Ricardo Ferraço: "A renovação pode ser uma armadilha"
Entrevista exclusiva
Ricardo Ferraço: "A renovação pode ser uma armadilha"
Pré-candidato ao Palácio Anchieta concedeu entrevista à coluna e respondeu sobre planos eleitorais, Paulo Hartung e até Lorenzo Pazolini. Vice-governador também refletiu sobre "decepção das pessoas" com a eleição de Fabiano Contarato (PT) e Marcos do Val (Podemos) em 2018
Publicado em 03 de Fevereiro de 2025 às 07:34
Públicado em
03 fev 2025 às 07:34
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Ricardo Ferraço durante entrevista no gabinete da vice-governadoriaCrédito: Letícia Gonçalves
O vice-governador Ricardo Ferraço (MDB) já se disse pronto para ser candidato ao governo do Espírito Santo em 2026 e é o plano A do grupo do governador Renato Casagrande (PSB) na disputa pelo Palácio Anchieta. Para chegar lá, entretanto, Ricardo tem que se viabilizar, pontuar bem nas pesquisas de intenção de voto, manter a base aliada unida, enfrentar adversários e observar as movimentações de um antigo aliado, com o qual já não mantém relações.
O principal, como em todo pleito, porém, é estar atento ao humor dos eleitores. E se em 2026 houver uma nova onda da mudança, como a que ocorreu em 2018? Naquele ano, Ricardo Ferraço e Magno Malta não foram reeleitos para o Senado. No lugar deles, a população escolheu Fabiano Contarato (então filiado à Rede e hoje ao PT) e Marcos do Val (na época, filiado ao Cidadania e hoje ao Podemos), que agora estão no final dos respectivos mandatos.
O vice-governador recebeu a coluna, para uma entrevista exclusiva, na última sexta-feira (31), e respondeu sobre todas essas questões.
Quanto à última, cravou: "A palavra renovação é muito sedutora, mas tem que ser observada com cuidado. Às vezes, renovação pode representar uma armadilha".
Confira a entrevista:
Em 2010 o senhor tentou disputar o governo do Espírito Santo, foi vítima do "fogo amigo", e é vice-governador pela segunda vez. Ser candidato ao governo, ou ser governador, é um sonho ou um projeto pessoal seu?
Não é um projeto pessoal. Em política, o projeto deve ser coletivo. Mas, sim, desejo muito ser candidato a governador e ser governador. Estive presente em 2002, quando iniciamos, lá atrás, sob a liderança do ex-governador Paulo Hartung, o processo de reconstrução do Espírito Santo.
Naquele momento, fui secretário de Agricultura, depois fui vice-governador e senador. Participei ativamente de todo o movimento que reorganizou o Espírito Santo. Acumulei um ativo de realizações que me habilita e me estimula a ter a oportunidade, se essa for a vontade de Deus e dos capixabas, de liderar o Espírito Santo e dar continuidade ao trabalho do governador Renato Casagrande.
Em 2026, se Hartung não for candidato ao Palácio Anchieta,— e em nenhum momento ele declarou o contrário —, vamos ter algo inédito desde 2002. Nem Hartung nem Casagrande vão concorrer ao governo.
Isso pode incentivar uma onda de mudança, o desejo do eleitor por um candidato novo, assim como ocorreu em 2018, na corrida pelo Senado, quando o senhor não se reelegeu...
A palavra renovação é muito sedutora, mas tem que ser observada com cuidado. Às vezes, renovação pode representar uma armadilha. A palavra renovação tem a ver com o estado de espírito, com a capacidade de você estar conectado com o sentimento da sociedade, que é muito dinâmico.
Houve, de fato, um movimento de renovação em 2018, quando eu disputei o Senado, e muita gente acreditava que fosse ter renovação. O que a gente tem assistido é a uma grande decepção por parte das pessoas.
"Eu vi muita decepção com essa renovação"
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Era um ambiente que apostava num movimento que fosse para o Senado para fazer as grandes mudanças que o Brasil precisava, precisa.
Eu mesmo, no dia a dia, ainda encontro com pessoas que dizem "que, arrependimento por não ter votado em você, você fazia um mandato que representava bem o Espírito Santo, estava sempre presente nos grandes debates e eu caí na armadilha da renovação, troquei gato por lebre".
Então, a renovação por si só, tem que ser observada com muito cuidado.
Quando o senhor fala em "armadilha" e resultado das eleições de 2018 para o Senado, certamente, está falando também dos dois senadores eleitos naquele ano, Marcos do Val (Podemos) e Fabiano Contarato (PT), que são de partidos que integram a base aliada ao governo Casagrande.
O senhor tem alguma relação com eles?
Não tenho nenhuma relação política com eles, tenho uma relação institucional. Relação política, partidária, eu não tenho. Nem com um, nem com outro. Até porque as nossas visões e as nossas convicções são bastante distintas.
O senhor acha que eles não entregaram um bom resultado nos últimos oito anos?
Não sou eu, é a população que acha.
Mas e o senhor?
Eu acho que eles representaram naquele momento uma expectativa de renovação que vem acompanhada de uma enorme frustração, porque uma coisa são as estratégias eleitorais, outra coisa é o que você faz no dia seguinte para representar o Espírito Santo.
Você ser bom de Instagram, por exemplo, não significa que você é bom médico, não significa que você é bom engenheiro, não significa que você está habilitado para ser bom governador.
Ser bom de rede social é uma coisa importante, o simbólico é importante, aquilo que você simboliza, as empatias que você constrói, as identidades que você constrói, isso efetivamente impacta e é produto de marketing, mas tem o dia seguinte.
O dia seguinte é o dia da entrega, é o dia da realização, é o dia de você transformar expectativas em realidade. Isso exige treinamento, experiência, energia e exige saber fazer.
Acho que vamos debater isso no processo eleitoral de 2026.
Por enquanto, é muito trabalho para manter o governo performando, entregando e realizando.
E, no Espírito Santo, não acredito em fadiga.
Nós encerramos 2024 com o menor indicador de desemprego da nossa história e com uma redução da extrema pobreza e da pobreza sem precedentes.
O senhor mencionou que o governador Casagrande lidera uma frente ampla. Tem partidos de centro-esquerda e centro-direita, com objetivos eleitorais. Como manter essa frente unida no ano eleitoral, quando o senhor, provavelmente, é que vai ser o candidato?
Eu não defendo a unanimidade, defendo a pluralidade e que as pessoas possam defender seus projetos.
Da mesma forma que eu estou pronto e determinado para ser candidato a governador e receber apoio dessas importantes lideranças, também estou pronto para apoiar qualquer uma dessas lideranças que possam representar esse nosso movimento. Os nomes são conhecidos (Arnaldinho Borgo, Sérgio Vidigal, Euclério Sampaio, Da Vitória e Gilson Daniel).
O que me assegura a união do movimento é o respeito, é o entendimento de que não apenas a minha pretensão é legítima, mas de outras pessoas também é legítima, colocando o interesse do Espírito Santo acima de qualquer outro interesse.
Casagrande já afirmou que, para o senhor ser o candidato a governador, o senhor precisa se viabilizar, ou seja, ser competitivo nos percentuais de intenção de voto. Há uma data de corte já combinada para definir isso? Por exemplo: até o mês X tem que atingir X%?
Eu queria lembrar que quando eu fui deputado federal, fui o deputado federal mais votado do Espírito Santo. Quando eu fui candidato ao Senado (em 2010) fui, aliás, ainda sou o político mais votado da história do Espírito Santo (1.557.409 votos).
"Sou o político mais votado da história do Espírito Santo"
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Temos o ano de 2025 para conversar e acredito que com trabalho, com humildade, com energia, a gente vai conseguir viabilizar esse projeto político.
A data de corte é, seguramente, em março de 2026. Porque nesse momento o governador Casagrande terá que decidir se ele fica no governo ou se ele sai do governo. Se Casagrande sair, ele é candidato ao Senado e eu assumo o governo e sou candidato à reeleição.
Se o Casagrande ficar como governador até o fim, ele conduz o processo de eleição e eu também estou me colocando como candidato a governador, mas penso como um time, é um projeto coletivo.
Em discursos recentes, o senhor criticou governos que só pensam em responsabilidade fiscal e em fazer poupança, em detrimento de investimentos. Esse lema da responsabilidade fiscal foi entoado por Paulo Hartung, na campanha de 2014. Ele criticava Casagrande por, segundo o ex-governador, desorganizar as contas públicas. Quando o senhor critica a ênfase nesse tópico, é um recado para o ex-governador?
Vez por outra nosso governo sofre ataques especulativos, mentirosos e falsos de que a responsabilidade fiscal não é uma prioridade para o nosso governo e que as nossas contas não são organizadas. Vez por outra você tem ataques sorrateiros e falsos nessa direção.
E esses ataques não se sustentam. Ano após ano a Secretaria do Tesouro Nacional publica o ranking dos estados e tem 13 anos que o nosso estado é nota A. Aliás, em 2024 nós fomos nota A+.
Além de liderarmos a responsabilidade fiscal no Brasil, nós também lideramos em organização de contabilidade pública.
Quando eu afirmo isso, não estou mandando recado para ninguém. Se eu tiver que falar, eu vou falar diretamente, esse é o meu estilo, eu não mando recado, eu falo.
Eu estou mandando uma mensagem, de que o governo Renato Casagrande tem dois pilares: responsabilidade fiscal e investimentos.
O Estado não gera riqueza. Quem gera riqueza são os trabalhadores, os empreendedores. O Estado administra a riqueza que a sociedade produz.
Tem estados que, independentemente do sofrimento, da dificuldade e das necessidades das pessoas, bate no peito que tem medalha por ser um estado com responsabilidade fiscal. Ter responsabilidade fiscal não é não é fim, é meio.
Um meio para fazer investimentos em saúde, educação, segurança e infraestrutura. Nós combinamos essas duas coisas.
Hartung está prestes a se filiar ao PSD e pode ser candidato em 2026. O senhor, que foi vice dele (2006-2010), tem ainda alguma relação política ou pessoal com o ex-governador?
Não tenho relação pessoal nem política com o ex-governador Paulo Hartung. A decisão dele e de qualquer cidadão de se filiar a um partido político é pessoal, é de cada um.
A minha convicção é que nós não estaremos nos mesmos projetos em 2026.
O senhor guarda alguma mágoa do ex-governador, devido ao que ocorreu em 2010, quando o senhor não conseguiu disputar o governo?
"Não guardo mágoa nem rancor de ninguém porque mágoa e rancor não fazem bem "
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O prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), está se movimentando no interior para se viabilizar para disputar o governo do Espírito Santo. O senhor o considera seu principal adversário?
Nunca me preocupei com a estratégia de adversários. Eu me preocupo com a nossa estratégia. E a nossa estratégia, por certo, pelas entregas e pelos resultados que nós apresentamos ao Espírito Santo, aos capixabas, eu tenho muita confiança que ela será a vitoriosa.
No último dia 25, Pazolini esteve na Festa do Tomate, em Venda Nova do Imigrante, e o senhor também. Chegaram a se encontrar lá?
Não, não o encontrei. Mas eu não frequento o interior do Espírito Santo apenas em período pré-eleitoral ou eleitoral.
Eu frequento o Espírito Santo para trabalhar o ano todo e a vida toda. Fortalecer os arranjos produtivos é fortalecer a geração de emprego e oportunidade para as pessoas. E o arranjo produtivo do tomate, assim como o arranjo produtivo do café e de outras culturas, é uma atividade que nós fazemos no dia a dia. Tem gente que visita essas regiões para passear e participar de festa. Entendeu?
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.