Minha aposta sobre o que Paulo Hartung vai fazer em 2026
Candidato ou não?
Minha aposta sobre o que Paulo Hartung vai fazer em 2026
Ex-governador afirmou que "a princípio" não vai disputar nenhum cargo no ano que vem e deixou dúvida no ar: "Nunca digo dessa água não beberei". Há, entretanto, sinais que não podem ser ignorados
Publicado em 27 de Maio de 2025 às 14:04
Públicado em
27 mai 2025 às 14:04
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
O ex-governador Paulo Hartung num escritório de advocacia, em Vitória, no último dia 22, quando concedeu entrevista à colunaCrédito: Ricardo Medeiros
Quando Gilberto Kassab fundou o PSD, em 2011, avisou que a sigla "não é de direita, não é de esquerda, nem de centro". Assim, pode estar em todo lugar ao mesmo tempo, sem ser acusada de recair em uma contradição maior que sua própria existência. E a estratégia deu certo. O PSD foi o partido que mais elegeu prefeitos no Brasil em 2024.
Tem três ministérios no governo Lula (PT) e, paralelamente, Kassab, ele mesmo, presidente nacional da legenda, é secretário de Governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo. O republicano é um potencial adversário dos petistas em 2026na corrida pela Presidência da República. E o PSD também pretende lançar candidato próprio ao Planalto, tem como opções os governadores Ratinho Jr., do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul.
O ex-governador Paulo Hartung, por sua vez, filiou-se ao partido na segunda-feira (26). Dias antes, afirmou, em entrevista à coluna, que, "a princípio", não vai disputar nenhum cargo nas eleições do ano que vem, mas deixou a dúvida no ar: "Nunca digo 'dessa água não beberei'".
É algo ambíguo, como o PSD, mas há sinais a serem interpretados.
Há meses, especula-se se o ex-governador vai disputar o Palácio Anchieta no ano que vem, o Senado, ou se não vai ser candidato a nada. Minha aposta é a terceira opção.
Vejamos os sinais:
A RENOVAÇÃO
Hartung afirmou, na entrevista, defender a "renovação na política do Espírito Santo". Ele foi governador por três mandatos (2003-2011 e 2015-2018), tem uma longa história na política.
Ainda que possa dar um giro de 180 graus no discurso e se apresentar como um político experiente que aprendeu a fazer política de forma inovadora e segura, retórica utilizada por vários veteranos, seria difícil emplacar a tese.
Instado a citar possíveis representantes dessa nova política, elogiou os prefeitos de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), e de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (sem partido), dois nomes que querem disputar o governo do Espírito Santo. É uma sinalização bem clara.
O ex-governador lançou essa espécie de manifesto pela renovação ao ser questionado sobre a possibilidade de disputar o Palácio Anchieta, o que deixa uma brecha em relação à candidatura ao Senado, certo?
Mas, convenhamos, é um mandato de oito anos em Brasília e Hartung já foi senador. E há outros fatores que devemos ponderar nesta análise/palpite, como você, leitor ou leitora, vai constatar a seguir.
A POLÍTICA NACIONAL
O ex-governador tem participado, publicamente, cada vez mais do debate nacional, não de questões intrinsecamente capixabas.
A chance de ser candidato à Presidência da República ou à vice-presidência já passou. Como Hartung admitiu, "a fila anda", mas cargos eletivos não são a única forma de atuar neste cenário.
O ex-governador, pela proximidade que tem com certas lideranças, poderia, por exemplo, ser convidado para integrar um ministério, na hipótese de uma dessas lideranças sagrar-se vencedora nas urnas em 2026. Tarcísio de Freitas, por exemplo, o considera um "mentor".
Além disso, Hartung tem correligionários no páreo pelo Palácio do Planalto, os já citados Ratinho Jr. e Eduardo Leite, que prestigiaram o evento de filiação, na segunda.
Ok. Estou especulando bastante aqui. A chefia de ministérios não é definida apenas por amizade, afinidade ou "mentoria", é um jogo de poder entre forças políticas diversas. Mas Gilberto Kassab é um hábil articulador, conhecido por fazer as coisas acontecerem.
A BASE PRINCIPAL
Na entrevista, o ex-governador frisou que sua "base principal" é São Paulo. Contou que, há seis anos, tem um apartamento na cidade, passa a maior parte do tempo lá e assim vai permanecer, mesmo após a filiação ao PSD.
Ele preside a Ibá, Indústria Brasileira de Árvores, sediada na capital paulista, e participa de conselhos administrativos de empresas.
Alguém que quer mesmo disputar um cargo no Espírito Santo, seja o governo ou o Senado, ficaria mais presente por aqui, certo?
O ato de filiação ao PSD, vale lembrar, ocorreu em São Paulo, não aqui, apesar de o domicílio eleitoral de Hartung não ter mudado.
AS DECLARAÇÕES DE KASSAB
No final do ano passado, ao anunciar que Hartung se filiaria ao PSD, o presidente nacional do partido insuflou especulações, ao afirmar, por exemplo que "o Espírito Santo e o Brasil ganham muito com a volta de Paulo Hartung" e que os eleitores do estado ficariam felizes com uma eventual candidatura ao Palácio Anchieta.
Em entrevista coletiva na segunda-feira, logo após a filiação do ex-governador, porém, o tom de Kassab foi mais comedido:
"Se eu fosse capixaba, iria pedir para ele ser (candidato), mas o partido está feliz porque ele vai, com sua experiência e conhecimento, ajudar muito o Brasil, fazendo dentro do PSD um processo de formação de líderes, para que a gente possa ser exemplo para outros partidos. Ele ser candidato ou não é uma decisão lá na frente, não falamos sobre isso".
O HISTÓRICO
Em 2010, último ano do segundo mandato de Hartung no governo, ele não disputou o Senado, ao contrário do que havia sido especulado e gestado por um bom tempo.
Em 2018, ao fim do terceiro mandato no Palácio, poderia ter concorrido à reeleição, o que optou por não fazer. E anunciou isso em cima da hora, deixando seus aliados em clima de "barata voa", sem saber o que fazer.
É preciso levar em conta também que em 2022 Hartung articulou discretamente para mover as engrenagens da política capixaba.
Sabe-se que ele incentivou a filiação ao PSD e a eventual candidatura ao governo do então superintendente da Polícia Federal, Eugênio Ricas, e fez o mesmo em relação ao ex-prefeito de Linhares Guerino Zanon, já integrante da sigla.
Por fim, Ricas desistiu da empreitada, ficou até meio traumatizado com a experiência. Hartung não defendeu, abertamente, nenhum dos candidatos ao Palácio.
Os aliados dele, Zanon, Audifax Barcelos (na época, filiado à Rede) e Aridelmo Teixeira (Novo), tiveram um desempenho tímido nas urnas.
Claro que cada uma dessas situações envolveu um contexto diferente, mas o fato objetivo é que há um histórico de possíveis candidaturas e de possíveis apoios não consolidados por parte de Hartung.
Para aliados do ex-governador, isso demonstra "desprendimento" em relação ao poder. Para os não tão aliados, são lições de que não é uma boa ideia confiar que Hartung vai participar de uma eleição.
AS RAPOSAS
Diversas raposas políticas capixabas fazem suas próprias apostas, nos bastidores. Algumas acreditam que Hartung não vai ser candidato a nada em 2026.
Outras, que ele até pode concorrer, mas somente "se o cavalo passar arreado", ou seja, se a articulação política para isso transcorrer sem muitos percalços e se a expectativa de vitória for alta.
A MINHA DESCULPA
Como já registrado aqui, creio que Hartung não vai ser candidato em 2026 e que a filiação ao PSD é uma forma de se conectar ainda mais ao debate nacional, potencializando a influência sobre um potencial futuro presidente da República, como Tarcísio de Freitas ou Eduardo Leite.
Como "efeito colateral", creio, até desejado pelo ex-governador, essa movimentação causa instabilidade no tabuleiro político do Espírito Santo.
Posso estar errada? Sim. É arriscado dar palpite faltando mais de um ano para o prazo de registro de candidaturas? Sim. Afinal, muita coisa pode acontecer até lá.
Mas, se eu errar esta previsão, vou usar a clássica desculpa, digo, argumento dos políticos:
"Não fui eu que errei/mudei/caí em contradição, foram as circunstâncias que mudaram".
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.