O que Lula fez e o que deixou de fazer em visita ao Espírito Santo
Linhares
O que Lula fez e o que deixou de fazer em visita ao Espírito Santo
Passagem do presidente da República pelo ES foi marcada por críticas a Trump e a Bolsonaro, mas não apenas isso
Publicado em 12 de Julho de 2025 às 13:08
Públicado em
12 jul 2025 às 13:08
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Em Linhares, Lula usa boné "O Brasil é dos brasileiros" em meio a crise com Donald TrumpCrédito: Ricardo Medeiros
A campanha do governo federal "O Brasil é dos Brasileiros" foi lançada em abril e, até então, não fez muito sucesso. Aliás, os bonés utilizados pelo presidente Lula (PT) e outros integrantes da gestão ostentando a frase poderiam facilmente ser confundidos com uma mensagem xenofóbica, ainda que não fosse essa a intenção da agência de publicidade que criou o mote.
"O Brasil é dos Brasileiros" ganhou um improvável impulso, porém, graças ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que impôs um tarifaço ao Brasil como forma de chantagem para tentar angariar benefícios para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Ao subir no palco em Linhares, na sexta-feira (11), Lula mostrou que pretende fazer do limão uma limonada. Se a tarifa de 50% de importação a produtos brasileiros for mesmo aplicada pelos americanos, o agronegócio, a siderurgia e o setor de rochas vão sofrer, no Espírito Santo e no Brasil, com reflexos ruins na economia e, consequentemente, na gestão do petista.
Politicamente, entretanto, o presidente ganhou a oportunidade de apontar Trump como um inimigo em comum de todos os brasileiros e os Bolsonaro como causadores do problema. Uma estratégia óbvia e potencialmente eficiente.
Assim, Lula usou o boné azul com a frase da campanha por boa parte do tempo em Linhares. E não foi só isso. Os discursos dele, dos ministros e de quase todos os participantes do evento foi permeado por críticas a Trump, a Bolsonaro e companhia.
O chefe do Executivo federal fez na cidade capixaba a primeira participação em evento público desde o anúncio do tarifaço e não perdeu a oportunidade. Desafiou o presidente dos EUA, afirmou que o Brasil "não vai baixar a cabeça", apelou ao nacionalismo, chamou Bolsonaro de "coisa" e ainda imitou e ironizou um dos filhos do adversário: "Trump, solta meu pai".
A visita presidencial nada tinha a ver, oficialmente, com o tarifaço. Lula foi a Linhares anunciar o início do pagamento do Programa de Transferência de Renda para agricultores familiares e pescadores do Espírito Santo no âmbito do Novo Acordo do Rio Doce, voltado à reparação socioeconômica dos atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG).
A plateia abrigada no Parque de Exposições da cidade foi composta por pessoas afetadas pelo desastre, políticos locais e, principalmente, por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e sindicalistas.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao lado do governador Renato Casagrande durante visita a Linhares (ES)Crédito: Ricardo Medeiros
Os petardos desferidos contra Trump e Bolsonaro foram recebidos efusivamente. Mas Lula sabe que só isso não basta, considerando que a gestão é mal avaliada pela população em geral.
O presidente, então, apelou a medidas populares, ou populistas. Citou a aplicação de descontos na conta de energia elétrica para pessoas que consomem pouco, voltou a prometer a redução do preço do gás de cozinha e avisou que, em breve, pretende lançar um programa de financiamento de motocicletas elétricas para entregadores.
Se essas ações vão melhorar a avaliação do governo ou proporcionar dividendos eleitorais, só esperando para ver. Mas alguns sinais preocupantes para o petista já podem ser observados.
Lula conseguiu capitalizar politicamente em relação ao tarifaço, mas não "furar a bolha", ao menos não no Espírito Santo.
AUSÊNCIAS
Somente os fãs mais aguerridos da família Bolsonaro poderiam colocar o bem-estar do clã acima dos interesses de toda a população. Ocorre que muitos deles vivem aqui no estado.
O palanque de Lula em Linhares foi formado, basicamente, por parlamentares do PT. A deputada estadual Camila Valadão (PSOL) e o deputado federal Paulo Foletto (PSB) foram exceções, mas integram partidos de esquerda e centro-esquerda.
Em dezembro de 2023, o presidente participou da inauguração do Contorno do Mestre Álvaro, na Serra. Na ocasião, políticos de centro-direita marcaram presença, como os deputados federais Gilson Daniel (Podemos) e Da Vitória (PP).
Desta vez, o Fórum Capixaba de Segurança Pública, realizado em Vitória no mesmo dia da visita de Lula a Linhares, veio a calhar. Da Vitória participou do evento, organizado pelo PP, na Capital. Assim como o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB), que já não havia prestigiado a visita de Lula em 2023.
Em dado momento, as presenças dos deputados federais Victor Linhalis (Podemos) e Amaro Neto (Republicanos) chegou a ser mencionada lá em Linhares, ao microfone. Foi um erro do cerimonial, eles não estavam lá.
FOI, MAS NÃO POSTOU
O prefeito de Linhares, Lucas Scaramussa, durante evento com participação de LulaCrédito: Instagram/@lulaoficial
O prefeito da cidade, Lucas Scaramussa (Podemos), marcou presença e fez um discurso simpático a Lula. Elogiou programas do governo federal, como o Prouni, e afirmou: "A gente não precisa, na política, de intimidade, a gente precisa de soluções para problemas comuns".
O vídeo do discurso de Scaramussa até foi publicado nos stories do Instagram de Lula. Na rede social do próprio prefeito, entretanto, não há nenhum registro da participação dele ou do início dos pagamentos da reparação às pessoas atingidas pelo desastre de Mariana.
GRITOS DE GUERRA
A plateia estava mais empolgada que o prefeito. Entoou gritos tradicionais, como "Olê, olê, olá, Lula, Lula", incorporou o "Sem anistia!" e emendou "É Lula outra vez, 2026".
SEM ENTREVISTA
Lula não concedeu entrevista à imprensa. Após discursar, foi para o Aeroporto de Linhares e partiu de volta a Brasília.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.