O discurso do isolamento mudou de lugar na Grande Vitória
A política como ela é
O discurso do isolamento mudou de lugar na Grande Vitória
Em campo político distante do governador Renato Casagrande, o prefeito Lorenzo Pazolini é alvo de críticas de (ex) adversários, como o deputado Fabrício Gandini. O chefe do Executivo municipal, por sua vez, diz que a cidade "retomou o protagonismo"
Publicado em 28 de Outubro de 2021 às 02:10
Públicado em
28 out 2021 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
O deputado estadual Fabrício Gandini e o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (na época da foto, ele também era deputado estadual)Crédito: Montagem/A Gazeta
Quando Max Filho (PSDB) era prefeito de Vila Velha e Paulo Hartung (então filiado ao MDB) governava o Espírito Santo, não era raro ouvir que o município canela-verde estava "isolado" devido ao distanciamento político entre os dois. O adjetivo era usado por críticos de Max, que o acusavam de prejudicar a cidade devido a rusgas eleitorais.
Hartung também fazia, por conta própria, manobras de desprestígio, como ao não comparecer às celebrações da Colonização do Solo Espírito-santense.
Os chefes dos Executivos municipais e estaduais agora são outros. Renato Casagrande (PSB) comanda o Palácio Anchieta. Arnaldinho Borgo (Podemos) está à frente da Prefeitura de Vila Velha. O ex-vereador derrotou Max Filho no segundo turno em 2020.
Max e Casagrande já se davam bem. Arnaldinho integra um partido que é aliado de primeira hora do governador e se declara aliado de Casagrande, a quem elogia: "Vila Velha está recebendo investimentos que nunca recebeu".
A palavra "isolamento", no entanto, voltou a ressoar. Não em Vila Velha, mas em relação a Vitória. Pelo menos na boca daqueles que não são próximos ao prefeito da Capital, Lorenzo Pazolini (Republicanos).
"Infelizmente cabe a nós destacar o momento de isolamento em que a cidade de Vitória começa a se destacar", afirmou o deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania), durante a sessão da Assembleia Legislativa da última segunda-feira (25). Ele disputou a prefeitura da Capital em 2020, mas não chegou ao segundo turno.
Pazolini sagrou-se vencedor. Antes, foi deputado estadual, integrou o grupo dos "independentes" e, na prática, fazia oposição a Casagrande. Foi eleito no segundo turno levando a melhor sobre João Coser (PT), que contava com o apoio de integrantes do primeiro escalão do governo Casagrande (já que Gandini, outro aliado, ficou pelo caminho).
Gandini diz que, devido à postura de Pazolini, a Prefeitura de Vitória deixa de pleitear verbas do governo do estado. Citou como exemplo o Fundo Estadual de Apoio à Ampliação e Melhoria das Condições de Oferta da Educação Infantil no Espírito Santo (Funpaes), para o qual, segundo o parlamentar, a prefeitura da Capital não inscreveu propostas.
Logo após eleito, Pazolini adotou um discurso moderado, sinalizando que águas passadas não movem moinho. O Republicanos, no entanto, não elegeu somente ele. Foram dez prefeitos ao todo naquele ano, o que rendeu à sigla o segundo lugar do pódio, atrás apenas do PSB de Casagrande, que emplacou 13 prefeitos.
O Republicanos já perdeu dois dos dez prefeitos que elegeu. O partido, aparentemente, tem planos mais ambiciosos. O presidente da Assembleia, Erick Musso, que é do Republicanos, movimenta-se de olho na Câmara dos Deputados ou no Palácio Anchieta. Assim, coloca-se em rota de colisão com Casagrande.
Como tem pouca projeção fora de seu reduto eleitoral, Aracruz, Erick tem pegado carona nas agendas de Pazolini, em Vitória. O prefeito também já está mais afiado. Nada paz e amor. Tem criticado, assim como Erick, de uns meses pra cá, principalmente, a área da Segurança Pública em âmbito estadual.
Alguns episódios pontuais mostram que a distância entre a Prefeitura de Vitória e o Palácio Anchieta é maior que os 3,8 quilômetros que separam as sedes dos dois Poderes.
"Estávamos na iminência de ter verbas bloqueadas. Essa não é a Vitória que se reúne em palácio no Centro da cidade às vésperas da eleição para anunciar obra que nunca saiu e que nunca sairá do papel, apenas para aumentar voto para eleger quem eles pensam que deveria ser eleito e para enganar a população", bradou o prefeito, em discurso durante solenidade da prefeitura no dia 30 de setembro.
O vídeo do discurso foi compartilhado em grupos de WhatsApp, inclusive pelo irmão do prefeito, Fred Pazolini, em tom maniqueísta com a legenda "Vitória sobre o Palácio do Mal", como a coluna mostrou, na ocasião.
A prefeitura alegou que o governo estadual demorou a pedir oficialmente a cessão e aí Inês já era morta (é apenas um ditado popular, gente, não é mais um feminicídio, não).
O prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio (DEM), que já era aliado de Casagrande desde o mandato anterior, na Assembleia, entrou em cena e ofereceu uma área, obviamente, em Cariacica, como a coluna mostrou.
Na segunda-feira, foi firmado o acordo entre o estado e o município para doação do terreno. A área cedida, de cerca de 8,5 mil metros quadrados, fica às margens da BR-262, ao lado da sede da prefeitura, no bairro Alto Lage. A construção do Centro Integrado está prevista para começar em 2022.
"O prefeito (Euclério), após verificar que a Prefeitura de Vitória abriu mão, prontamente cedeu o terreno", afirmou Gandini.
"VITÓRIA RETOMOU O PROTAGONISMO"
Pazolini refutou a tese de que Vitória ficou isolada. A cidade é uma ilha, mas, por meio de aterros, conta com uma parte continental. Não é a geografia que Pazolini pontuou, contudo.
"O Funpaes exige transferência fundo a fundo e esse fundo (o da prefeitura) teria que existir desde 2018. Não quero falar de outras gestões, mas nós assumimos a prefeitura em 2021", afirmou.
"A cidade retomou o protagonismo", cravou o prefeito. "A Guarda Municipal de Vitória é referência, estamos, inclusive, formando a Guarda Municipal de Cariacica. Somos referência no Sudeste, por exemplo, em relação à vacinação (contra a Covid-19). E isso com dez meses de mandato", prosseguiu.
"Reduzimos os cargos comissionados em quase 50%. Por isso, temos capacidade de investimento com recursos próprios
Além disso, Pazolini sustentou que não cortou o diálogo com o governo estadual e enviou à coluna ofícios entregues a secretarias do Executivo estadual com solicitações de apoio para reforma de escolas, adequação do calçadão de Camburi, recebimento de valores apontados em emendas parlamentares, da época que Pazolini era deputado, para compra de equipamentos para a Guarda Municipal, entre outros.
"Apresentei nosso portfólio de projetos. Participei de uma reunião no Palácio Anchieta, em março. E os investimentos vão chegar", salientou o prefeito.
"ELES" E "NÓS"
O presidente estadual do PSB, Alberto Gavini, já disse à coluna, em relação ao Republicanos e a Pazolini o seguinte: "Eles estão se colocando como adversários, nós (o governo do PSB) não. Nós buscamos a prefeitura para fazer várias coisas. Eles que não querem".
Pazolini nunca colocou as coisas, abertamente, nesses termos. Não compareceu à inauguração de uma praça feita pelo governo estadual do Portal do Príncipe, em Vitória – um dos motivos da queixa de Gavini – e justificou, à coluna, que estava em outros compromissos da prefeitura naquele domingo.
Renato Casagrande e Lorenzo Pazolini no Palácio Anchieta, no final de 2020Crédito: Adriano Zucolotto/Secom
Aliás, no mesmo dia da inauguração da praça, ele publicou um vídeo no Instagram, com viaturas da Guarda ao fundo e exortou o governo a participar da força-tarefa empreendidas pela Polícia Federal no Espírito Santo, que é integrada pela Guarda da Capital. Pediu que o governo Casagrande tenha "humildade" e não "soberba".
Enquanto isso, Euclério apareceu ao lado de Casagrande e outros aliados palacianos na solenidade de início das obras de revitalização da Avenida América, em Cariacica. A mesma ocasião em que a doação do terreno para a construção do centro da Polícia Civil foi formalizada.
Depois, o prefeito ainda enviou vídeo no WhatsApp com a mão no ombro do governador: "Governador, obrigado, o senhor tem sido um parceiro nosso".
O que se espera é que a decisão sobre investir ou não em uma cidade não seja balizada na posição política do prefeito. Afinal, o investimento é para os moradores do município. "O governador investe em Vitória, não tem isso de amigo ou inimigo", garantiu o presidente estadual do PSB.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.