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Investigação em curso

Operação da PF dá a Marcos do Val um recado e uma narrativa

Mandados cumpridos com autorização do STF mostram ao senador do ES que participar de trama para impedir a posse de um governo eleito ou mentir, "estrategicamente" sobre isso tem um preço. Mas também entregam de bandeja o reforço a uma teoria da conspiração

Publicado em 15 de Junho de 2023 às 19:34

Públicado em 

15 jun 2023 às 19:34
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Senador Marcos do Val
Senador Marcos do Val na última terça-feira (13) Crédito: Pedro França/Agência Senado
Como analisei, em fevereiro, ao menos desde que Marcos do Val (Podemos) admitiu ter mentido, deliberada e "estrategicamente", sobre um plano de golpe de Estado que, na verdade, segundo ele, era uma tentativa de impedir o trabalho do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, o senador do Espírito Santo carece de credibilidade.
Foram tantas as versões contadas pelo parlamentar sobre o que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) disse ou deixou de dizer e o que Moraes fez ou deixou de fazer, que poderiam compor o roteiro de um filme ambientado em um multiverso, como está na moda. Mas isso seria assunto para o meu colega Rafael Braz.
O senador protagonizou, ainda, outras narrativas, como um relatório secreto da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que dizia ter em mãos e derrubaria o presidente Lula (PT) e o ministro Flávio Dino (PSB). A foto do "relatório" postada por Do Val no Twitter, no entanto, era a imagem de um calendário da agência de 2023, desses que marcam os dias e os meses do ano.
Quando a atuação, no mínimo, suspeita do então ministro do Gabinete de Segurança Institucional de Lula, Gonçalves Dias, no dia 8 de janeiro, em meio à invasão das sedes dos Três Poderes, foi revelada pela imprensa, as teorias de Do Val ganharam força. Houve um quê de "eu já sabia", embora as teses do senador não tenham sido provadas até então.
Recentemente, Do Val voltou aos holofotes após publicar uma foto em que comparava o volume da própria sunga na praia ao volume da sunga do ministro da Justiça. Dino passou a ser uma ideia fixa. E o senador, motivo de chacota.
Eis que, nesta quinta-feira (15), a Polícia Federal, que está sob o guarda-chuva do Ministério da Justiça, foi às ruas cumprir três mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Marcos do Val, em Brasília e no Espírito Santo.
A corporação pediu autorização a outra autoridade pública por quem Do Val tem certa fixação, Moraes. A operação cai como uma luva para as histórias mirabolantes do senador.
Nada a ver com sungas de praia, quero crer.
Mas, agora, o representante do Espírito Santo vai poder argumentar que estava certo sobre tudo, que "Lula tentou comprá-lo por R$ 30 milhões", que entre os que tentaram derrubar a República estavam aliados do petista, que querem impedir o senador de participar da CPMI do 8 de janeiro etc.
E que, por denunciar todas essas tramoias, ele, Do Val, é perseguido pela PF de Dino e pelo ministro do Supremo. O fato de o perfil do Twitter do senador ter sido tirado do ar por decisão judicial, então? "Censura!".
Os mandados, na verdade, têm relação com inquérito aberto por Moraes após o próprio Do Val afirmar, em meio àquelas várias versões, que tentou afastar o ministro das investigações que conduz no Supremo. Ou que foi coagido por Bolsonaro a auxiliar num golpe de Estado. Ou que foi convidado pelo então deputado federal Daniel Silveira (PTB) a fazê-lo.
Se participou de qualquer dessas coisas, cenas nas quais, frise-se, o senador mesmo se colocou, espontaneamente, não há outro caminho a não ser investigação e eventual punição.
A Polícia Federal chegou a pedir a prisão do parlamentar, o que foi negado por Alexandre de Moraes. Dois celulares foram apreendidos em Vitória.
Dessa forma, Do Val descobre, na prática, que falar, "postar" e prestar depoimento à PF sobre versões de histórias sem cabimento, com objetivos tão graves, é grave. 
O inquérito apura a prática de quatro crimes, entre eles, associação criminosa e tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito.
O foro para autorização de investigação e julgamento de senadores é o STF. Portanto, tal apuração somente poderia acontecer no âmbito da Corte.
Os mandados foram cumpridos no dia do aniversário de Do Val. Ele completou 52 anos nesta quinta.
A comemoração já estava marcada para sexta (16), em Vitória, mesma ocasião do lançamento de um livro que que registra "a trajetória profissional e os quatro primeiros anos de mandato" do parlamentar. 
Tal "coincidência" é só mais um ingrediente da narrativa que vai ser reforçada.
É claro que, principalmente, diante da já abalada credibilidade do senador, esses discursos se fortalecem apenas na bolha "bolsonarista", ou "retrógrada", que consome desinformação e não se preocupa com lógica ou contexto.
Mas essa bolha não é insignificante. O senador sabe disso.
Os movimentos "friamente calculados" de Do Val, frequentemente, resultam em reveses para ele mesmo. 
Mas apelar para teorias da conspiração é uma estratégia antiga e testada. No Brasil, funciona com muita gente.
O fato de Moraes se colocar no centro das atenções não ajuda. Isso sem contar as decisões "copia e cola" que o ministro tem assinado em relação aos denunciados pela Procuradoria Geral da República por participação no 8 de janeiro.
Não é, certamente, o caso de Do Val. Além de figurar, por enquanto, apenas como investigado, a situação dele é deveras peculiar.
"É UMA TENTATIVA DE TENTAR ME INTIMIDAR"
A assessoria de imprensa do senador informou à reportagem de A Gazeta, à tarde, que ele não iria se manifestar, por enquanto, sobre a operação.
Mas, no início da noite, concedeu entrevista à GloboNews.
"(A operação) é uma tentativa muito clara de tentar me intimidar", afirmou Do Val, enquanto era questionado pela jornalista Natuza Nery se mentiu ou não sobre a tentativa de golpe de Estado ou tentativa de atrapalhar o trabalho do STF.
O senador esquivou-se, disse que, em entrevistas à imprensa, "usou de persuasão" (mentiu) , mas em depoimento à PF, falou a verdade. "Não tenho nada a dever. A verdade prevalece".

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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