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PL Mulher

Michelle Bolsonaro no ES: o feminino e o feminismo

Ex-primeira-dama é presidente nacional do PL Mulher e uma estratégia de soft power do bolsonarismo. Em Vitória, ela ironizou a atual primeira-dama, Janja, e até a cantora Ludmilla

Publicado em 12 de Novembro de 2023 às 02:15

Públicado em 

12 nov 2023 às 02:15
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro fala à plateia durante evento em Vitória
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro fala à plateia durante evento em Vitória Crédito: PL nacional
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro assumiu a presidência do PL Mulher em março. E passou a viajar pelo país para incentivar a filiação de mulheres ao partido.
A esposa do ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL) chegou ao Espírito Santo na sexta-feira (10). Neste sábado (11), protagonizou um evento do PL Mulher em Vitória.
Lá, doutrinou a plateia, formada por simpatizantes do bolsonarismo, sobre o que é feminismo e o que é feminino.
"Queremos ressignificar a política, com um olhar feminino e não feminista. Não precisamos gritar, tirar a roupa ou ter um estereótipo estranho para ocupar espaço", discursou Michelle.
Há, no mínimo, uma confusão aí.
O feminismo tem diversas vertentes, mas, em resumo, prega "a ideia radical de que mulheres são gente" (Marie Shear, 1986). 
Quer dizer ser um ser humano, um indivíduo, que não vive em codependência ou em função de outro, que tem direitos e deveres.
Michelle também afirmou, no evento em Vitória,.que mulheres devem trabalhar, empreender, ter o próprio dinheiro e participar ativamente da política.
Fez um discurso, em parte, feminista, e nem se deu conta.
Mas também destilou machismo e preconceito.
Quem disse que para ser feminista tem que tirar a roupa e gritar?
Se fosse assim, eu correria sério risco de ter minha carteirinha de feminista cassada.
E o que seria "estereótipo estranho"? Eu, por exemplo, não gosto dos ternos e gravatas do ex-ministro da Economia Paulo Guedes. Ele tem um "estereótipo estranho" e é feminista agora?
Fui irônica, obviamente. O ex-ministro tem o direito de se vestir como quiser sem ser constrangido por isso. As mulheres deveriam ter o mesmo direito.
"A gente não menospreza o trabalho de casa, cozinhar para os filhos, porque isso cria uma conexão", afirmou a ex-primeira-dama.
Mais um equívoco. Querer que os homens também realizem tarefas domésticas não é menosprezá-las. O que há de tão ruim em querer que os pais e maridos também criem essa conexão familiar?
"Não quero que minhas filhas passem vergonha com as sogras delas", continuou Michelle. Ela pretende que as filhas saibam lavar, cozinhar e passar para que, ao se casarem, não sejam criticadas pela mãe do cônjuge.
Mas por que é vergonhoso para uma mulher não saber fazer essas coisas e para um homem, adulto, não?
Não limpar a própria casa, não cozinhar para não passar fome e não cuidar do próprio filho?!
Fazer isso não é um favor, uma "ajuda" à mulher. É, basicamente, ser adulto.
Mulheres não nasceram com o gene ou o dom do trabalho doméstico. Assim como os homens não têm nada que, biologicamente, os impeça de exercer essas atividades.
Michelle afirmou que as mulheres devem se inserir no mercado de trabalho, mas sem dividir a carga das tarefas de casa. "Fazemos tudo e ainda fazemos o cabelo, somos cheirosas", elogiou-se.
"Fazemos tudo", sim. Mas a que custo?
Qual a justificativa para um homem chegar do trabalho e ir assistir à televisão enquanto a esposa dele, também ao chegar do trabalho, ter que fazer o jantar e lavar a louça sozinha?
Se uma mulher "só" cuida da casa e dos filhos, sem "trabalhar fora", não há problema nenhum, desde que ela saiba que essa é uma opção, não a única opção. Que ela saiba que não é geneticamente ou religiosamente condicionada a essa função.
O feminismo é também sobre isso.
O "feminino" de Michelle parece não se importar.
ALFINETADAS EM LUDMILLA E JANJA
Para completar, os alvos favoritos da ex-primeira-dama foram... mulheres.
Ela ironizou, por exemplo, a cantora Ludmilla, recentemente criticada por errar a letra do Hino Nacional ao se apresentar no Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1.
Antes da execução do hino no evento do PL Mulher, Michelle avisou à plateia: "É ouviram (do Ipiranga) e não Elvira".
No restante do discurso, houve várias menções, não nominais, à atual primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, a Janja.
"Tenho vocação para o trabalho e para o voluntariado. Algumas não têm. Algumas têm vocação para viajar e viajar e viajar", afirmou Michelle.
Janja tem sido reprovada por acompanhar o presidente Lula (PT) em viagens ao exterior. 
"Tem viagem que a mulher não precisa estar junto. A gente sabe o gasto que é levar uma mulher. Vamos ficar no Brasil e trabalhar um pouco", alfinetou.
A própria Michelle, porém, contou que ela mesma viaja toda sexta-feira, para eventos do PL Mulher. Devidamente acompanhada por uma equipe.
Quem paga os custos disso é o partido, que, por sua vez, é bancado pelo fundo partidário, pelos cofres públicos.
Ela ainda recebe um salário de R$ 41 mil brutos mensais do PL.
Michelle Bolsonaro discursa em evento do PL Mulher, em Vitória
Michelle Bolsonaro discursa em evento do PL Mulher, em Vitória Crédito: PL nacional
"A mulher tem que ser 'ajudadora'. Tomara que ela (Janja) ajude o marido a não demitir mais uma mulher. E meu marido que era chamado de misógino", provocou a ex-primeira-dama.
Lula iniciou o atual mandato com 11 ministras, um recorde na história do país. Mas dispensou duas delas antes de completar o primeiro ano de mandato.
Ele também tirou a presidente da Caixa do cargo para abrigar um nome indicado pelo Centrão, um homem.
Neste caso, a crítica de Michelle foi bem colocada, a não ser pelo fato de responsabilizar Janja, e não o presidente, por isso.
E Bolsonaro teve apenas duas ministras, num universo de 22 titulares de pastas.
É preciso lembrar que o ex-presidente passou a mensagem de que tem mulher que "merece ser estuprada", uma vez que afirmou, em 2014, que uma deputada federal não merecia ser estuprada por ser "muito feia". 
https://g1.globo.com/politica/noticia/2016/06/bolsonaro-vira-reu-por-falar-que-maria-do-rosario-nao-merece-ser-estuprada.html
"Misógino? Casado com uma mulher linda?", afirmou Michelle, defendendo o marido e referindo-se a si mesma.
Misoginia é ódio ou aversão a mulheres. É perfeitamente possível um homem ser casado com uma "mulher linda" e, ao mesmo tempo, ser misógino.
Basta vê-la como um objeto, uma "ajudadora" e não gente.
SOFT POWER
Apesar de tudo que escrevi aqui. Michelle Bolsonaro é o "soft power" do bolsonarismo, uma estratégia política menos agressiva.
Ela não falou palavrões, não mencionou armas de fogo, não incitou o público à violência.
Emulou apenas um discurso bíblico, que prega uma espécie de messianismo do casal Bolsonaro:
"Quem governou foi Deus, não foi ele (Jair) ... Deus nos deu (às mulheres) dons especiais ... Não vou desistir do meu chamado, da minha missão, sei quem eu sou em Cristo Jesus".
E assim segue pelo Brasil, espalhando "a palavra".

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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