O governo e a Assembleia do ES ganharam. E também perderam
Análise
O governo e a Assembleia do ES ganharam. E também perderam
Eleição da Mesa Diretora ocorreu em chapa única, com vitória do grupo encabeçado pelo casagrandista Marcelo Santos (Podemos). Mas concessões foram feitas. Veja a análise
Publicado em 02 de Fevereiro de 2023 às 02:10
Públicado em
02 fev 2023 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
O governador Renato Casagrande reuniu-se no Palácio Anchieta com os novos integrantes da Mesa Diretora da AssembleiaCrédito: Adirano Zucolotto/Governo ES
Não foi fácil. Exigiu muita saliva, exposição, intromissão, climão, mas foi. O governo Renato Casagrande (PSB) conseguiu emplacar a eleição da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa em chapa única nesta quarta-feira (1º). E com uma composição simpática à gestão estadual.
O risco de reforço à oposição, o que ocorreria se Vandinho Leite (PSDB) lançasse uma chapa para concorrer contra a liderada por Marcelo Santos (Podemos), foi, aparentemente, estancado.
Vandinho, até o último dia 23, era o favorito para comandar o Legislativo estadual. Diante de uma articulação errática por parte do Palácio Anchieta, o tucano foi ganhando espaço.
E se aliou a opositores de Casagrande, como Capitão Assumção (PL). Quando reparou no que estava para acontecer, o governo agiu.
Governos, em geral, atuam nos bastidores para garantir que a chefia do parlamento não recaia sobre alguém com postura arisca. Frise-se: nos bastidores.
Mas, para evitar um mal maior, lá foi Casagrande. Aí a balança passou a pender para o lado de Marcelo.
Ocorre que, como o próprio Marcelo Santos lembrou, em outro contexto, nesta quarta ao falar com a imprensa após ser eleito presidente, "o governador não vota".
Cabe, formalmente, apenas aos 30 deputados estaduais escolher quem vai comandar a Assembleia.
Não à toa, logo que a interferência do governador se tornou pública, aliados de Vandinho não contiveram a ira.
O governador diz que os termos da negociação ficaram a cargo do parlamento.
Danilo Bahiense (PL), 2º vice-presidente, contou à coluna que as comissões temáticas da Assembleia entraram na conversa.
“Acertamos com o deputado Marcelo algumas comissões importantes para os deputados que estavam com Vandinho. Eu, por exemplo, acertei com Marcelo a Comissão de Segurança Pública e Combate à Corrupção”, revelou o deputado.
Marcelo pontuou ainda que se comprometeu a fazer uma gestão compartilhada, por meio da qual deve submeter decisões de mais impacto ao Colégio de Líderes, formado pelos parlamentares que representam os partidos.
O QUE O GOVERNO GANHOU
Como resultado, Casagrande tem um deputado mais governista que Vandinho à frente da Assembleia, cercado por João Coser (PT) e Janete de Sá (PSB), como 1º e 2º secretários. Esses são casagrandistas de carteirinha.
Cabe ao presidente decidir quando os projetos, inclusive os enviados pelo Executivo, vão ser votados.
Ele pode fazer isso em momentos mais propícios para que sejam aprovados. Ou sabotar as iniciativas do governador.
A vitória da chapa de Marcelo, desde que Casagrande pediu votos para ele, já era dada como certa, mesmo se Vandinho o desafiasse.
Ao conseguir costurar um acordo entre os dois, entretanto, o Palácio Anchieta evitou que a oposição se unisse em torno do tucano. Ainda que minoritário, o grupo poderia fazer barulho e gerar dissabores.
Mais que isso, mandou um recado numérico forte. A chapa de Marcelo foi eleita com 27 votos a favor, apenas dois contrários e uma abstenção.
DO QUE O GOVERNO ABRIU MÃO
Governador Renato Casagrande durante entrevista coletiva após a posse dos deputados estaduaisCrédito: Fernando Madeira
O governo cedeu, por outro lado, ao concordar com a cessão de espaços na Mesa a aliados de Vandinho, leia-se Hudson Leal e Danilo Bahiense.
Isso, entretanto, era o mínimo para que houvesse uma chapa de consenso.
O que, para esta colunista, mais "pegou" nessa história foi a exposição a que o governador se submeteu ou foi submetido e a intromissão desbragada nos assuntos Legislativos.
Não é postura das mais republicanas. Embora talvez fosse difícil achar outra saída.
"Tudo fica mais fácil de ser analisado depois que o fato acontece. Quando se tem que tomar a decisão na hora é mais difícil", ponderou um palaciano à coluna.
"Falando agora, podemos encontrar erros e acertos. Se alguém disser que acerta tudo o tempo todo é mentiroso. O governador tentou ficar o mais isento possível, mas a base do governo cobrou uma posição. Os deputados querem proteção", acrescentou a mesma fonte.
O QUE A ASSEMBLEIA GANHOU
Diversos deputados, entre apoiadores iniciais de Vandinho e os que sempre estiveram com Marcelo, avaliaram, à coluna, que foi melhor a eleição ter ocorrido em chapa única.
Se houvesse uma disputa oficial, as cicatrizes da briga poderiam perdurar.
E, como eles têm que conviver durante quatro anos e não são um grupo grande, como a Câmara dos Deputados, que tem 513 integrantes, é melhor para a lida diária quando há consenso em questões sensíveis, ainda que seja um consenso forçado pelas circunstâncias.
Novidade isso. Enquanto era vice de Erick Musso, ele não contou essa história publicamente. Tampouco o ex-presidente o fez.
Pode ser que Marcelo tenha que pedir uma verba extra ao governo para organizar as contas. Certamente, não vai ficar a ver navios.
DO QUE A ASSEMBLEIA ABRIU MÃO
Deputados estaduais durante eleição da Mesa Diretora da AssembleiaCrédito: Carlos Alberto Silva
As palavras harmonia e independência têm sido mencionadas à exaustão ultimamente. A referência ao ideal de relacionamento entre Poderes e instituições foi feita, como a coluna mostrou, na sessão especial do Tribunal de Contas na terça-feira (31).
Isso se repetiu nesta quarta na posse dos deputados e na eleição da Mesa da Assembleia. Tanto o novo presidente da Casa quanto Casagrande falaram na importância desses dois pilares – harmonia e independência.
O Legislativo deve estar mais em harmonia com o Executivo agora do que estaria se Vandinho fosse eleito ou se tivesse disputado contra Marcelo. Já o quesito independência deixa a desejar.
Afinal, ainda que por caminhos tortos, a Assembleia fez o que Casagrande ditou.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.