O futuro da direita no ES com Bolsonaro fora das urnas
Inelegível
O futuro da direita no ES com Bolsonaro fora das urnas
Ex-presidente está inelegível até 2030 após usar a máquina pública para tentar minar o sistema eleitoral. Seus adeptos, contudo, seguem no jogo
Publicado em 05 de Julho de 2023 às 10:25
Públicado em
05 jul 2023 às 10:25
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Jair Bolsonaro, ex-presidente da RepúblicaCrédito: Isac Nóbrega/Divulgação
Já escrevi diversas vezes que o bolsonarismo é maior que Jair Bolsonaro (PL). Os valores que movem os eleitores do ex-presidente da República não desapareceram quando ele perdeu o pleito de 2022 e tampouco no último dia 30, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o tornou inelegível por oito anos.
Recente pesquisa Datafolha mostrou que 29% dos eleitores se identificam como petistas (não necessariamente são filiados ao Partido dos Trabalhadores) e 25% abraçam o rótulo bolsonarista.
Esse, porém, talvez nem seja o termo mais preciso para descrever os adeptos do populismo de extrema direita.
O vácuo deixado pelo ex-presidente no tabuleiro eleitoral vai ser preenchido e já há movimentações e especulações de nomes, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Todos candidatos a pai, ou mãe, dos órfãos de Jair.
A próxima eleição, em 2024, contudo, não vai ser para escolher quem vai comandar a Presidência da República e sim os futuros vereadores e prefeitos das cidades brasileiras.
No Espírito Santo, há diversos expoentes do bolsonarismo, que orbitam da extrema direita à centro-direita, embora nenhum deles aceite o primeiro rótulo.
Considerando que, se dependesse apenas dos capixabas, Bolsonaro teria sido reeleito, ainda no primeiro turno, com 52,23% dos votos, os candidatos a esses cargos não vão se furtar a se associar a ele.
Via de regra, as eleições municipais não seguem os mesmos ditames das nacionais, mas há quem aposte que o componente ideológico vai ser um fator relevante desta vez, principalmente em Vitória.
Na Câmara da Capital e na Assembleia Legislativa, vereadores e deputados fazem discursos que parecem ser mais adequados à Câmara dos Deputados, criticando ou elogiando o presidente Lula (PT) ou seu antecessor.
A inelegibilidade de Bolsonaro dá o recado de que ataques ao sistema eleitoral cheios de desinformação não serão tolerados.
Mas, por outro lado, reforça a narrativa – palavra da moda – que ele é "perseguido pelo sistema", embora integre esse mesmo "sistema" há décadas.
É algo que pode calar fundo nos seguidores da extrema direita, que, no Espírito Santo, representam um número significativo de eleitores.
A transferência de votos não é uma ciência exata. Bolsonaro pode não conseguir eleger quem quiser para a presidência da República em 2026, mas pode, como ocorreu em 2022, ajudar outros adeptos a obter um mandato.
A direita tem uma oportunidade após a inelegibilidade de seu principal líder, que é a de reforçar o campo democrático e se afastar do radicalismo e do reacionarismo, que é diferente de conservadorismo.
A julgar pelos discursos na Câmara de Vitória e na Assembleia Legislativa, porém, não parece ser esse o caminho escolhido pelos políticos locais.
Em 2020, a estratégia não deu muito certo. O deputado estadual Capitão Assumção (PL), um dos principais bolsonaristas do estado, ficou em quarto lugar na corrida pela Prefeitura de Vitória, com 7,22% dos votos.
Assumção é, novamente, cotado para disputar a prefeitura da Capital. Mas o PL agora tem também o deputado federal Gilvan da Federal.
Outros expoentes da direita, os deputados federais Evair de Melo e Da Vitória, ambos do PP, já ensaiam disputar o governo estadual em 2026.
Evair aderiu a um projeto de lei para anistiar Bolsonaro e reverter a decisão do TSE, embora a iniciativa tenha poucas chances de prosperar. Da Vitória, por sua vez, em nota enviada à reportagem de A Gazeta, lamentou a inelegibilidade do ex-presidente e avaliou que ele "continuará a ser a principal liderança de direita e seu apoio nas próximas eleições será decisivo".
Ou seja, ninguém vai ficar menos bolsonarista só porque Bolsonaro está fora do jogo.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.