Quanto custou, afinal, a viagem de Marcelo Santos à Europa
Eslováquia e Itália
Quanto custou, afinal, a viagem de Marcelo Santos à Europa
Presidente da Assembleia Legislativa do ES passou dez dias no exterior, em missão oficial na Eslováquia e na Itália, acompanhado do secretário de Comunicação Social da Casa. Veja a agenda deles lá e as cifras
Publicado em 04 de Abril de 2023 às 02:10
Públicado em
04 abr 2023 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
O deputado Marcelo Santos (de óculos à esquerda) visita uma vinícola da EslováquiaCrédito: Guto Netto/Ales
No dia 15 de março, a Assembleia Legislativa do Espírito Santo informou, no site oficial da instituição, que o presidente da Casa, Marcelo Santos (Podemos), embarcaria, naquele dia mesmo, em missão oficial, para a Eslováquia. Não houve menção, na publicação, sobre o custo da viagem, quem arcaria com tal custo ou quem acompanharia Marcelo.
A estadia do presidente na Europa durou dez dias. Ele esteve também na Itália.
No dia 21 de março – enquanto Marcelo Santos ainda estava em missão oficial – a reportagem de A Gazeta registrou, com base em informações publicadas no Diário do Legislativo e outras repassadas pela assessoria de imprensa da Assembleia, que, com o deslocamento do presidente, os cofres públicos não gastaram nada.
Ele, de acordo com a assessoria, "abriu mão de passagens e diárias, pois está usando um crédito de viagem que comprou no período da pandemia (de Covid-19) e que estava prestes a expirar".
Mas o secretário de Comunicação Social da Assembleia, Carlos Augusto de Almeida Neto, como informou a reportagem, também embarcou.
A viagem dele, a trabalho, foi custeada pelo Legislativo. Além das diárias, a Casa arcou com as passagens aéreas utilizadas pelo servidor. No total (somando diárias e passagens), o custo foi de cerca de R$ 45,2 mil.
As cifras variam a depender do destino – se dentro do estado, fora do estado ou fora do país. A última opção, anteriormente, nem era prevista. O texto também estabelece as normas para o pagamento da verba indenizatória.
Uma diária no exterior pode chegar a US$ 480,00, tanto para deputados quanto para servidores em cargos de direção e assessoramento estratégico.
O secretário de Comunicação recebeu, assim, cerca de R$ 25 mil somente em diárias. O pagamento, conforme prevê o ato publicado no dia 14, é feito antecipadamente, com autorização do ordenador de despesa.
Carlos Augusto de Almeida Neto confirmou à coluna, nesta segunda-feira (3), que solicitou e recebeu o pagamento pelas diárias. Inicialmente, A Gazeta registrou tratar-se de um reembolso, mas não é assim que funciona.
Convenhamos que, do contrário, o servidor teria que ter dinheiro disponível ou um excelente limite no cartão de crédito para arcar, meio em cima da hora, com os custos de uma viagem ao exterior e somente depois ser indenizado.
As passagens aéreas do secretário de Comunicação, considerando todos os trechos envolvidos no trajeto de ida e volta durante a missão especial, custaram R$ 20,2 mil, de acordo com o próprio secretário.
Quando retorna da viagem, de acordo com a regra, o servidor tem que prestar contas das passagens e das diárias num prazo de dez dias. Isso inclui informar local de destino e pernoite e dia e hora da partida e da chegada ao destino; apresentar ticket de embarque (ida e volta) e relatório que conste, obrigatoriamente, as atividades desenvolvidas.
E DAÍ?
Ok, o governador Renato Casagrande (PSB) já viajou ao exterior mais de uma vez em missão oficial. E não foi sozinho.
O chefe do Executivo estadual não recebe diárias, usa um cartão corporativo que fica à disposição da Casa Militar, mas as viagens dele têm um custo aos cofres públicos, certamente maior do que essa viagem de Marcelo Santos, já que o deputado, por si só, não onerou o erário e levou consigo apenas um servidor.
Então qual o motivo dos questionamentos desta coluna, da publicação de uma reportagem e até de um editorial de A Gazeta a respeito? Coisa que não acontece toda vez que Casagrande entra na sala de embarque de um aeroporto internacional.
É que, talvez, nunca antes na história do Espírito Santo, um presidente da Assembleia foi, desacompanhado do governador, a uma missão oficial deste tipo que Marcelo empreendeu na Eslováquia e na Itália.
É algo, no mínimo, incomum. Erick Musso (Republicanos), por exemplo, esteve à frente do Legislativo estadual por seis anos, tendo Marcelo Santos como vice-presidente, e não há notícia de que o republicano tenha feito algo semelhante.
Pelo (provável) ineditismo, a viagem por si só chama a atenção. E ainda mais ao ter como destino a Eslováquia, país sobre o qual a maioria dos capixabas tem pouco conhecimento. Pareceu meio aleatório.
Cobrar transparência sobre os gastos públicos é perfeitamente plausível.
R$ 45,2 mil
Foi quanto custou a missão especial da Assembleia à Europa
A Eslováquia é um país da Europa Central. Tem 49 mil quilômetros quadrados e cerca de 5 milhões de habitantes. A língua oficial é o eslovaco. Há um consulado honorário da Eslováquia em Vitória.
"O cônsul eslovaco no Espírito Santo, Gerardo Molina, foi categórico ao comentar o interesse no mercado capixaba. 'Nosso gás aumentou de valor em mais de 300% e o Espírito Santo tem grandes campos de produção e um complexo portuário que merece ser explorado para que o mundo e o Brasil se comuniquem por aqui', disse Molina", registrou a Assembleia na publicação do dia 15.
Marcelo Santos e Renato Casagrande haviam estado no consulado. O governo do país europeu convidou os dois a fazer uma viagem e conhecer as potencialidades de parcerias com o Espírito Santo. Casagrande não pôde ir.
"E eles querem trazer algumas tecnologias para o Brasil, para transformar penas de aves em fertilizante. Somos o maior produtor de ovos do país", contou Carlos Augusto Neto. "O tamanho do nosso estado e a população são parecidos com o da Eslováquia. Trocamos experiências", complementou o secretário.
"Fomos também conhecer a destinação do lixo na cidade de Brescia (pronuncia-se Brécha). Eles recebem recebem mais de 400 toneladas de lixo por dia e incineram. O calor gera vapor e o vapor gera energia para a cidade e ainda alimenta o sistema de aquecimento", narrou o secretário.
A sugestão para a viagem à Itália partiu de um empresário italiano com laços com o Espírito Santo, ainda segundo Carlos Augusto de Almeida Neto.
"Visitamos o parlamento italiano. Um deputado falou da parceria de Vêneto com o Espírito Santo, que está adormecida. Podemos fazer um intercâmbio cultural e comercial. Eles precisam de mão de obra qualificada, principalmente na área da saúde", disse o secretário de Comunicação.
PODE ISSO?
Os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado viajam para fora do país em missões oficiais, assim como outros integrantes do Congresso Nacional. Em relação ao presidente da Câmara, "para viagens nacionais, a diária de R$ 611,00. Para viagens para América do Sul, US$ 428,00 e, para viagens para outros países, US$ 550,00".
Deslocamentos desse tipo realizados por parlamentares estaduais, contudo, são raros. O fato de a Assembleia do Espírito Santo nem ter estipulado uma diária internacional até o dia anterior ao embarque de Marcelo Santos à Europa denota isso.
A Casa, contudo, já viveu polêmicas envolvendo viagens ao exterior.
A Gazeta revelou, em 2016, que o então deputado estadual Sandro Locutor, que na época presidia a União Nacional dos Legisladores e Legislativos Estaduais (Unale), havia estado em diversos países representando a entidade, mas bancado pelos cofres da Assembleia do Espírito Santo.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.