Prefeitos do partido de Pazolini vivem sinuca de bico, que provoca até desfiliação
Eleições 2026
Prefeitos do partido de Pazolini vivem sinuca de bico, que provoca até desfiliação
Republicanos se movimenta para lançar prefeito de Vitória candidato ao governo do ES. Mas alguns correligionários de Pazolini já declaram apoio a Ricardo Ferraço (MDB)
Publicado em 26 de Março de 2025 às 03:55
Públicado em
26 mar 2025 às 03:55
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
O vice-governador do Espírito Santo, Ricardo Ferraço, e o prefeito de Vitória, Lorenzo PazoliniCrédito: Ricardo Medeiros e TV Gazeta/Reprodução
Ainda há muita água a passar sob a ponte até 2026 e nem todos os políticos que se movimentam para serem candidatos vão realmente aparecer nas urnas no ano que vem. Mas o fato é que o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), e o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB) já colocaram seus respectivos blocos na rua e tentam se viabilizar para disputar o Palácio Anchieta.
Essa corrida com largada antecipada deixou os demais prefeitos do Republicanos numa sinuca de bico: apoiar o correligionário ou o nome endossado pelo governador Renato Casagrande (PSB), Ricardo.
O Republicanos tem, ao todo, oito prefeitos no Espírito Santo, a maioria no interior, onde a influência do Palácio é grande, devido a verbas de convênios e a investimentos estaduais.
A coluna entrevistou seis dos sete colegas de partido que ocupam o mesmo cargo que Pazolini. Micula, de João Neiva, foi o único que não falou.
Três já escolheram um lado, estão com Ricardo Ferraço. Outros três tentam se equilibrar entre lá e cá e aguardam o avançar do calendário eleitoral.
Fernando Camiletti, de Sooretama, até assinou a ficha de desfiliação do Republicanos para deixar tudo bem claro.
“Vou caminhar com Ricardo. (Permanecer no partido) geraria um clima ruim para mim, que sou prefeito. Já dei minha palavra ao Ricardo, mas ficar no Republicanos poderia transmitir alguma dúvida”, afirmou Camiletti à coluna, na terça-feira (25).
Questionado se a decisão partiu dele mesmo ou se foi um pedido governista, Camiletti garantiu tratar-se de iniciativa própria:
“É minha iniciativa mesmo. O projeto de Casagrande e Ricardo atendeu muito os municípios do Espírito Santo e Ricardo vai conseguir dar continuidade”.
O prefeito era o presidente municipal do Republicanos e estava filiado à legenda desde o ano passado. Camiletti também já integrou o PSB de Casagrande.
“Não tenho nada contra o Republicanos, aliás, só tenho a agradecer ao partido. É legítimo eles se movimentarem, mas conheço o Ricardo há muito tempo. Até por consideração, decidi sair”, justificou. Ele ainda não definiu um novo partido.
Enquanto isso, o prefeito de Mimoso do Sul, Peter Costa, diz que a tendência é seguir o mesmo caminho, desfiliar-se do Republicanos para solidificar o apoio ao vice-governador.
“Tem 90% de chance de eu sair do partido. O governo ajuda muito na reconstrução da cidade (Mimoso sofreu com uma enchente no ano passado). Precisamos dar sequência aos projetos. Eu apoio Ricardo Ferraço”, afirmou Peter Costa.
“Se for outro nome (a ser apoiado por Casagrande), vou reavaliar”, ponderou o prefeito.
Peter Costa ainda não sabe em qual legenda vai ingressar. “Vai ser algum partido de centro-direita que apoie o governo”, adiantou.
Na segunda-feira (24), Ricardo esteve em Mimoso do Sul, como governador em exercício, para participar da solenidade que lembrou um ano da tragédia causada pela enchente na cidade. Foi ciceroneado pelo prefeito.
Vice-governador Ricardo Ferraço em Mimoso do Sul, na última segunda-feira (24). Ao lado dele, o prefeito da cidade, Peter CostaCrédito: Mateus Fonseca/Governo-ES
Gedson Paulino, de Iconha, é outro que declarou apoio ao vice-governador, mas nem cogita sair do Republicanos.
“Em todo o Sul vejo o trabalho do governo. Nós, prefeitos do interior, dependemos muito do governo do estado, que tem aberto as portas do Palácio para a gente”, destacou Paulino.
“Apoiei a reeleição do Casagrande e, para garantir estabilidade e continuidade, apoio (para 2026) o candidato do governo, que hoje é Ricardo Ferraço”, cravou o prefeito de Iconha.
Gedson Paulino até alfinetou Pazolini:
“É legítimo o partido se movimentar, todo mundo colocar seus nomes nesse momento. Mas Pazolini vai deixar o mandato pela metade? (ele teria que renunciar à prefeitura no ano que vem para disputar o Palácio Anchieta). Não gosto disso, de deixar mandato pelo meio. Estou no meu melhor momento para disputar o cargo de deputado estadual, ano que vem, mas não vou fazer isso”.
Em vez de se desfiliar do partido do prefeito de Vitória para marcar posição, entretanto, o chefe do Executivo de Iconha tem outra ideia: tentar unir pazolinistas e casagrandistas.
“Acredito que posso ser interlocutor dessa parceria. O Republicanos pode entender que é melhor caminhar no mesmo projeto que Casagrande”, afirmou Paulino.
“Ricardo é o melhor nome para a continuidade. Continuidade, não continuísmo”, destacou.
O prefeito de Iconha é filiado ao Republicanos desde 2018, foi, portanto, eleito e reeleito pelo partido e passou, em 2022, por uma experiência parecida com a que vive agora.
Naquele ano, o presidente estadual do Republicanos, Erick Musso, ensaiou disputar o governo estadual, contra Casagrande.
Os prefeitos do partido de Erick viram-se entre a cruz e a caldeirinha e muitos optaram por ficar ao lado do governador.
Os três prefeitos republicanos já comunicaram a Erick Musso que, em relação ao pleito de 2026, optaram por Ricardo Ferraço.
A coluna procurou o presidente estadual do partido, mas ele não deu retorno às tentativas de contato.
Nos bastidores, defensores do lançamento da candidatura de Pazolini acusam o governo estadual de usar verbas a serem repassadas via convênio para pressionar os prefeitos (sem apoio a Ricardo = sem convênio).
A coisa não precisa, entretanto, ser tão explícita.
Municípios com baixa arrecadação são, via de regra, dependentes de recursos estaduais. Os prefeitos, naturalmente, nem que seja só por via das dúvidas, esforçam-se para manter um bom relacionamento com o governante da vez.
Mas tem um "detalhe": obter o apoio de lideranças políticas de uma cidade não significa, necessariamente, contar com os votos dos eleitores locais.
O tema aqui são os prefeitos do Republicanos, mas vale registrar que Pazolini recebe "fogo amigo" também disparado da Assembleia Legislativa. O deputado estadual Hudson Leal (Republicanos), desde 2022, posiciona-se como desafeto do prefeito. No ano passado, por exemplo, apoiou Capitão Assumção (PL) para a Prefeitura de Vitória.
Agora, não chega a surpreender que ele esteja ao lado de Ricardo Ferraço. "Meu candidato é quem o governador Casagrande indicar. Hoje, é o Ricardo", afirmou o parlamentar à coluna.
LÁ E CÁ
Também filiados ao Republicanos, os prefeitos de Guarapari, Rodrigo Borges, de Castelo, João Paulo Nali, e de Venda Nova do Imigrante, Dalton Perim, preferem dar tempo ao tempo.
Eles incensam, ao mesmo tempo, os esforços do próprio partido e a gestão Casagrande/Ferraço.
Rodrigo Borges, aliás, pensa como Gedson Paulino, de Iconha, em relação a uma possível aliança entre pazolinistas e casagrandistas.
“Converso muito bem com o governo e pode ser que se forme até uma junção entre os grupos. Seria precipitado falar qualquer coisa agora”, avaliou o prefeito de Guarapari.
“Penso em caminhar junto com o meu partido, debatendo o que é melhor para o Espírito Santo. Não que não exista chance de apoiar o Ricardo”, afirmou João Paulo Nali, de Castelo.
“Converso muito com Ricardo e com os representantes do Republicanos. O debate tem que ser sobre os projetos a serem apresentados pelos candidatos para o estado, não sobre nomes”, defendeu.
Dalton Perim considera a discussão sobre a sucessão estadual algo “muito precipitado. “Os municípios precisam ter boa relação com o governo estadual”, lembrou, sem citar Pazolini nem Ricardo.
Venda Nova, coincidentemente, foi a cidade escolhida pelo prefeito da Capital para iniciar visitas ao interior, com a intenção de se fortalecer para a disputa do ano que vem.
Erick Musso, Lorenzo Pazolini e Evair de Melo na Festa do Tomate, em Venda NovaCrédito: Instagram/@erick musso
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.