Os erros e acertos de Casagrande em 100 dias de governo no ES
Análise
Os erros e acertos de Casagrande em 100 dias de governo no ES
A relação com a Assembleia; as novidades na equipe; as promessas cumpridas; os cargos entregues a aliados controversos. Veja a análise da coluna
Publicado em 11 de Abril de 2023 às 14:18
Públicado em
11 abr 2023 às 14:18
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Governador Renato Casagrande discursa durante solenidade no Palácio AnchietaCrédito: Hélio Filho/Secom ES
Renato Casagrande (PSB) está no terceiro mandato, não consecutivo, como governador do Espírito Santo. O primeiro (2011-2014) foi marcado pelas fortes chuvas de 2013, que devastaram diversas cidades do estado. No segundo (2019-2022), o socialista teve que enfrentar a pandemia de Covid-19 em meio a um governo federal liderado por Jair Bolsonaro (PL), que conquistou diversos fãs capixabas, espalhou desinformação e negacionismo e colocou a culpa de tudo nos gestores estaduais.
Com Bolsonaro e o candidato bolsonarista local, Manato (PL), derrotados, Casagrande poderia começar 2023 mais aliviado. Certamente, ficou mais feliz do que se tivesse perdido as eleições do ano passado, mas não teve vida fácil.
O governo Casagrande, porém, não teve que lidar apenas com tumultos que ecoaram a partir de Brasília. A começar pela eleição da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa, em 1º de fevereiro.
Ele descartou colocar um policial armado em cada unidade de ensino, por falta de viabilidade prática da medida, e alertou sobre "soluções fáceis para problemas complexos". Mais uma questão a ser enfrentada.
Na segunda (10), o governador completou 100 dias de gestão.
De 1º de janeiro até agora, a administração do socialista cometeu erros e acertos. Vamos a eles:
O NOVO SECRETARIADO - UM ACERTO
Como foi reeleito a duras penas em meio à polarização política nacional, Casagrande contou com o apoio decisivo de uma frente ampla, formada por bolsonaristas e petistas locais. E o primeiro escalão do governo reflete isso. Nos postos-chave, entretanto, quem se destaca é o vice-governador Ricardo Ferraço (PSDB).
O tucano também comanda a secretaria de Desenvolvimento e coordena as áreas de Agricultura e Meio Ambiente. Nesta pasta, aliás, está outro nome de centro-direita, o deputado federal Felipe Rigoni (União Brasil).
Pragmaticamente, foi uma boa ideia dar protagonismo a Ricardo. Casagrande, embora não fosse visto como um entrave por empresários do estado, precisava ampliar a proximidade com esse segmento, no qual o tucano transita com facilidade.
Rigoni no Meio Ambiente foi uma surpresa, afinal, ele não tem experiência na área e é criticado por ambientalistas por defender a exploração do sal-gema, mineral abundante em Conceição da Barra, no Norte do estado.
Mais uma vez, pragmaticamente, foi uma boa aquisição para a equipe.
A nova configuração pode dar mais dinamismo à gestão estadual. Um acerto de Casagrande, se der resultados.
A ELEIÇÃO NA ASSEMBLEIA - UM ERRO E UM ACERTO
A articulação do governo estadual meteu os pés pelas mãos e percebeu tarde demais que Vandinho Leite (PSDB) havia conquistado apoio suficiente entre os colegas para se eleger presidente da Assembleia. Inclusive apoio da oposição.
Apesar de o tucano integrar a base aliada ao Palácio Anchieta, não se pode dizer o mesmo dos deputados mais próximos a ele. Isso sem contar que Vandinho já foi oposição a Casagrande e adota um discurso cada vez mais "conservador". Ele deve imaginar que isso agrada aos eleitores da Serra. O parlamentar é um possível candidato a prefeito da cidade.
Diante do risco de ver a ascensão de oposicionistas na Assembleia e o acirramento do conflito entre deputados goveristas, uma vez que Alexandre Xambinho (PSC) e Pablo Muribeca (Patriota) também são da Serra, o próprio Casagrande teve que agir.
O socialista, de forma incomum, quiçá inédita, defendeu publicamente a eleição de Marcelo Santos (Podemos) para presidir o Legislativo estadual. Assim, o chefe do Executivo imiscuiu-se diretamente numa decisão de outro Poder. Isso acontece sempre, mas nos bastidores.
Foi uma vitória acachapante do governo. Mas ao custo de expor Casagrande. E a gestão ainda teve que administrar alguns efeitos colaterais da eleição no plenário. O resultado do pleito interno, portanto, representou ao mesmo tempo um erro e um acerto.
AOS AMIGOS, TUDO - UM ERRO
Uma crítica frequente a Casagrande, que ecoou na campanha eleitoral de 2022, é a fidelidade do governador ao PSB e a seus aliados.
A princípio, isso é bom. Inspira confiança. Mas quando a gestão estadual está em jogo a coisa complica. Avaliamos aqui, que, no primeiro escalão, Casagrande acertou. Já no segundo e no terceiro escalões...
O inspetor penitenciário Sóstenes Araújo, o nomeado em questão, havia sido preso por suspeita de boca de urna em 2022 e é investigado por supostamente ter coagido presidiários a votarem em determinados candidatos (presos provisórios, que não foram condenados, têm direito ao voto).
Legalmente, o inspetor não está impedido de exercer cargo público. Ele é investigado, suspeito, não foi declarado culpado. Ainda assim, espera-se que a administração pública adote o princípio da moralidade.
Mas aqui vale, novamente, o princípio da moralidade.
Além disso, a coluna questionou a Casa Civil, no dia da nomeação do irmão da ex-senadora, sobre as qualificações dele para o cargo. A secretaria respondeu apenas que não havia "óbice legal ou decisão sentido contrário em desfavor do servidor".
Imagino que tem gente que vai menosprezar esse tópico, seja por menosprezar a própria democracia ou por avaliar que defendê-la é o mínimo.
Infelizmente, nos tempos retrógrados do Brasil atual, opor-se a um governo autocrático e a um golpe militar passou a ser necessário, não algo percebido implicitamente.
Desde antes dos atos de 8 de janeiro, o governador Renato Casagrande defendeu as instituições. Ele corria sério risco de perder as eleições, mas ao contrário de Bolsonaro, em nenhum momento tentou desacreditar as urnas eletrônicas.
Depois de reeleito, montou um comitê de crise com a participação das polícias militar, civil, federal e rodoviária federal, além do Ministério Público Estadual, para coibir novos atentados à ordem democrática e encontrar os responsáveis por eventuais crimes já praticados.
Se Manato tivesse sido eleito, certamente, a postura do governo do Espírito Santo em relação aos atos antidemocráticos seria diferente. Para começar, ele não iria se opor veemente e publicamente a outros apoiadores do ex-presidente.
UMA DERROTA NA ASSEMBLEIA - UM ERRO
Voltando à Assembleia Legislativa, como já mencionado neste texto, a eleição da Mesa Diretora, liderada por Marcelo Santos, deixou sequelas, assim como a distribuição dos espaços nas comissões temáticas da Casa e nas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs).
Mais uma vez, a articulação governista, dentro e fora do Legislativo, bobeou. Um projeto de autoria de Casagrande foi colocado em votação em meio ao descontentamento de alguns parlamentares – que tiveram aliados exonerados de cargos comissionados do governo naquele dia mesmo.
Fabrício Gandini (Cidadania), até então, publicamente, aliado de Casagrande, apresentou uma emenda ao projeto, que criou a Bolsa-Estudante, e aumentou o valor da bolsa de R$ 400 para R$ 800.
É que o estado detinha 39,9% do capital social da empresa, apesar de ter um percentual maior das ações decisórias.
A privatização deve resultar na melhora a infraestrutura para distribuição de gás natural canalizado. Trata-se de um combustível menos poluente, por exemplo, que o carvão e importante para a transição energética.
A disponibilidade de gás natural também é um fator relevante na hora de uma indústria decidir onde se instalar.
E o dinheiro da venda, a parte que cabe ao Espírito Santo, deve ser investido em rodovias.
E AGORA?
Em 100 dias, Casagrande cumpriu algumas promessas, como o envio à Assembleia e a sanção da lei que mudou as regras de aposentadoria de policiais e bombeiros militares, o que agilizou a ida desses servidores à reserva e as promoções na carreira de quem permaneceu na ativa.
Há muito a ser feito e ainda é cedo para cobrar algumas coisas, como a conclusão das obras do Hospital Geral de Cariacica – mais uma promessa de campanha.
Outras questões são mais simples, como adotar critérios mais objetivos e éticos na hora de nomear pessoas para cargos comissionados.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.