Recém-lançada campanha do governo federal entoou pelo evento de inauguração do Contorno do Mestre Álvaro, na Serra: "O Brasil é um só povo!". Mas há várias camadas nesta história
Publicado em 18 de Dezembro de 2023 às 15:02
Públicado em
18 dez 2023 às 15:02
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Presidente Lula discursa na inauguração do Contorno do Mestre Álvaro, na SerraCrédito: Fernando Madeira
A inauguração do Contorno do Mestre Álvaro, na Serra, na última sexta-feira (15), foi palco da primeira visita do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao Espírito Santo durante o mandato que começou em janeiro de 2023. Nas outras vezes em que ele comandou o Executivo federal (2003-2010), as coisas eram diferentes.
Por mais que houvesse a polarização com o PSDB, a antagonização com o bolsonarismo, ou a extrema direita, desde 2018, deu à rivalidade política um outro tom. Para se ter uma ideia, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) esteve na Assembleia Legislativa do Espírito Santo, para ser homenageado, no último dia 9 de novembro, a palavra de ordem era tratar todas as pessoas de esquerda não como adversárias, mas como inimigas.
Já na tenda em que houve a cerimônia de inauguração do Contorno do Mestre Álvaro, a plateia que aguardava a chegada de Lula, formada, majoritariamente, por petistas e simpatizantes do Partido dos Trabalhadores, passou horas ouvindo, em looping, a música "O Brasil é um só Povo!", tema da nova campanha do governo federal.
"Quero ver um novo dia, um Brasil e um só povo/ Dá pra ver um clima novo", diz a canção.
A ideia parece ser quebrar a tal polarização e pregar união. O resultado do segundo turno das eleições do ano passado explicitou a divisão: Lula recebeu 50,9% dos votos e Bolsonaro, 49,1%.
Em certa medida, o petista adotou, na Serra, parte desse espírito de conciliação, como ao pedir ao público que não tratasse políticos de outros partidos como adversários. Foi uma reprimenda após a plateia ter vaiado, por exemplo, os deputados federais Da Vitória (PP) e Gilson Daniel (Podemos), que estavam à mesa do evento.
Mas as frequentes menções a Bolsonaro, chamado de "aquela coisa", foram mostras suficientes de que a estratégia continua a ser de enfrentamento entre "lado A/lado B", a mesma adotada pelo próprio ex-presidente.
O antecessor de Lula está inelegível, mas, mesmo assim, o presidente da República fez questão de citar, por diversas vezes, o que Bolsonaro fez e, principalmente, o que ele deixou de fazer.
Por que trazer ao centro do cenário alguém que está à margem? Os valores que sustentam a extrema direita persistem, mas são maiores que o ex-chefe do Executivo e não precisam ser personificados nele.
Lula, contudo, continua, como na campanha, a se mostrar como o oposto de Bolsonaro, o único anteparo contra o "facínora que pregou o ódio".
Ao discursar, na Serra, Lula criticou quem "utilizou a boa-fé do povo evangélico para mentir, dizendo que a gente ia fechar igreja, dizendo que a gente ia fazer banheiro unissex, dizendo que a gente ia fazer isso ou aquilo".
"Se tem um cara nesse país que acredita em Deus é este que está vos falando aqui"
Lula (PT) - Presidente da República
Partidos de direita e extrema direita tomaram conta do nicho evangélico.
O partido da Igreja Universal, o Republicanos, por exemplo, que então se chamava PRB, apoiou os governos Lula e o início do governo Dilma Rousseff (PT).
Mas, recentemente, passou a adotar o slogan "O verdadeiro partido conservador do Brasil" e apenas parte dos deputados federais da sigla apoia Lula.
O discurso do presidente na última sexta-feira também teve algumas contradições.
Ele defendeu as mulheres, disse que "eles" (os bolsonaristas) não gostam da autonomia das mulheres. "(Para eles), a mulher tem que ser objeto. Não. A mulher é cidadã, é sujeito da história e não tem que pedir licença para ninguém", afirmou Lula.
Muito bem. O problema é que, na prática, o próprio Lula não indicou uma mulher para compor o Supremo Tribunal Federal nas duas oportunidades que teve em 2023 e ainda reduziu a participação delas no primeiro escalão do governo.
O presidente ainda criticou "a elite brasileira" que, segundo ele, nada fez pelo povo brasileiro em 500 anos. O petista, nos bastidores, porém, tem um relacionamento bastante amistoso com as elites. Um exemplo foram os contatos frequentes, durante anos, com Emílio Odebrecht (dica: leiam o livro A Organização, de Malu Gaspar).
Para completar, Lula exortou a plateia a lembrar de "um metro de rodovia" inaugurado por Bolsonaro no Espírito Santo e foi além: "Em todos os estados que eu vou eu pergunto se alguém lembra alguma obra que 'aquela coisa' inaugurou".
Bem, no Espírito Santo, Bolsonaro não inaugurou nem "um metro de rodovia" mesmo.
Mas a obra do Contorno do Mestre Álvaro também foi feita a várias mãos.
O curioso é que o prefeito de São Mateus, Daniel da Açaí, estava lá na inauguração, na Serra, na plateia, e não se insurgiu contra a afirmação de Lula.
Cenas da visita de Lula ao ES na inauguração do Contorno do Mestre Álvaro
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.