O dia em que Contarato e Do Val estiveram do mesmo lado
CPI da Covid
O dia em que Contarato e Do Val estiveram do mesmo lado
Senadores do ES se perfilaram contra ataque homofóbico feito por empresário bolsonarista contra o parlamentar da Rede
Publicado em 30 de Setembro de 2021 às 13:24
Públicado em
30 set 2021 às 13:24
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Marcos do Val e Fabiano Contarato durante sessão na CPI da CovidCrédito: Marcos Oliveira/Agência Senado
Os senadores pelo Espírito Santo Fabiano Contarato (Rede) e Marcos do Val (Podemos) têm perfis diferentes, principalmente, quando o assunto é o governo Jair Bolsonaro (sem partido) e a condução do governo federal em relação à pandemia de Covid-19.
A convite do presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (PSD-AM), o senador da Rede ocupou a presidência do colegiado, ao qual Fakhoury prestava depoimento e exibiu o tuíte postado pelo empresário, que dizia o seguinte:
"O delegado, homossexual assumido, talvez estivesse pensando no perfume de alguma pessoa ali naquele plenário".
O comentário fazia referência a um tuíte de Contarato, em que, por erro de grafia, o senador escreveu "estado fragrancial", em vez de estado flagrancial.
"Pegou um Twitter meu, com erro de grafia de rede social, e falou isso. O senhor não é adolescente. A sua família não é melhor que a minha", disse Contarato, ao lado de Fakhoury à mesa.
"O que leva o senhor, que tem filho ... qual a imagem, enquanto pai, enquanto esposo, vai passar para seus filhos? Isso é obedecer o princípio da legalidade. Porque o Supremo Tribunal Federal, o mesmo que o senhor defende extinguir, criminalizou a homofobia comparando-o ao racismo", complementou.
"O senhor pode ter todo o dinheiro do mundo. Tenho minha vida modesta com muito orgulho, cuidando da minha família, meu esposo, meus dois filhos. Eu quero que eles tenham a certeza de que lutei e continuo lutando para diminuir essa desigualdade no Brasil. Eu aprendi que orientação sexual não define caráter, cor da pele não define caráter, poder aquisitivo não define caráter", seguiu.
Assim que Contarato terminou de falar, Do Val se pronunciou, como foi possível ouvir durante a sessão: "Senador Contarato, só pra dizer que o senhor não está sozinho. Nós, senadores, estamos com você nessa luta".
No Twitter mesmo teve gente que se surpreendeu:
Claro que não foi única vez em que Contarato e Do Val se perfilaram em defesa de algo.
Senadores Fabiano Contarato (Rede-ES) e Marcos do Val (PPS-ES) exibem voto em cédula. Eles votaram em Davi Alcolumbre para presidir o SenadoCrédito: Geraldo Magela/Agência Senado
O que chama a atenção, não apenas dos usuários do Twitter, é que estejam juntos numa causa humanitária – o rechaço à homofobia – que encontra pouco eco nas hostes bolsonaristas.
O contexto da manifestação do senador era o debate a respeito de uma "informação" transmitida pelo presidente da República a apoiadores no cercadinho do Palácio do Planalto, quando afirmou que um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) concluiu que metade das mortes por Covid no Brasil teriam sido provocadas por outras doenças.
O TCU jamais emitiu tal relatório. Os "dados", sem qualquer embasamento, foram compilados em um relatório falso por um servidor do Tribunal, que foi afastado.
Voltando ao episódio da CPI da Covid desta quinta, Contarato se postou, como sempre tem feito no mandato, contra o bolsonarismo e seus representantes, públicos ou privados.
O cerne da questão, no entanto, é maior que Bolsonaro, e também maior que o PT (antes que alguém pergunte: "E o PT, hein? E o Lula?"). Não há razoabilidade ou humanidade que caiba em ataques homofóbicos.
Não é sequer racional alguém se incomodar ou fazer "piadas" (não, não são piadas, por isso as aspas) em relação à orientação sexual de outra pessoa, algo que de nenhuma forma diz respeito a quem critica.
Que chegue o dia em que as pessoas não se surpreendam ao ver alguém sendo simplesmente gente.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.