Marcelo Santos quer reformar a Assembleia do ES. E não só o prédio
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Marcelo Santos quer reformar a Assembleia do ES. E não só o prédio
Presidente da Casa, em entrevista à coluna, afirmou que a sede do Legislativo tem problemas estruturais graves. Ele também quer que a população entenda o papel da instituição. Foi questionado sobre a identificação dos carros oficiais usados pelos deputados e mais. Confira
Publicado em 23 de Maio de 2023 às 02:10
Públicado em
23 mai 2023 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
O presidente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, Marcelo SantosCrédito: Lucas S. Costa/Ales
O veterano deputado Marcelo Santos (Podemos) assumiu a presidência da Assembleia Legislativa do Espírito Santo no dia 1º de fevereiro de 2023. Ele está no sexto mandato consecutivo na Casa e já integrou a Mesa Diretora como vice-presidente. É a primeira vez, contudo, que é o chefe do Poder.
Nos quase quatro meses em que exerce a função, muita coisa aconteceu no plenário. Algumas ficaram sob os holofotes, outras, não.
Marcelo, desde que foi eleito, também em 1º de fevereiro, diz querer que a população compreenda o trabalho da Assembleia, que saiba, por exemplo, que muitas das ações do governo estadual decorrem não apenas do aval, mas da contribuição dos parlamentares.
Em 2014, a fachada e a calçada foram reformadas. Mas, de acordo com o presidente, há graves problemas estruturais no edifício.
"O elevador, se chover, para. O ar-condicionado, na nossa posse, não funcionou. Há infiltrações e a instalação elétrica é arcaica. Esses dias uma mulher foi hospitalizada devido a uma descarga elétrica aqui. E a conta de energia é muito alta", exemplificou.
Marcelo diz que já entrou em contato com o governador Renato Casagrande (PSB) e falou sobre a necessidade de verba para investimento na Casa. Mas não precisou o valor.
Na conversa com a coluna, o deputado foi questionado sobre a falta de identificação dos veículos oficiais usados pelos parlamentares e outros assuntos.
Confira parte da entrevista concedida por Marcelo Santos:
Na avaliação do senhor, o que ocorreu de mais relevante no plenário neste período de quase quatro meses em que preside a Assembleia?
A primeira coisa mais importante no plenário é a relação que a gente tem com os deputados. Independentemente da posição de cada um, seja da base (do governo) seja independente ou oposição, direita ou esquerda. A gente tem uma relação muito legal, que nos permite debater e fazer as entregas para a população.
Antes, tinha Refis quase todo ano. Agora, ele tem um prazo. Ele rompeu esse prazo agora devido ao modelo.
Antes, quem aderia ao Refis ficava impedido de buscar um incentivo fiscal, o Compete-ES, o Invest-ES. Então, nós fizemos uma nova modelagem. Dialogamos com o setor, com a Federação das Indústrias, com a Fecomércio.
O projeto foi aprovado da forma como foi enviado pelo governo, mas fizemos antes essa discussão.
O senhor, que é da base do governo Casagrande, falou da relação com os deputados, ou entre os deputados. E em relação ao governo? A oposição, nesta legislatura, está mais fortalecida que na legislatura passada?
Está mais fortalecida, mas ela tem um papel no que tange à discussão de matérias que vêm do governo muito mais equilibrado.
Nem sempre as pessoas entendem a dinâmica do parlamento. Por exemplo: as pessoas não entendiam por que eu prestigiava o (então deputado estadual) Sergio Majeski (PSDB). Eu presidi várias sessões na legislatura passada (Marcelo era o 1º vice-presidente da Mesa).
E prestigiava o Majeski (que, via de regra, votava contra projetos enviados pelo governo estadual) porque eu precisava de quórum para votar as matérias. Principalmente matérias que carecem de quórum qualificado, como projetos de lei complementar.
A maioria dos projetos do governo eram de lei complementar. Propostas de Emenda à Constituição também precisam de quórum qualificado.
Eu contava com a oposição para me dar o número necessário para votar a matéria. Como a base é maior, então você vence (a votação). Se eu não tivesse a oposição presente, na maioria das vezes eu não teria quórum para votar e para vencer.
Eu preciso deles, da presença deles (no plenário). Eles poderiam, por exemplo, esvaziar a sessão e impedir a votação. Mas você nunca viu esse movimento aqui (na atual legislatura).
Isso é um acordo que a gente faz com os parlamentares, em especial com aqueles que se intitulam oposição ou independentes. É esse equilíbrio, essa relação que está bem legal. Ao contrário de outras legislaturas, em que havia, às vezes, o movimento de sair (do plenário).
Agora, gostaria de falar sobre um assunto do qual trato há anos, desde que era repórter: a falta de identificação dos carros oficiais alugados pela Assembleia e usados pelos deputados.
Ao menos até 2015, eles tinham placas pretas que os distinguiam como veículos utilizados em serviço. Durante um período, tiveram adesivos. Já há algum tempo, não têm nada, passam-se por carros particulares, o que dificulta a fiscalização da sociedade sobre eventual uso indevido. Por que?
Vou falar da minha agenda da semana passada. Eu saí daqui (de Vitória) e fui para Rio Novo do Sul, para uma agenda na cidade. Amanheci em Cachoeiro de Itapemirim, fiz duas agendas lá. Depois, subi para Guaçuí. De Guaçuí, eu fui para Divino de São Lourenço. De lá, fui para Dores do Rio Preto e amanheci no Iúna. Do Iúna eu fui parar em São Mateus. Depois, amanheci em Jaguaré e voltei (a Vitória) no domingo.
Se você tem uma identificação desse veículo, você compromete até a integridade do parlamentar. Os veículos da Assembleia são identificados. Somente os utilizados pelos parlamentares que não são.
Alguns parlamentares, dois ou três, não vou citar nomes, são ameaçados e andam com segurança. É uma forma que a polícia tem de dar o mínimo de segurança para o parlamentar. Quando se mostra que o carro é da Assembleia, você identifica, personaliza ele.
A atividade do parlamentar é diferente da de um servidor convencional, que entra às 8h (no trabalho) e sai às 17h ou às 18h. O parlamentar dorme parlamentar e acorda parlamentar.
Ontem (quinta-feira, dia 18) o governador me ligou. Eu havia comentado com ele que, no sábado, eu iria sair com minha mulher e meu filho. Mas, ele me ligou e agora, sábado (20), eu vou para Jerônimo Monteiro com ele, em agenda oficial.
Então, nossa atividade é diferente. Temos que manter relação com secretarias do governo, comparecer a agendas de prefeitos... Nós estamos na base, não somente no prédio da Assembleia.
Não precisa ser um adesivo escrito: "aqui dentro tem um deputado". Não poderia ser apenas o brasão da Assembleia Legislativa e o aviso de que o carro é de uso exclusivo em serviço, como ocorre com os servidores? Quem está de fora poderia achar que é um servidor, não necessariamente um deputado.
Basta os carros utilizados pelos deputados serem iguais aos utilizados pelos servidores. Por que tem que ser um Corolla?
Porque é um carro para viagem. Os servidores fazem viagens esporádicas. Não é querendo nos colocar como especiais, mas temos uma função diferente, e que envolve riscos.
Os desembargadores do Tribunal de Justiça julgam casos que contrariam criminosos, por exemplo. E os carros oficiais utilizados por esses magistrados têm placas pretas indicando que são veículos do TJ...
Mas esses carros são blindados e eles (os desembargadores) têm segurança.
O senhor também tem andado com segurança, o que não vi ser adotado, por exemplo, pelos ex-presidentes da Assembleia Erick Musso (Republicanos) e Theodorico Ferraço (PP), seus antecessores. O senhor sofreu alguma ameaça que o fez pedir reforço?
Ninguém gosta de andar com segurança. Eu, particularmente, não quero, mas o diretor de segurança da Assembleia, que é um major da Polícia Militar com experiência nessa área, orientou que seja assim.
E tenho que seguir as orientações dos profissionais (o major Ubirajara Egg de Resende, de acordo com o site da Assembleia, foi nomeado em março como diretor de segurança legislativa e é especialista em Gestão Militar e em Proteção Pessoal de Alto Risco).
Os policiais me acompanham em alguns movimentos, mas tento ser o mais discreto possível. Agora, esses não são policiais da ativa, não, tá? São da reserva da Polícia Militar.
Da ativa, apenas o major e o tenente-coronel que comanda a assessoria militar da Assembleia, como ocorre em outros Poderes.
Ok, mas, em resumo, os carros oficiais alugados pela Assembleia que ficam à disposição dos gabinetes dos deputados, não vão receber adesivos de identificação?
"Não. Entendo que é uma questão de proteger a integridade do parlamentar"
Marcelo Santos (Podemos) - Presidente da Assembleia Legislativa
E quanto ao uso do carro, o deputado é o responsável. Tem motorista para dirigir o veículo, que inclusive é um servidor do gabinete que recebe gratificação por isso.
Se o parlamentar está presente, ele representa a Assembleia enquanto instituição naquele momento e cabe a ele garantir o uso adequado do veículo.
Tem o caso do deputado Lucas Polese que, ao dirigir o carro oficial, recusou-se a fazer o teste do bafômetro ao ser parado em uma blitz pela Polícia Militar.
Nenhum motorista é obrigado a fazer o teste, mas um parlamentar ou servidor deveria, no mínimo, atestar a própria sobriedade para conduzir um bem pago com dinheiro público. O senhor não poderia baixar uma norma que diz que quem não quiser se submeter ao bafômetro não pode dirigir o carro oficial?
Aí eu seria mais rigoroso que a legislação federal e usurparia a competência de uma lei federal. É um direito do condutor, independentemente de quem seja, não fazer o teste do bafômetro, porém, respondendo por seus atos.
Há ao menos duas representações contra o deputado Lucas Polese protocoladas na Assembleia que devem ser avaliadas pela Corregedoria...
E vão tramitar dentro desta Casa seguindo o rito estabelecido pelo Regimento Interno.
Estamos resolvendo. Agora, temos outro problema, que é a manutenção da Casa, que tem problemas estruturais. O prédio passou apenas por paliativos tímidos.
"Conversei com o governador. Precisa ter uma reforma. E o Renato falou que topa"
Marcelo Santos (Podemos) - Presidente da Assembleia Legislativa
E aí não é dinheiro de custeio, é investimento. Custeio é permanente. Investimento você faz aquilo e acabou.
Nossa ideia é dar uma repaginada, acertar os problemas estruturais.
O senhor disse que há problemas graves no prédio. Quais problemas?
O elevador, se chover, para. O ar-condicionado, na nossa posse, não funcionou. Todo ano a Casa fecha para fazer manutenção. Mas o problema não é só esse, é a nossa tubulação, que é arcaica. Nosso sistema de ar-condicionado é arcaico.
Há portas podres. E a instalação elétrica é ruim. Esses dias uma mulher foi hospitalizada devido a uma descarga elétrica aqui. E a conta de energia é muito alta.
Isso vai no meu CPF. Se acontecer alguma coisa aqui eu respondo civil e criminalmente.
E como seria a reforma?
Sede da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, na Enseada do SuáCrédito: Carlos Alberto Silva
A ideia é a seguinte: nós vamos fazer uma padronização nos gabinetes. Temos os gabinetes e as comissões. Tem parlamentar que tem um gabinete para a comissão e um para ele.
Nossa ideia é padronizar os gabinetes em três modelos, três possibilidades. E o deputado escolhe. E a Assembleia tem que ter uma ala só para comissões. Hoje, tem comissão que funciona no gabinete, tem comissão que funciona no plenário...
A gente quer fazer a utilização de uma área externa para eventos da Assembleia, ali fora. E ampliar o número de vagas de estacionamento para as pessoas que vêm à Casa.
E vamos colocar energia fotovoltaica no prédio. A conta de energia é alta também devido ao cabeamento antigo.
E o senhor tem ideia de quanto tudo isso iria custar?
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.