PP e Republicanos: um pé dentro e um pé fora do governo Lula
E no ES?
PP e Republicanos: um pé dentro e um pé fora do governo Lula
Via de regra, os partidos do Centrão apoiam o governo da vez, seja qual for. Agora, conseguiram a façanha de estar e não estar na gestão federal ao mesmo tempo. No ES, deputados do PP e do Republicanos seguem independentes ou na oposição
Publicado em 12 de Setembro de 2023 às 02:10
Públicado em
12 set 2023 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Governo federal cedeu para obter mais votos na Câmara dos DeputadosCrédito: Zeca Ribeiro/Agência Câmara
O governo Lula (PT) cedeu a dois dos principais partidos do Centrão, o Republicanos e o PP, para obter mais votos favoráveis na Câmara dos Deputados. O presidente dispensou Ana Moser (sem partido) do Ministério do Esporte para abrigar André Fufuca (PP-MA) e tirou a cadeira de Márcio França (PSB-SP) em Portos e Aeroportos para dar lugar a Silvio Costa Filho (Republicanos-PE).
Nada de novo no front. Via de regra, o Centrão apoia o governo, qualquer governo. Na época de Dilma Rousseff (PT), por exemplo, o Republicanos ganhou o Ministério da Pesca, comandado por Marcelo Crivella.
Mas sob Jair Bolsonaro (PL) a coisa tomou proporções de "nunca antes na história deste país". Mais que ministérios, os deputados federais colocaram as mãos em verbas do orçamento secreto e adotaram um tom diferente do que vinham apregoando nos últimos anos.
O Republicanos virou "o verdadeiro partido conservador do Brasil". E o PP passou a dar abrigo a radicais bolsonaristas, ao menos no discurso.
Tipicamente, partidos do Centrão evitam rótulos ideológicos, até para poderem transitar de governo em governo sem (muitas) contradições.
Agora, entretanto, mesmo ostentando um ministério, o Republicanos nacional divulgou nota afirmando ser um partido "independente", "que não fará parte da base do governo Lula".
A presença de Silvio Costa na gestão deve-se, "exclusivamente", a "um convite pessoal e direto do presidente Lula ao parlamentar”.
Na prática, o Republicanos vai entregar, na Câmara, mais votos do que entregava até agora para o governo. Mas, com a nota, a legenda tenta se dar um verniz menos conflitante com o fato de ser "o verdadeiro partido conservador do Brasil" e ter um ministério num governo dito progressista.
O presidente do Republicanos no Espírito Santo, Erik Musso, apressou-se, ainda antes do anúncio oficial da ida do correligionário Silvio Costa Filho para o governo Lula, a dizer que "não faremos parte do governo Lula! Somos independentes".
É que, desde então, o partido passou a receber críticas por se aproximar da gestão do PT. "Alguns têm trazido uma conversa distorcida para dentro do partido, têm dado ouvidos a fake news e utilizado palavras chulas e carregadas de ódio nas nossas redes sociais", escreveu Musso, no Instagram, em 29 de agosto.
O PP, por sua vez, não se deu ao trabalho de divulgar uma nota. O presidente nacional do partido, Ciro Nogueira, foi homem forte do governo Bolsonaro e faz oposição a Lula no Senado. Na Câmara, Arthur Lira (PP-AL) ajuda o governo quando isso significa ajudar a ele mesmo.
AMARO E DA VITÓRIA, OS PRAGMÁTICOS
Deputado federal Amaro Neto Crédito: Republicanos/Divulgação
Não são todos os deputados federais do PP e do Republicanos que vão votar a favor de propostas endossadas pelo governo Lula. Mas boa parte vai.
Seria ingenuidade imaginar, como quer fazer crer a nota dos republicanos, que o convite a Silvio Costa Filho foi apenas pessoal. Lula não moveria peças do primeiro escalão apenas para agradar a uma ou duas pessoas. Não existe "toma lá" sem "da cá".
Por outro lado, se boa parte vai votar com o governo, isso quer dizer que outra parte não vai.
O Republicanos tem dois deputados federais no Espírito Santo: Amaro Neto e Messias Donato. O PP tem outros dois: Evair de Melo e Da Vitória. Nenhum deles virou governista.
Mas podemos dividi-los em blocos: Amaro e Da Vitória são mais pragmáticos, não se dizem aliados de Lula, mas tampouco fazem oposição.
Amaro, aliás, vota conforme a orientação do partido na maioria das vezes. Assim, se o governo conseguir convencer a liderança da legenda na Casa a orientar votações específicas, o mais provável é que ele siga a toada.
Da Vitória, como coordenador da bancada capixaba, presidente estadual do PP e aliado do governador Renato Casagrande (PSB), tem que se equilibrar e vem fazendo isso.
Os dois já disseram à coluna que vão se manter independentes, apesar dos nomes dos respectivos partidos na titularidade de ministérios do governo Lula.
EVAIR E MESSIAS, OS RADICAIS
Deputado federal Evair de MeloCrédito: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados
Logo, continua a se apresentar como oposição ao governo Lula, com um discurso alinhado aos tempos áureos do bolsonarismo.
Messias Donato, que tem Euclério Sampaio (União) como padrinho político, é menos moderado que o prefeito de Cariacica. Pastor da igreja Quadrangular, ele apela a um posicionamento conservador de base religiosa para mobilizar os eleitores, principalmente nas redes sociais.
Assim, precisa antagonizar o governo Lula e não vai parar de fazê-lo.
E O PT, HEIN? E O LULA?
Quanto ao governo Lula, difícil crer que Fufuca e Silvio Costa tenham mais qualificação que os antecessores para comandar os ministérios para os quais foram designados.
Assim, quem aposta alto é o presidente Lula. Entregou dois ministérios e outros cargos, como na Caixa e na Fundação Nacional de Saúde (Funasa), em troca de votos volúveis.
Foi o possível após herdar um Centrão turbinado. Os representantes desses partidos estão no Congresso Nacional, é preciso lembrar, porque a população votou neles.
OS MAIS QUERIDOS
O PP tem, ao todo, 52 deputados federais. O Republicanos, 45.
A recente pesquisa "A Cara da Democracia", feita pelo Instituto da Democracia (IDDC-INCT) com financiamento de CNPq, Capes e Fapemig mostrou que, entre os eleitores que têm preferência por algum partido, 65% dizem se identificar com o PT. Outros 15% são simpatizantes do PL.
O Republicanos e o PP aparecem com 1%, cada um, da preferência dos entrevistados.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.