O que diz o novo desembargador do TJES sobre "ativismo", produtividade e a polêmica lista
Entrevista exclusiva
O que diz o novo desembargador do TJES sobre "ativismo", produtividade e a polêmica lista
Alexandre Puppim chegou à Corte por meio da regra do Quinto Constitucional, após figurar na lista sêxtupla eleita pela OAB-ES e na tríplice, formada pelo próprio TJ
Publicado em 06 de Maio de 2025 às 03:10
Públicado em
06 mai 2025 às 03:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
O desembargador do TJES Alexandre PuppimCrédito: Divulgação/TJES
Após 28 anos de advocacia, Alexandre Puppim tomou posse como desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) no último dia 29, pela regra do Quinto Constitucional. Ele chegou à Corte na esteira de um processo eleitoral conturbado realizado pela Ordem dos Advogados do Brasil — seccional Espírito Santo (OAB-ES) e foi escolhido pelo governador Renato Casagrande (PSB) para ocupar a cadeira.
O novo desembargador pode ficar no cargo até completar 75 anos de idade, quando a aposentadoria é obrigatória no serviço público. Como está prestes a celebrar o 51º aniversário, Puppim deve integrar o TJES até 2049.
Em entrevista exclusiva à coluna, concedida por escrito, o magistrado rebateu críticas ao chamado "ativismo judicial", afirmou que pretende colaborar para dar mais rapidez às decisões e considerou que "o volume de demandas" é o maior desafio do Judiciário estadual.
Puppim também respondeu sobre a controversa lista sêxtupla eleita pela OAB-ES, na qual o nome dele foi incluído, e a quase reviravolta na disputa pela vaga de desembargador.
"Foi um processo justo, com igualdade de armas entre todos os que disputaram a vaga"
Alexandre Puppim - Desembargador do TJES, sobre a lista séxtupla eleita pela OAB-ES
O novo desembargador havia atuado como advogado de Casagrande — em uma causa particular, não relativa à administração estadual — e contava, nos bastidores, com o apoio de aliados do chefe do Executivo estadual, como o secretário estadual de Saúde, Tyago Hoffmann, e o presidente da Cesan, Munir Abud.
Antes de o nome de Alexandre Puppim chegar à mesa do governador na corrida pela vaga no TJ, entretanto, teve que passar pelo crivo da OAB-ES. A Ordem elegeu, durante a presidência de José Carlos Rizk Filho, seis advogados candidatos a desembargador. A sucessora dele, Erica Neves, porém, cogitou desfazer tudo e pedir a lista de volta ao Tribunal.
A lista, de acordo com Erica, tinha "indício de imoralidade", por ter sido eleita paralelamente à corrida pelo comando da própria OAB-ES, da qual Rizk Filho participou, e por não ter paridade de gênero, um número igual de candidatos homens e mulheres.
Alguns advogados até acionaram a Justiça Federal, sem sucesso, para anular o processo.
Após o TJES eleger, entre os seis, três, o então advogado foi alçado ao primeiro lugar, mas com um placar apertado. Recebeu 16 votos dos desembargadores, ao passo que Vinicius Pinheiro ficou com 15 e Erfen Ribeiro, 14.
Erica Neves considerou, na ocasião, que eram todos "bons nomes".
Casagrande não tinha que escolher o mais votado da lista tríplice, mas optou por Puppim.
Confira a entrevista concedida por Alexandre Puppim:
Por que o senhor escolheu cursar Direito? Outras pessoas da família seguiram previamente esse caminho?
Tinha como ideia inicial ser professor, tanto que cheguei a cursar História. Mas o interesse pelo Direito surgiu de forma espontânea, sem influência direta da família. Uma paixão iniciada ainda nos bancos da UFES, quando tive o privilégio de ser aluno de João Batista Herkenhoff, e que cresceu a partir do exercicio da advocacia e atuação no meio jurídico.
A carreira na magistratura era um plano havia muitos anos? Ou uma mudança de rota almejada mais recentemente?
Exerci a advocacia com entusiasmo e dedicação por quase três décadas, período em que fui profundamente realizado profissionalmente.
No entanto, desde a minha participação na disputa pela vaga do Quinto Constitucional anterior a esta — ocasião em que tive a honra de integrar a lista tríplice — passei a sentir, de forma cada vez mais clara, o chamado da magistratura. Desde então, amadureci o desejo de contribuir com a Justiça a partir da função jurisdicional, como uma continuidade natural do compromisso que sempre tive com o Direito e com a sociedade.
E por que deixar a advocacia, uma vez que o senhor é/era integrante de um escritório bem sucedido?
Foram justamente as realizações e as experiências acumuladas ao longo de uma carreira bem-sucedida na advocacia que me levaram a enxergar na magistratura um novo caminho de dedicação ao Direito e ao interesse público. Aliás, entendo que essa é a essência do Quinto Constitucional.
Acredita que a experiência na advocacia vai influenciar a atuação como desembargador?
Sem dúvida, a experiência na advocacia certamente influenciará positivamente minha atuação no Tribunal. Trago comigo a vivência prática, a sensibilidade diante das angústias das partes e a compreensão do papel essencial do advogado no processo. Espero contribuir com meus pares, trazendo essa bagagem construída ao longo de uma atuação intensa e dedicada.
Como avalia o processo eleitoral na OAB-ES que resultou na lista sêxtupla? O fato de a entidade, a atual gestão da seccional, ter cogitado pedir a lista de volta ao TJ causou alguma instabilidade?
Penso que foi um processo justo, com igualdade de armas entre todos os que disputaram a vaga. Não houve demérito a nenhum dos candidatos, aliás, todos com plena capacidade para assumir o cargo.
Acredito que a classe deve discutir mais adiante se a forma a ser adotada para o pleito do Quinto deve ter alguma mudança. Essa discussão, sem dúvida, servirá para engrandecer ainda mais a instituição OAB.
O presidente do TJES, Samuel Meira Brasil Jr., o desembargador Alexandre Puppim, e a presidente da OAB-ES, Erica Neves, durante a posse administrativa de Puppim no TribunalCrédito: Divulgação/TJES
Como foi o contato com o governador Renato Casagrande antes do anúncio da escolha feita por ele? O senhor foi recebido pelo governador no Palácio, imagino, após a eleição da lista tríplice. Mas já havia atuado como advogado para ele, certo?
Após a formação da lista tríplice, fui recebido no Palácio Anchieta, em uma conversa serena e respeitosa. O governador Renato Casagrande tem uma grande sensibilidade e responsabilidade institucional e seus questionamentos foram voltados às aptidões necessárias para o desempenho do cargo de desembargador.
Tive, sim, a oportunidade de atuar como seu advogado em uma causa particular, o que reforçou minha admiração por sua postura equilibrada e pela confiança que sempre demonstrou nas instituições.
O Judiciário tem ganhado cada vez mais protagonismo no Brasil, especialmente devido à atuação do Supremo Tribunal Federal e ao fato de partidos e políticos buscarem na Corte a solução de conflitos que envolvem outros Poderes e instituições. O senhor avalia que há uma excessivo “ativismo judicial”, como alegam alguns?
O Judiciário, como um dos Três Poderes, cumpre a função essencial de interpretar e aplicar as leis, garantindo a pacificação dos conflitos e a preservação dos direitos fundamentais. Falar em “ativismo judicial” pode ser impreciso quando o que está em jogo é justamente a mediação de diferentes interpretações sobre normas aprovadas pelo Legislativo e sancionadas pelo Executivo.
Esse é o exercício legítimo da jurisdição em um Estado Democrático de Direito. A Justiça deve reconhecer os seus limites perante os demais poderes, mas não pode se omitir diante das demandas da sociedade.
"Atuar com firmeza e imparcialidade não é ativismo, é cumprir o seu dever constitucional"
Alexandre Puppim - Desembargador do TJES
Em termos práticos, no que se refere ao primeiro e segundo graus do Judiciário estadual no Espírito Santo, as necessidades mais prementes, parece-me, são aumentar a celeridade e a produtividade. Como desembargador, como o senhor poderia contribuir para isso?
Pretendo somar esforços para dar mais celeridade e aumentar a produtividade no Judiciário. Essa é uma tarefa já adotada como prioridade pelo TJES, que vem sendo conduzida com muita habilidade pelo nosso presidente, o desembargador Samuel Meira Brasil Jr, pela sua equipe e por todos que compõem o tribunal.
Trata-se de uma luta da sociedade capixaba e brasileira. Estamos todos comprometidos com o objetivo de melhor atender a sociedade, com decisões mais céleres sem prejuízo da qualidade.
Na avaliação do senhor, quais são os principais desafios do Judiciário estadual?
Entendo que o volume de demandas é o maior desafio. Para enfrentá-lo, devemos estimular a conciliação e a mediação, bem como aplicar os recursos mais modernos disponíveis para aumentar a produtividade e atribuir celeridade. As bases para isso já foram lançadas e espero poder dar a minha contribuição nesse importante trabalho.
O TJES tem implementado comarcas digitais, em vez da integração de comarcas gestada em 2021, que levaria ao fechamento de fóruns. O senhor avalia que as comarcas digitais são uma boa iniciativa? Por que?
O que se propõe é dar mais rapidez e eficiência na tramitação e julgamento de processos. O objetivo é favorecer a população e é, sem dúvida, uma iniciativa válida. Lembrando que os fóruns permanecerão abertos, o que mantém o atendimento pessoal, humanizado, atendendo àqueles que não se sintam confortáveis com os meios digitais.
Acredito na evolução desse modelo, de forma a atender a todas as partes envolvidas. As críticas devem ser consideradas e utilizadas como referência para o aprimoramento constante.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.