrupção não quer dizer que isso realmente ocorra. O diagnóstico aponta, no entanto, o risco e, logo, a necessidade de adoção de práticas que tornem a suscetibilidade menor.
O enquadramento leva em consideração o diagnóstico inicial (resultado do questionário respondido pelas próprias entidades) versus o poder de compra (volume de recursos disponíveis para a entidade gerir) ou poder de regulação (capacidade de legislar; de aplicar sanções; de regulamentar atividades; de conceder licença, entre outras).
"Uma estrutura inexistente ou incipiente de controles conjugada com um alto poder de compra ou de regulação faz com que a entidade se enquadre na faixa vermelha (muito alta), lembrando que ser enquadrada como suscetível não significa, em absoluto, que se está afirmando que a entidade é corrupta, mas que as frágeis estruturas existentes podem criar um ambiente propício à consumação de atos fraudulentos", ressalta o secretário do Tribunal de Contas da União (TCU) no Espírito Santo, Leonardo Felippe Ferreira.
  • E o risco é maior nos órgãos municipais (câmaras e prefeituras): 79% têm suscetibilidade "muito alta" no Espírito Santo; 9%, suscetibilidade alta e 12%, suscetibilidade média.
  • Nas organizações estaduais (ligadas ao governo do estado, à Assembleia Legislativa e ao Judiciário estadual), 45% apresentam suscetibilidade muito alta; 39%, média e 15%, alta.
  • Já nas organizações federais, a situação é um pouco melhor: 73% apresentam suscetibilidade média a fraude e corrupção; 14%, muito alta e outros 14%, alta.

NO JUDICIÁRIO, 100% EM RISCO MUITO ALTO

Quando o recorte é feito por Poderes, as organizações do Judiciário no Espírito Santo, considerando os entes estadual e federal, estão todas classificadas em "muito alta" suscetibilidade a fraude e corrupção.
No Legislativo, na esfera municipal (câmaras) e estadual (Assembleia Legislativa) 97% estão altamente (muito alta) suscetíveis e 3% em risco médio.
No Executivo, em âmbito municipal (prefeituras), estadual (governo do estado) e federal (órgãos ligados a ministérios do governo Bolsonaro, por exemplo) 55% estão em suscetibilidade muito alta; 31% em "média" e 15% em alta suscetibilidade.
Apesar dos percentuais preocupantes, o secretário do TCU avalia como positivo o fato de os órgãos terem respondido ao questionário, o que mostra que há interesse em identificar o problema, o primeiro passo para saná-lo.

QUEM RESPONDEU

Diversos órgãos localizados no Espírito Santo participaram do levantamento, espontaneamente, desde o 38º Batalhão de Infantaria (federal); passando pela Companhia de Gás do Espírito Santo (estadual) e chegando à Câmara Municipal de Itaguaçu. Ao todo, 355 organizações enviaram dados.
Esses entes podem usar em seus sites o selo de participante do Programa de Prevenção à Corrupção.
Na lista dos que não aderiram (para constar como participante precisa preencher um formulário e enviar alguns documentos que depois são validados por amostragem) estão o Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-ES).

"Ah, mas eu já sabia"

Que a corrupção é um problema no Brasil, todos sabem, dirão os leitores e, principalmente, os que comentam nas redes sociais após ler apenas o título. Ok. Mas desta vez há percentuais específicos sobre as chances de isso ocorrer, além de indicativos de como reduzir essas chances.

Outra questão que cabe mencionar é que "acabar com a corrupção" não pode ser um mantra, como a perseguição a um inimigo, real ou imaginário, que, se varrido do mapa, resolve todos os problemas "da nação brasileira" (alô, Cabo Daciolo). É algo a ser resolvido, ou mitigado, no poder público, sim. Mas não é isso, apenas, que vai fazer o Brasil virar um país de primeiro mundo.

Soluções simplistas como "é só acabar com a corrupção que a educação (ou a saúde, a segurança pública, a economia, as contas públicas ...) fica uma maravilha" não são factíveis. Seria desnecessário dizer, mas, infelizmente, é necessário.

CENÁRIO NACIONAL

Nacionalmente, houve a adesão de 60% dos órgãos da administração pública – o equivalente a mais de 9 mil organizações públicas de todo o país. 
"As organizações públicas brasileiras têm uma baixa capacidade de prevenir a ocorrência de novos ilícitos, dificuldades para perceber os atos ilícitos que estão ocorrendo, estrutura insuficiente para punir os casos de corrupção detectados e ainda faltam processos formais para a escolha de líderes capacitados para as principais funções gerenciais. Isso pode levar à nomeação de gestores despreparados para lidar com esses casos de fraude e corrupção", afirmou, nesta quarta, o secretário de controle externo do Tribunal de Contas da União no Mato Grosso do Sul e coordenador do PNPC, Mário Junior Bertuol.
  • 87% das organizações públicas estão em nível inicial ou básico da adoção de boas práticas para prevenir a corrupção
  • 74% não possuem código de ética que delimite as condutas desejáveis e condutas vedadas
  • 75% não possuem política formal para prevenir conflitos de interesse
  • 80% não estabeleceram condições para lidar com variação de patrimônio dos funcionários
  • 90% possuem baixa capacidade de perceber atos ilícitos cometidos
Ações simples podem ajudar a detectar problemas, exemplificou Bertuol, como a verificação da qualidade do combustível adquirido; o consumo real da frota do órgão público ou a comparação dos valores presentes em licitações com os orçados pelas empresas, às vezes a cifra é igualzinha, o que desperta suspeitas. 
  • 30% não implantaram um canal de denúncias
  • 82% não possuem equipe de corregedoria
Sem receber denúncias e sem ter como investigar, além de suscetíveis a fraudes e atos de corrupção, por vezes os órgãos públicos ficam até sem saber que eles acontecem. Até que a polícia ou o Ministério Público batam à porta, na falta de um controle interno.
"Apenas 15% declararam possuir algum tipo de investigação de ilícito, como sindicância e PAD (Processo Administrativo Disciplinar) relativos a servidores nos últimos três anos. Isso se deve à falta de estrutura", destacou o coordenador do PNPC.
Assim, a partir de informações dos próprios órgãos públicos, o programa não conseguiu identificar o quantitativo de ilícitos. "Hoje não há medição de ilícitos contra a administração pública em âmbito nacional. Não temos como melhorar aquilo que não se mede", alertou Bertuol.

EM TRANSPARÊNCIA, ESTAMOS BEM

Para não encerrar a coluna tão negativamente, destaco aqui algo positivo que o PNPC apontou: 
  • 85% das organizações públicas no Brasil têm ações para promoção da cultura de transparência e divulgação proativa de informações
O Espírito Santo, considerando apenas o governo do estado, é o primeiro em transparência no país, de acordo com a Escala Brasil Transparente, da Controladoria Geral da União (CGU).

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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